Entrevista com o musicólogo Ricardo Vilas: "Estou surpreso com a diversidadeda música angolana"

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Investigador brasileiro estuda as conexões musicais entre Angola e Brasil. Ricardo Vilas, musicólogo, doutorado em Antropologia Social, está em Luanda, onde vai proferir duas conferências relacionadas com as conexões musicais entre a África, Brasil, Angola e França, e vai ainda participar num concerto com a Banda Maravilha.

Nesta entrevista ao Jornal de Angola, o investigador falou, entre outras questões, das origens do Samba, da fraca divulgação da música angolana no Brasil, e da sua tese de doutoramento sobre "A circulação musical entre o Brasil e Angola".

O facto de ter tido contacto com artistas angolanos, durante os vinte e nove anos que viveu em França, terá influenciado a escolha do tema da sua tese de doutoramento, "A circulação musical entre Angola e o Brasil"?

Certamente que sim. Mas eu acrescentaria que o contacto não foi apenas com angolanos, mas com músicos africanos de vários países, na medida em que Paris é um centro de encontro de várias culturas do mundo. De fato, o interesse nasceu já no Brasil, antes de eu iniciar os meus longos períodos no exterior, ou seja, de 1970 a 1979, e de 1989 a 2007.

De notar que desde o início de minha carreira musical, eu já  tinha o questionamento sobre as "raízes africanas da música brasileira", posso citar como marco os "afro-sambas", de Vinícius de Moraes e Baden Powell.

Quando se colocou a pesquisa de doutoramento, a questão de fechar o foco na circulação entre o Brasil e Angola foi-se delineando de forma mais precisa. As razões que estão na base desta opção, podem também ser encontradas na longa e intensa história das relações entre os nossos dois países.

Sabemos que tem ensaiado com a Banda Maravilha, quais são os objetivos do seu projeto "Samba, semba"?

É um projeto de encontro musical porque sentimos que há muitas afinidades entre as nossas músicas. A música brasileira é muito conhecida e tem muito espaço em Angola, e a recíproca está longe de ser verdadeira.

Neste projeto artístico, desenvolvido, de forma paralela, com o trabalho de pesquisa académica, buscamos um encontro das nossas especificidades musicais e culturais, evidenciando os pontos de encontro, procurando enriquece-las, sem apagar nem uma nem outra.

O samba veio do semba ou da massemba, ou seja, conhece alguma fundamentação histórica e científica que permite afirmar, de forma categórica, a origem angolana deste género musical brasileiro?

As narrativas sobre a origem sempre têm uma dose de mito e de invenção, aliás toda a tradição, num momento ou outro da história, é inventada. No caso do samba, existem, como não poderia deixar de ser, versões diferentes.

Alguns inclusive afirmam que ele nasceu na Bahia, e não no Rio de Janeiro. Esta última versão sobre a origem carioca do samba encontra mais adeptos, ou mais publicações que a difundem, mas não me cabe estabelecer a "verdadeira " origem do samba. Até porque este "verdadeira" será sempre sujeito a contestações.

Nas práticas musicais dos escravos negros fala-se de umbigada, batuques, rodas de música e de dança rurais, que pensamos ser o caldo cultural de onde surgiu este género denominado samba. Isto certamente tem a ver com práticas semelhantes em Angola.

A primeira gravação de uma música denominada samba data de 1917, é o célebre "Pelo Telefone " de autoria de Donga. Mas preciso dizer que não é o foco do meu trabalho, estabelecer as origens do samba. Quanto a sua filiação com o semba, tudo indica que o tronco comum viria de antes do surgimento semba, em 1945, segundo informações colhidas de fonte mais que fidedigna aqui em Luanda.

Em 2007, depois de vinte quatro discos gravados, completou quarenta anos de carreira. Cinco anos depois, que balanço faz da sua carreira, do ponto de vista do conhecimento da sua obra junto do público?

Por ter vivido muitos anos fora do Brasil, e ter desenvolvido a minha carreira dividida, basicamente, entre a Europa e o Brasil, penso que até 2007, o meu principal público estava na Europa, e na França mais particularmente, de onde originaram os meus lançamentos fonográficos a partir de 1990, num total de 11 álbuns, a maior parte lançados no Brasil.

Desde início de 2008, novamente vivendo no Rio de Janeiro, a minha carreira nacional teve um novo impulso, sobretudo com os lançamentos: "40 anos de MPB", em CD e DVD, e o seguinte "Conexões MPB" , com a participação dos cantores africanos: Ramiro Naka, Sally Nyolo, e Teófilo Chantre, do brasileiro Joyce e do francês Didier Sustrac.

