Feira do Dondo em retrospectiva

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A VII Edição da Feira do Dondo abriu as portas no dia 9 Dezembro de 2016, na presença do Secretário de Estado da Cultura, Cornélio Caley, que a conotou com “a reconstituição de uma viagem histórica ao encontro do entreposto comercial do séc. XVII, a que se junta um roteiro turístico e cultural, que tinha como ponto de partida e conuência o Dondo”.

Feira do Dondo em retrospectiva
Tereesa Kasuata Fotografia: Jornal Cultura

A VII Edição da Feira do Dondo, sob o lema “Aposta na Economia da Cultura e no Turismo Interno”, abriu as portas no dia 9 Dezembro de 2016, na presença do Secretário de Estado da Cultura, Cornélio Caley, que a conotou com “a reconstituição de uma viagem histórica ao encontro do entreposto comercial do séc. XVII, a que se junta um roteiro turístico e cultural, que perpassava pelos sítios e lugares de Massangano, e Cambambe, envolvendo as ilhas do rio Kwanza e como ponto de partida e confluência, este local, o Dondo. Por isso, estamos a reconstruir uma feira que conjuga e conjugará, a cultura, o turismo e os negócios”, afirmou aquele dirigente da Cultura angolana..

Júcia Kawango é uma jovem natural de Sanza Pojmbo, Uíje. Está ali a expor os seus artefactos manuais, decorativos, confeccionados com tecido e outros materiais. Júcia produz sapatilhas bordadas, invólucros para garrafas, pegas de cozinha, missangas, gorros e outras bijutarias. “Eu aprendi esta arte no Internato de Sanza Pombo, onde passou seis anos, com as madres”, diz ela com muito orgulho. Esta é a terceira participação de Júcia na Feira do Dondo. E tem dado frutos, garante a jovem. Geralmente, as pessoas fazem encomendas. Para Júcia, a feira é muito útil, “porque me dá mais uma oportunidade, não só a mim, mas a todos os expositores, e ajuda a divulgar os meus produtos. Sinto-me muito orgulhosa e feliz por estar aqui”, conclui a menina de calça jeans enfeitada pela sua própria arte.
Como afirmou na abertura da feira, o secretário de Estado da Cultura, “a realização desta VII Feira do Dondo só foi possível, porque o Governo da Provincial do Kuanza Norte e a Direcção do Ministério da Cultura, assim como todos quantos estão aqui colocaram Angola acima de todas as dificuldades que enfrentamos, quer financeiros, quer morais, para honrar os nossos antepassados feirantes este local.
Estamos, assim, dentro do espírito e do interesse no reencontro com a história, preservação dos sítios e lugares de memória colectiva e, também, na vontade de animar a actividade económica da cidade e da região, desenvolver o artesanato da província do Kuanza Norte e províncias vizinhas, dentro da máxima de que a vida se faz nos Municípios.”
José Alberto Quipungo, vice- governador do Cuanza Norte para a área política e social, destacou a feira como de dimensão nacional, tendo em conta a influência que exerceu na expansão do comércio, através das caravanas idas das Lundas, Quibala e do interior da província, que forneciam produtos diversos a todo o território de Angola, por via da feira do Dondo.

DOM DIVINO

Na sua VII edição, que se estendeu até ao dia 10 de Dezembro, estiveram presentes cerca de 40 expositores do Cuanza Norte, Uíje, Luanda, Malanje e Cuanza Sul, com produtos de cestaria, artesanato, estilistas, livreiros e gastrónomos.
Um menino de 17 anos causou grande admiração nos visitantes pela sua mestria em construir miniaturas em bordão. Costa Andrade Cassango é o seu nome. Diz que aprendeu a fazer as miniaturas em casa, fruto da curiosidade e da investigação detalhada. Tem à sua frente uma réplica de um edifício colonial com varanda larga, que fica na rua onde mora. Cobra pelo casarão 5 mil kwanzas. Ao lado, exibe um jipe todo-o-terreno por apenas mil kwanzas. Frequenta a sexta classe. E diz que o que produz dá dinheiro, pois também vende nos outros dias do ano, perto da sua casa.
Teresa Kaswata nasceu no Kwanza-Norte, na Kisama. Aprendeu a arte de entrançar kibandos e balaios com a sua mãe. Pouco faladora, a expositora sentada no chão traz na alma o cheiro do vegetal da Kisama e o espírito da produção campesina. Ali ao lado, também encontramos Jesus Correia Sebastião, natural do Zanga Mukari, região onde aprendeu a arte de tecer mobílias com tiras de ráfia. Nunca teve mestre, diz ele. “Quando iniciai, iniciai com a colher de pau. Comecei depois a estudar outras coisas, outras coisas, assustei que – pronto! – estou a fazer isso. É um dom de Deus!”
José Sebastião, antes desta lide, era camponês. “Trabalhava no campo. Quando deixei a enxada, comecei a fazer estas obras, na mata, ficava aí na lavra, a divertir...”
É um expositor assíduo da feira. E vai dando os preços: o banco custa 15 mil kwanzas. O mexerico é 500 kwanzas. O almofariz é 4 mil kwanzas cada.
Na mesma tenda está Mbambi José, natural do município da Damba, província do Uíje. Este só responde pela parte do artesanato, cestaria, trabalhos com junco e “algumas coisas bonitas, as garrafas, os candeeiros eléctricos...” Sempre participou na feira, por isso, acrescenta José, “mesmo em tempo de crise, estamos a aguentar o barco”.Presentes na abertura oficial, estiveram o vice-governador do Kwanza Norte para o sector político e social, José Alberto Quipungo, o administrador de Kambambe, Francisco Manuel Diogo, o director nacional do Instituto das Indústrias Culturais, Gabriel Cabuço, e o director provincial da Cultura, David João Buba.

