FENACULT II : Agostinho Neto no espírito de Kilamba-criador-de-jisabu

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O cidadão Agostinho Neto marcou presença neste mundo com dois nomes: um, oficial, constante na sua documentação pública – bilhete de identidade, certidões de registo de nascimento e de casamento, livros de tomada de posse como Presidente da república Popular de Angola e outros – e o outro, particular, adstrito à tradição africana e, por isso, incluso no círculo das atribuições secretas dos dignatários da espiritualidade – o Kilamba.

Agostinho Neto no espírito de  Kilamba-criador-de-jisabu
Agostinho Neto à conversa com sobas Fotografia: Jornal Cultura

O espírito de Kilamba

Este, que também era nome de guerra, utilizado durante os anos da luta armada de libertação nacional, seria ampliado e imortalizado pelo povo, na designação de Kilamba Kiaxi – o médico da terra. Deu origem a nome de município e mais recentemente a uma cidade moderna e grandiosa.
Nas páginas 43 a 45 da obra etnográfica de Óscar Ribas, “Ilundu – Espíritos e Ritos Angolanos”, encontramos uma descrição minuciosa das capacidades e características espirituais do Kilamba. Assim “o kilamba é o intérprete das sereias, ou seja, o sacerdote do culto de tais entidades”, começa por nos apresentar o autor.
Kilamba é uma das quatro entidades que constituem os ministros do culto desse fenómeno sócio-cultural africano que se convencionou chamar de Religião Tradicional Africana, logo a seguir ao kimbanda, em termos de hierarquia espiritual e acima do muloji e do mukua-mbamba.
Na obra Ilundu, podemos ler que o Kilamba é “procedente de kituta” e “nasce fadado a comunicar-se com semelhantes seres.” Portanto, enquanto Kilamba faz parte do corpo de ministros do culto tradicional, é uma pessoa física, Kituta é um ente sobrenatural, um ser espiritual terrestre que vive em toda a parte, “como matas, cacimbas, montes, rochas.”
Enquanto Kilamba, Agostinho Neto saía da esfera da cultura ocidental, introduzida pelo colonialismo, que lhe havia facultado os benefícios culturais da civilização do livro, como o curso de Medicina e a Ciência Política, para se integrar noutra esfera emocional e espiritual, da cultura Bantu. É nesta outra esfera étnico-linguística, fundada na transmissão oral e na sua filosofia expressa em géneros discursivos de onde sobressai, no dizer de Héli Chatelain, “um rico thesouro de proverbios ou adagios (jisabu ), de contos ou apologos (misoso ), de enigmas (jinongonongo) e de cantigas, aos quaes se podem juntar as tradições historicas (malunda) e mythologicas, os ditos populares, ora satyricos ou allusivos (jiselengenia), ora allegoricos ou figurados (ifikila); em todos os quaes se condensou a experiencia dos seculos e ainda hoje se reflecte a vida moral, intellectual e imaginativa, domestica e politica das gerações passadas: a alma da raça inteira (11). "[...] esta litteratura hereditaria (…) póde rivalisar com a de qualquer raça [...]", afirma o mesmo autor.

