"Encontros com África" no Brasil:CDC Angola em Niterói

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A Companhia de Dança Contemporânea de Angola apresentou no Teatro Municipal de Niterói, Brasil, nos dias 7 e 8 de Abril a peça "MpembaNyiMukundu", a convite da direcção do evento "Encontros com África".

Companhia de Dança Contemporânea de Angola Fotografia: Leonardo Zullun

Fundada e dirigida pela bailarina e coreógrafa Ana Clara Guerra Marques, A CDC criou uma linha de trabalho que, dispensando as narrativas de estruturação convencional, dá preferência às propostas que confrontem o público com as suas próprias histórias, aspectos do seu quotidiano, das suas realidades sociais, da sua condição de cidadãos de universos que se cruzam numa época em que as barreiras geográficas e culturais são superadas pelos recursos que nos disponibilizam as novas tecnologias. Estas mesmas que, conjuntamente com outras linguagens, passaram a integrar os discursos artístico e estético da CDC Angola, onde o corpo e o movimento constituem o elemento catalisador.
A partir de estudos de investigação efectuados em várias regiões de Angola foram propostos diferentes vocabulários e novas linguagens, no âmbito da pesquisa e experimentação, apresentando outras possibilidades para a revitalização da cultura de raiz tradicional de que são produto as peças A Propósito de Lweji (1991), Uma frase qualquer… e outras (frases) (1997), Peças para uma sombra iniciada e outros rituais mais ou menos (2009) e Paisagens Propícias (2012/13) e MpembaNyiMukundu (2014)
Por outro lado, com Corpusnágua(1992); Solidão (1992); 1 Morto & os Vivos (1992), 5 Estátuas para Masongi (1993) Introversão versus Extroversão (1995) ou Ogros… da Oratura… e do Fantástico (2008), a CDC Angola desloca a dança para espaços não convencionais, introduzindo o público a diferentes formas e conceitos de espectáculo. Para estas criações faz parcerias com alguns dos mais importantes nomes da literatura e das artes plásticas angolanas, entre os quais Manuel Rui Monteiro, Artur Pestana Pepetela, Frederico Ningi, Carlos Ferreira, Jorge Gumbe, Mário Tendinha, Francisco Van-DúnemVan, Masongi Afonso, Zan de Andrade e António Ole.
A utilização da dança como meio de intervenção e crítica social, expondo o Homem enquanto cidadão do mundo e protagonista da cena social angolana, é a marca desta companhia, como revelado nas peças Mea Culpa (1992); Imagem & Movimento (1993), Palmas, por Favor! (1994); Neste País... (1995), Agora não dá! ‘Tou a Bumbar... (1998), Os Quadros do Verso Vetusto (1999), O Homem que chorava sumo de tomates (2011) e Solos para um Dó Maior (2014).

CONDIÇÃO DE SOBREVIVÊNCIA
Responsável pela ruptura estética e formal da dança angolana e lutando desde a sua criação contra os mais diversos obstáculos decorrentes da sua existência num terreno conservador, fortemente cunhado pela quase ausência de um movimento de criação de autor ao nível da dança e praticamente absorvido pelas danças populares e recreativas urbanas, a CDC Angola resiste numa condição de sobrevivência sem qualquer tipo de apoio institucional. Todavia, o labor a que se dedicou para lavrar esta terra e semear o novo não deixa de ser, apesar de todas as adversidades, um privilégio e um desafio que a História lhe propõe, transformando-se numa responsabilidade à qual não pode renunciar. Consciente da importância da sua missão inovadora, esta companhia não desiste de apontar novos olhares sobre a dança, tornando-se em 2009 uma companhia de Dança Inclusiva pela integração de bailarinos portadores de deficiência física.
Com dezenas de obras originais criadas desde a sua fundação, a CDC Angola apresentou mais de uma centena de espectáculos em 15 países e 30 cidades.

FUNDADORA
Licenciada em Dança – Especialidade de Pedagogia, pela Escola Superior de Dança de Lisboa do Instituto Politécnico de Lisboa, Ana Clara Guerra Marques é Mestre em Performance Artística – Dança com a tese«Sobre os Akixi a Kuhangana entre os Tucokwe de Angola: A performance coreográfica das máscaras de dança MwanaPhwo e Cihongo», pela Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa.
É “Prémio Nacional de Cultura e Artes” (2006) e prémio “Identidade” da União Nacional dos Artistas e Compositores, possui os Diplomas de Honra e de Mérito do Ministério da Cultura de Angola e o “Diploma de Honra – Pilar da Dança” da UNAC e membro individual do Conselho Internacional de Dança da UNESCO e Consultora da Ministra da Cultura de Angola.
Ana Clara publicou os livros “A Alquimia da Dança” (1999), “A Companhia de Dança Contemporânea de Angola” (2003) e “Para uma História da Dança em Angola – Entre a Escola e a Companhia: Um Percurso pedagógico” (2008).

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