Etona arte bantu e filosofia de (in)tolerância

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"Se não me toleras, eu morro". Este slogan lockeano estampou a exposição de escultura e pintura que Etona levou, no dia 18 de Junho, ao hall de exposições do Centro Cultural Português, em Luanda.

Arte bantu e filosofia  de (in)tolerância
Arte bantu e filosofia de (in)tolerância Fotografia: Paulino Damião

 Etona entrou vestido com trajes africanos. A abrir e a acompanhar a mostra, um grupo de tradicionais tocadores de ngoma emprestava ao ambiente ainda mais tonalidades do continente berço. As marcas antropográficas das estátuas de madeira revelavam o seu cunho marcadamente bantu. A contrastar com todo esta simbologia afro-expressionista, estava porém o título da exposição, PRESENT ART (em inglês), a dizer da intolerância de Etona para com a sua língua-mãe. Daí o grande paradoxo de Etona: se não toleramos as nossas línguas bantu, elas acabarão por morrer.
É do domínio comum que um dos elementos mais importantes da identidade e da cultura de um povo é a sua língua. Ainda há tempos, ouvimos um ilustre tradicionalista afirmar que “uma pessoa identifica-se melhor pela sua língua e pelo seu nome.” Como afirmou um dia o director do Instituto Nacional do Património Cultural, o sociólogo Francisco Xavier Yambo “a atribuição dos nomes próprios dos angolanos deve ser fruto da procura constante da identidade nacional, para o conhecimento da nossa história.” Segundo Yambo, a nomeação deve representar o ambiente envolvente em que a pessoa nasce, aspectos culturais, fenómeno naturais e a sua origem familiar Bantu. "Só é desta forma que os nomeados se vão rever nos nomes, pois de contrário estes criam uma aversão à designação desejada, o que pode conduzir à sua mudança", disse. Esta constatação é perfeitamente extrapolável para o universo dos nomes que se atribui aos objectos culturais nacionais, seja um livro, um disco musical, ou uma exposição. Os objectos expostos na exposição de Etona mereciam, pois, um nome mais condizente com as figuras ali desenhadas sobre a madeira, de matriz essencialmente bantu.

Um escultor por excelência
Com esta sua mais recente exposição, Etona vem provar ser um escultor por excelência. Este é, seguramente, o domínio mais conseguido de Etona, pelo que nos foi dado a ver. Sem quaisquer filosofias justificativas daquilo que Batsikama chamou de “razão tolerante”, como parte de um projecto. Para nós, a Arte vê-se a olho nu, sem necessidade de razões filosóficas. A não ser que estas razões se espelhem no corte da madeira ou no traço do pincel. A razão filosófica não pode vir depois da produção da arte, como uma colagem postergada, mas antes, como pressuposto da sua configuração, tal como fizeram os renascentistas europeus dos séculos XV e XVI.
“António Tomás Ana. De seu nome artístico ETONA, nascido na década 60 no Soyo, na província do Zaire, desde cedo viu despertar em si o talento para as artes. A sua primeira inspiração veio do contacto quotidiano com materiais ligados à terra, no seio de uma família de agricultores. Tocou-o particularmente a madeira das árvores e os troncos cortados pelo seu pai. É nessas raízes que se encontra a génese do seu trabalho de escultura.
Nesse tempo, fez de tudo um pouco. Até aprendeu as artes de modelar e costurar como alfaiate, graças aos ensinamentos do Mestre Miguel Mavându. Ainda no Soyo, foi apurando o engenho na escultura e pintura em Ateliers de artistas locais.” Deste discurso da directora do Centro Cultural Português, retivemos ainda “o lugar central que a Mulher ocupa nesta mostra e na criação artística de ETONA. Sua principal fonte de inspiração nas belas figuras que esculpiu em madeira e que habitam este espaço. Mulher Mãe, Mulher Companheira, Mulher Filha. Mulher universal, que ETONA considera o pilar essencial de estruturação da família e da sociedade.”

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