Utopia versus Politopia

A análise da biografia de Agostinho Neto (desde o seu nascimento em 1922, até à sua morte em 1979) permite-nos destacar, na obra e na vivência deste autor, dois períodos distintos. O primeiro foi o período da Utopia, realizado plenamente na melhor poesia libertária, engajada e africanista que se produziu na história da Literatura Angolana, que mais tarde seria reunida nas obras “Sagrada Esperança”, “Renúncia Impossível” e “Amanhecer” (1945 – 1960). O segundo período foi o da Politopia, a participação na direcção do aparelho partidário (MPLA) e, mais tarde, no aparelho de Estado, como Chefe de Estado da RPA, periodo da realização da Utopia no templo da Polis (1961 – 1979).
Operamos aqui um corte epistemológico radical na análise da vida e obra do Poeta. Tentar reunir os dois momentos da história da vida de A. Neto, como se da mesma consciência se tratasse, é cair num equívoco de enormes proporções, porque não há relação de continuidade entre uma obra inspirada e concretizada na solidão individual e no abstraccionismo do espírito e uma obra inspirada e concretizada na convivência colegial da acção política (luta de libertação e construção do Estado independente), estando o protagonista sentado no topo da pirâmide social. Acontece que, nesta nova conjuntura, impera sempre a essência indelével do Poder, enquanto síntese da Utopia colectiva e démarche impositiva e coactiva do Governo colegial, passível sempre de contradições e fricções dentro do próprio colégio reitor do Poder. Entre a Poesia e a Política há uma respiração gemelar. Entre a Poesia o Poder Político não há solução de continuidade. Toda a boa e verdadeira Poesia, como a de Neto, vem de baixo, no seu apelo à consciência humana. Pelo contrário, o Poder sai de cima para baixo, na sua verticalidade coactiva. Serve esta pequeno enquadramento biográfico da vida de Agostinho Neto para determinar que toda e qualquer crítica destrutiva à poesia de Agostinho Neto, sem levar em conta a poesia da geração a que pertenceu, nem o estudo comparado com a literatura ocidental e Americana conduz-nos a uma certa perplexidade epistemológica. De tantos poetas angolanos que coabitaram no reino da poesia com Agostinho Neto, alguns até mais concretistas e mais prosaicos que A. Neto, porque é que os detractores da obra deste grande poeta, viram-se unilateralmente para a poesia da Sagrada Esperança e da Renúncia Impossível?
Devido à colagem que se tem feito entre o Neto-poeta e o Neto-presidente. O ilustre professor Pires Laranjeira afirma que “o carácter intrinsecamente histórico do seu discurso e, mais ainda, premonitório, legitimador e fundador do que viria a ser o MPLA, gizado, nesse preciso percurso poético pré-1956, como movimento popular de libertação nacional (com letra minúscula), expressa, de modo explícito, a potência de liderança do seu autor. Os poemas têm inscrito no seu discurso o desejo de “movimento popular”, de liderança política e de organização social tendente à libertação independentista, de acordo com a projecção doutrinária dos primeiros escritos de prosa de Agostinho Neto”.
Esta análise, quase forçada, de Pires Laranjeira, sobre a poesia de Neto é daquelas várias que têm dado azo a proposições incongruentes como as tecidas por Helena Wendo, no seu artigo “O Grau Zero na Escrita Poética de Agostinho Neto”.
Helena Wendo afirma que “os poemas de Agostinho Neto (são) um simples Kitsh ou, por outras palavras, (...) simples textos panfletários e transcreve integralmente, como exemplo, o poema “Havemos de Voltar”. Mais adiante, atesta que “estamos assim perante o grau zero da escrita na poesia de Agostinho Neto, ou, conforme Barthes, o espaço nulo da escrita artística, fazendo de Neto não um escritor mas um escrevente, tal como se pode ver neste excerto de "Renúncia Impossível:

Mais do que um simples suicídio
Quero que esta minha morte
seja uma verdadeira novidade histórica
um desaparecimento total
até mesmo nos cérebros
daqueles que me odeiam
até mesmo no tempo
e se processe a História
e o mundo continue
como se eu nunca tivesse existido
como se nenhuma obra tivesse produzido
como se nada tivesse influenciado na vida
se em vez de valor negativo
eu fosse zero”.

Esta diatribe representa um insulto à consciência de qualquer artista. É, também, um insulto à Literatura Universal. Será que ela leu todos os poemas de Agostinho Neto ou apenas aqueles que cita? Será que Helena Wendo leu a bela obra de arte contida nos versos de “Poema”, do livro Sagrada Esperança?
A nossa perplexidade epistemológica atinge os píncaros da dúvida sobre a validade dos estudos literários que a autora diz ter feito em Portugal, pois ela declara: “o meu espírito, tão prenhe de curiosidade, não podia ficar indiferente aos poemas de Camões, Cesário Verde, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa, Ana Hatherly, E. M. de Melo e Castro e outros não afins à língua portuguesa como Baudelarie.” E ainda nos causa mais dificuldade intelectual perceber que estas diatribes tenham partido de uma pessoa que diz estar ciente de que “quão errado é avaliar uma produção artístico-literária através de um critério extra-literário.”
É que dizer como ela diz que “estamos assim perante o grau zero da escrita na poesia de Agostinho Neto, ou, conforme Barthes, o espaço nulo da escrita artística” é, na melhor das hipóteses, uma manifestação de falta de rigor científico e de falta de ética intelectual, para além de um quase nulo domínio do conhecimento do fenómeno literário angolano, africano e universal, aí inserida a bela poesia portuguesa.
Se lermos alguns extractos deste belíssimo poema de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa que a senhora Wendo diz ter lido, e citamos:

"Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço. ”,
negaremos a racionalidade e a validade epistemológica da pretensa “análise literária” que Helena Wendo faz e o sítio Nação Ovimbundo publicou. A análise literária faz-se, também, de estudos comparativos. E este poema de Álvaro de Campos, do qual Wendo nunca contestou a literariedade, por ser obra do grande poeta Fernando Pessoa, não está muito longe das imagens evidenciadas e da filosofia imanente nos poemas Havemos de Voltar, Caminho do Mato e Renúncia Impossível. Aliás, a autora foi infeliz na escolha de Renúncia Impossível, uma das maiores odes da língua portuguesa. E o poema Havemos de Voltar é uma criação do génio do Poeta Angolano, que se insere no quadro do género dos Mimbu, (canção popular em Kimbundo), assim como Portugal tem o seu livro dos cancioneiros.
Como a pretensa analista literária não conhece estas nuances da diversidade poética, não reparou que, no caso do poema Havemos de Voltar, os recursos que o poeta utilizou são muito amplos, embora, à primeira vista, demasiado simples. Existe ali a musicalidade intrínseca na gradação ascendente dos espaços telúricos até entrarmos na super-estrutura da nação angolana; outro recurso estilístico é a repetição do verso “havemos de voltar” que funciona como mote ou refrão; depois nota-se-lhe a rítmica fonética que emana, na leitura, dos versos sempre começados pela crase da preposição e do artigo feminino “às” ou masculino “aos”; veja-se também a plasticidade decorrente das imagens multicolores (verdes, brancas, vermelhas), o impressionismo que resulta dos fonemas escolhidos (algodão, café, milharais, minas, diamante, ferro, ouro, terra e mãe) e que criam na mente do leitor o efeito da sinestesia; todos estes recursos de composição estético-formal e de imagética criam uma paisagem plástica que conferem ao texto o seu carácter de arte sublime. O poeta tem, aqui, plena consciência do processo criativo. E não o fez, como afirmam alguns estudiosos da literatura angolana, para ser melhor entendido pelo seu povo, que, na altura, detinha altos índices de analfabetismo. Não. Fê-lo pela simples razão, nascida de um prisma cultural endocentrista, de pretender introduzir na sua obra, os mais variados géneros da escrita poética, tanto os colhidos do Ocidente (lírico, épico, dramático), quanto os bebidos na sua cultura Bantu (mimbu). Repete-se aqui, o que Héli Chatelain disse atrás sobre a literatura tradicional angolana, “"[...] esta litteratura hereditaria (…) póde rivalisar com a de qualquer raça [...]".
E os mesmos desvios metódicos que levam a autora: a) a confundir recensão literária com diário auto-biográfico, ou crónica familiar e b) a fundir na soldadura hermenêutica a Utopia poética e a Politopia liderante, se revelam nesta penosa e insólita tirada de Helena Weendo: “Só me resta dizer que se estivesse diante de meu pai, dir-lhe-ia que o grande mérito de Agostinho Neto não foi o de produzir poesia de qualidade, já que os seus textos não ultrapassam o nível sofrível, mas o facto de ele ter dado à sua mensagem uma estrutura poética a fim de fazer vingar o seu projecto político-ideológico, que culminou com a independência do país aos 11 de Novembro de 1975 e é nesta perspectiva que Neto terá de ser recordado, ou seja, como o Fundador da Nação Angolana”.
No pólo oposto, e na capa de defensor da poesia de Neto, o catalão Xosé Lois Garcia, no prefácio à edição bilingue de Sagrada Esperança da colecção Sur afiança: “Agostinho Neto é o poeta que manifesta o seu rigor e sobriedade como líder de uma poética insurgente. Também como líder e fundador do MPLA, o que iniciou a luta armada de libertação nacional em 1961. O poeta-líder encarcerado pelo regime fascista de Salazar que o teve como um transeunte de cárcere em cárcere. Mas ele constatou o triunfo revolucionário.” Aqui temos um excesso de zelo revolucionário, conducente à partidarização e entronização da Musa, devido à constatada soldadura hermenêutica. O que é facto é que a própria Musa nunca inspirou versos conotados com o poder político. A prová-lo estão estes de Renúncia Impossível: “Podeis continuar com os vossos sistemas/ socialistas ou capitalistas/ que isso não me interessa”. Esta afirmação é a renúncia da ditadura da Guerra Fria e do próprio sistema mundial do imperialismo que impôs em África regimes à sua imagem e semelhança. Devido ao monolitismo ideológico da primeira República, estes versos só seriam publicados após a morte do Poeta.

