Esculturas do Lobito

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Imagens de grata contemplação na “sala de visitas” de Angola.

Lobito, a bela cidade do litoral-centro de Angola é um destino turístico por excelência. Nos últimos tempos, graças a paz conquistada pelos angolanos tem crescido exponencialmente o número de visitantes oriundos de diversos pontos do pais e do mundo.

A urbe está implantada em redor de uma baía natural com cerca de 2 quilómetros de extensão e 1400 metros de largura. Aqui se situa um dos principais portos da costa ocidental de África, o conhecido Porto Comercial do Lobito. No interior da baía, as águas são calmas e propícias para a prática de desportos aquáticos.

Extensas praias estendem-se de um lado e doutro de uma espetacular restinga de areia com dois quilómetros de extensão, que entra mar adentro em direção à Norte.

Nesta zona privilegiada, foi implantado um aglomerado urbano no qual pontificam exemplares de arquitetura únicos, que atestam não só a presença portuguesa na região mas denotam igualmente a influência de mestres ingleses que no início do século XX participaram na construção do porto e do Caminho de Ferro de Benguela.

Um dos motivos que proporcionou ao Lobito o pomposo título de "sala de visitas de Angola" é um conjunto de estátuas que fazem questão de resistir ao tempo. Sem obedecer a qualquer critério de importância podemos apresentá-las como se segue: "Caminhando", "Monumento à Aviação", "O Homem do Lomango", "O poeta", "A Sereia dos Trópicos".

São obras de arte que permanecem nos dias de hoje como imagens de grata contemplação e têm a assinatura de um engenheiro português, de nome Canhão Bernardes. Escultor autodidata (começou a fazer escultura por entretenimento aos 42 anos de idade) viveu no Lobito durante as décadas de 60 e 70.

Depois mudou-se para o Brasil. Deixaria as suas obras não apenas no Lobito. As províncias do Kwanza-Sul e do Bié testemunham também o seu extraordinário talento. Ao todo, tinha 14 esculturas em locais públicos até ao ano de 1972.Para Bernardes, a escultura deveria significar algo mais para as pessoas, cujos itinerários se vão cruzando ao longo do dia.

"Um meio de aliviar, através da beleza, os percursos rotineiros entre a casa e o trabalho".
" A escultura deve servir como veículo de encanto e de Humanidade e criar um anseio de beleza, ajudando a evolução das pessoas, à caminho de uma harmonia social", disse certa uma vez o autor quando apresentou o projeto de uma escultura que viria a ser conhecida como " Monumento à Humanidade" na capital da província do Bie, a cidade do Kuito. Bernardes deixou fixada a marca indelével de seu cinzel virtuoso no rosto de várias cidades angolanas.

O "Monumento à Aviação" celebra a audácia e o espírito de conquista do Homem face ao desconhecido. Por seu turno, "Caminhando", que se situa numa das suaves encostas da Colina da Saudade, com vista privilegiada para a baía, convida à exaltação de valores simples da vida, que no fundo são tão importantes como as mais complexas interrogações existenciais.

Na época, "Monumento à Aviação" foi considerada obra notável de engenharia, inteiramente executada no Lobito e exclusivamente com recursos técnicos locais. Os trabalhos de fundição foram realizados nas oficinas do Caminho-de-ferro de Benguela comandados pelo engenheiro Alberto Soares Ribeiro.

Foi necessária muita ousadia, até se conseguir suspender, no pedestal, apenas por uma das coxas, um cavalo com 6,30 metros de comprimento do focinho até à cauda e pesando quase duas toneladas.

Tal só foi possível por meio de uma barra de aço embutida na estrutura em bronze. O autor queria ir além de Milles na escultura "Pégaso", na qual o cavalo rompante é sustentado por um matacão de bronze colocado no centro.

O artista recorreu ao cavalo como símbolo de transporte. E fê-lo, não como em "Centauro" ou "Pégaso", nem tampouco em formato de flecha ou tapete voador como nos contos infantis das mil e uma noites. Mas sim como um foguetão, pesado e metálico: " A montada teria de vencer a gravidade e mover-se para o infinito, arrastando no dorso o Homem, que o comanda".

Num galope desenfreado, o animal é domado pelo destemido cavaleiro com uma só mão pousada no seu dorso e se dirige para o desconhecido. Cavalo e cavaleiro vão voando do Lobito para o mar roçando a crista de uma vaga. Uma placa brilhante regista para a posteridade: "Aos homens que, depois do mar domado, querem o infinito".

"Caminhando", por seu lado, embora pouco se tenha a realçar no que se refere à técnica empregue, mostra-nos um conjunto familiar, duas mulheres na sua lide diária, com balaios à cabeça, levando pela mão um "garotelho a saltitar".

Uma das mulheres apresenta o ventre proeminente, na certeza de que, com a maternidade, contribuirá para a continuação da espécie humana. Observado à distância, o grupo, em silhueta, destaca a harmonia da família, a vida vivida na simplicidade e na dignidade.

A escultura tem 2,40 m de altura e foi executada em cimento de produção local, tendo custado 15 contos. Foi mandada executar pelo capitão Alves Aldeia, na época presidente da Câmara Municipal do Lobito, que vira uns dias antes a maqueta do projeto.

Despertaram-lhe atenção aqueles rostos, sem olhos, sem nariz e sem orelhas, pessoas anónimas que povoam um mundo sem desigualdades sociais.

"Caminhando" remete-nos a um súbito refrear no egoísmo, uma quebra na pretensa superioridade de uns homens sobre outros homens. Contemplando a silhueta projetada contra o sol poente, invade-nos um irreprimível desejo de compreender os outros como eles verdadeiramente são, de sentir a sua mão solidária afagando a nossa e nos sentirmos felizes por não mais nos sentirmos sós. Era esse, afinal, o desejo do escultor.

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