ACERVO RELIGIOSO

"Igrejas Monumentos de Angola" foi o título da exposição fotográfica que mostrou o acervo religioso do país, patente na sétima feira do Dondo.
A amostra comportou várias imagens dos principais templos da Igreja Católica em Angola, edificados durante o período da colonização e expressou o papel dos missionários na evangelização.
Entre os retratos destacaram-se os das igrejas do Késsua (província de Malanje), ruínas da antiga catedral do reino de Mbanza Congo (Zaire), do Santo Adrião (Namibe), de Nossa Senhora de Nazaré, Nossa Senhora da Conceição e São José (Luanda) e de Nossa senhora da Vitória de Massangano (Kwanza Norte).
A exposição realçou ainda a recuperação das infra-estruturas da antiga Paróquia de Nossa senhora do Rosário de Cambambe, construída na vila com o mesmo nome, até então em estado avançado de degradação, cuja intervenção permitiu a completa recuperação da sua muralha.
O referido templo é considerado como sendo o berço da evangelização no corredor do Cuanza, pelos missionários católicos, por altura da penetração dos portugueses no interior do reino do Ndongo, à procura das minas de prata.

HISTÓRICO DA FEIRA DO DONDO

Segundo o historiador angolano, Emanuel Caboco, cujo trabalho transcrevemos na íntegra, “a Feira do Dondo, no passado, foi um importantíssimo entreposto comercial, porque a única via de penetração para o interior era o rio Kwanza e o porto principal era Dondo que ligava o comércio do Norte ao do Sul de Angola. Sal, sal gema, peixe seco, café, óleo de palma, artefactos de metal, eram, dentre muitos outros, os produtos que a população comercializava nessa feira.
Por volta de 1583 que Paulo Dias de Novais, ao iniciar a sua marcha pelo Rio Kwanza rumo à descoberta das fantasiosas minas de prata em Kambambe, entra em contacto directo com o famoso povoado ou entreposto comercial, ou seja, a célebre feira fluvial do Dondo que, ao ser já de grande interesse económico para as população africana, veio a ser também, para Portugal. Colonos portugueses passaram a controlar o seu movimento mercantil, sobretudo com o incremento de um novo produto: os escravos.
Os negociantes e colonos portugueses organizaram na região um intenso tráfico de escravos que era facilitado pela ligação entre o Kwanza e o Atlântico. Mas, outras vezes, os escravos eram encaminhados para Luanda em caravanas!
Pelo incremento dado à actividade esclavagista, comercial e portuária, Dondo registará, consequentemente, uma gradual densidade demográfica, constituída pela população africana e portuguesa ao mesmo tempo que se desenvolve um aglomerado de características propiciadas pelo incentivo dessas mesmas actividades que perduraram até perto do século XX.
Mais tarde, entre finais do século XIX e princípios do século XX a via fluvial acabará por ficar para trás e os processos de comunicações ao se tornarem mais eficientes, além de outras de carácter social e humano acabaram por triunfar. Consequentemente a feira e a cidade acabaram em decadência.
A sua realização hoje resulta da necessidade da sua reconstituição histórica, promovendo o conhecimento sobre a importância que a antiga Feira do Ndondu, tinha para a economia das populações em Angola em épocas passadas e de promover o Turismo na medida em que Dondo é um centro de irradiação para atracção turística, rodeado de outros locais de memória. Referimo-nos aos santuários (Muxima, Masanganu e Rosário), à barragem de Kambambe, as famosas ruínas de Nova Oeiras, a pitoresca Vila de Kalulu, a pedra Laúca, as luxuriantes florestas de Kazengu e de Libolo, os impressionantes rápidos e cataratas assim com as tradições populares.”

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