Um dos momentos altos da sua carreira, foi a direcção musical da famosa série "Sítio do Pica-pau Amarelo, baseada no livro do escritor Monteiro Lobato. Conta-nos como foi esta experiência?

 Foi a minha primeira experiência de compor trilhas e temas musicais para a televisão. Sítio do Pica-pau Amarelo foi, como disse, um seriado baseado na obra do escritor Monteiro Lobato, um clássico da literatura brasileira infanto-juvenil, que era exibido em dois horários, manhã e tarde, e era líder de audiência em ambos os horários. Milhões de crianças o seguiam Brasil afora, e foi muito gratificante para mim saber que as minhas músicas eram ouvidas por este enorme contingente de público infantil.

Fora disso, as composições percorriam vários estilos e géneros, seguindo as temáticas da narrativa, que foram de "Viagem à Lua", até os "Doze trabalhos de Hércules", por exemplo. Após o "Sítio", passei a fazer parte da equipe de criação musical de novelas, e participei em alguns clássicos da dramaturgia da TV brasileira, como "Roque Santeiro".

Se a audiência do "Sítio" era grande, a da novela então era muito mais. Acho que o artista se sente gratificado quando tem o público prestigiando e assistindo a sua obra. É assim que eu me senti no meu trabalho na TV Globo, que durou de 1982 a 1988.

Em 1969 foi preso pela ditadura militar. Existe algum nexo entre o seu posicionamento político, na altura, e a tomada de consciência da sua identidade cultural, no domínio da música?

Quando eu comecei na música, em 1967, a luta de resistência contra a ditadura militar já era uma realidade muito presente, sobretudo em certos meios artísticos: música, cinema, e teatro, incluindo os estudantis e jornalísticos.

No meu caso, estava envolvido duplamente, enquanto estudante universitário, na ocasião estava a estudar psicologia, e enquanto músico. Evidentemente que a nossa música estava marcada por esta situação de resistência à ditadura militar, que passava pela denúncia do imperialismo - no caso o americano, que instigou e sustentou o golpe militar, e por uma resistência cultural também, em prol da cultura nacional, e da música em particular.

O início da minha carreira coincidiu com a época dos grandes festivas de música popular, organizados e divulgados ao grande público pelas televisões, principalmente a Globo, no Rio de Janeiro e da Record, em São Paulo. Estes festivais revelaram o que são até hoje os grandes ícones da música brasileira, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola e tantos outros.

Eles foram também a principal tribuna de expressão dos protestos e da resistência contra a ditadura, já que a censura do regime ainda não tinha conseguido calar a música popular. Foi este o contexto que me levou a militância nos movimentos de resistência, e que me levou à prisão e ao exilio que se seguiu.

Acha que a música angolana com qualidade, que se encontra fora do sucesso comercial, é conhecida no Brasil?

Não. Infelizmente há uma grande falta de conhecimento do brasileiro em relação à música angolana, seja a que encontra fora do sucesso comercial, como a que está dentro. Muito tem de ser feito para se ampliar o fluxo no sentido Angola-Brasil. O nosso projeto "Samba, Semba", com a Banda Maravilha, pretende ser um contributo nesta direcção.

Que impressão tem tido dos vários segmentos e tendências da música angolana que vai ouvindo?

Estou de certa forma surpreso com a diversidade que tenho encontrado. Acho que há muitas referências ao período de ouro, mas que a atualidade da cena musical tem revelado uma diversidade, em muitos casos com qualidade, que merece ser mais divulgada.

Acho também que há poucos espaços para shows e concertos em Luanda, onde se poderiam apresentar trabalhos musicais que não sejam apenas ligados a festas.

Não que eu seja contra as festas, longe disso, viva a festa, e festa pede música, dança, e eu gosto muito disso. Mas em outros momentos precisamos ouvir novas musicas, novas invenções, e o espaço que se presta mais a isso são os shows e concertos.

Conhece casos de proximidade entre a MPB e a Música Popular Angolana?

Com certeza, mas convido os leitores a lerem o meu trabalho que está a ser realizado, logo que ele for publicado. Por enquanto, venham prestigiar o nosso show com a Banda Maravilha, no Chá de Caxinde, no próximo dia dezasseis. Muito obrigado, e agradeço a simpatia e o acolhimento dos angolanos.

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