Um legado de memória salvífica

O âmbito da nossa dissertação é a Politopia de Agostinho Neto, a sua acção nas vestes de dirigente. O capítulo anterior foi introduzido como aporte necessário para desfazer o impressionante equívoco de certos jovens que me têm interpelado sobre a validade literária da poesia deste escritor.
O que vamos estudar agora são duas citações do discurso político de Agostinho Neto, passíveis de serem destacados da sua arte da oratória. Estas citações vieram à luz pela boca do então presidente da RPA, enquanto provérbio da oratura e poesia residual, ambas inspirações de Kituta que encarnava na pessoa física de Agostinho Neto, Kilamba.
“Quando falamos de tradição em relação à história africana, referimo-nos à tradição oral, e nenhuma tentativa de penetrar a história e o espírito dos povos africanos terá validade a menos que se apoie nessa herança de conhecimentos de toda espécie, pacientemente transmitidos de boca a ouvido, de mestre a discípulo, ao longo dos séculos. Essa herança ainda não se perdeu e reside na memória da última geração de grandes depositários, de quem se pode dizer são a memória viva da África.”, descreve Amadou Hampâté Bâ, escritor do Mali e mestre da tradição oral africana.
“Nas tradições africanas – pelo menos nas que conheço e que dizem respeito a toda a região de savana ao sul do Sara –, a palavra falada se empossava, além de um valor moral fundamental, de um carácter sagrado vinculado à sua origem divina e às forças ocultas nela depositadas. Agente mágico por excelência, grande vector de "forças etéreas", não era utilizada sem prudência”, afirma ainda o mestre maliano.
Reunidos os elementos da tradição kimbundu, à qual Agostinho Neto se vinculava, pelo nascimento na povoação de Kaxikane (Icolo e Bengo), constatamos que ele condensou na sua praxis social esse espírito de Kilamba (médico do povo), associado a uma entidade sobrenatural, kituta (daí a morte prematura) e, nessa qualidade de kilamba receitou remédios para os males de que o povo padecia, em forma oral, através dos seus discursos. Essas receitas extravasaram o espaço das fronteiras nacionais e abrangeram toda a África.
Vamos, nesta modesta dissertação, trabalhar sobre duas expressões lapidares da sua fala às massas populares, portanto, no pleno momento da oralidade africana.
A primeira foi aquela palavra de ordem que Agostinho Neto pronunciou na cidade de Malanje, no dia 21 de Agosto de 1979, na sua despedida final ao Povo angolano, pois ele (devido à sua sensibilidade extrema transmitida pelas sereias que conferem a Kilamba o dom da clarividência) antevira, nesse mesmo ano, o seu próprio desaparecimento físico por doença .
Trinta e cinco anos após essa pronúncia, essa palavra de ordem adquire, na mente de toda a população angolana (intelectuais e dirigentes das mais variadas tendências político-partidárias inclusos) o tom de provérbio, isto é, transformou-se num legado de memoria salvífica. Estamos a falar, como devem ter subentendido, da palavra de ordem “O mais importante é resolver os problemas do povo”. Este provérbio está já consolidado na memória colectiva dos angolanos e até atravessou as fronteiras nacionais, pela via expressa e luminosa da internet, como máxima categórica e imperativa.
Trata-se de um provérbio utilizados no processo interacção com o povo presente no comício de Malanje e com os ouvintes e telespectadores espalhados pelo país inteiro. Trata-se de um provérbio, uma orientação normativa, através do qual, mesmo já sem a presença física do autor, impõe a sua imperatividade sobre o receptor, seja qual for a circunstância ou o momento de transmissão. Tal imperatividade advém da potencialidade didáctica e da função persuasiva inerente dos provérbios.
Vejamos, agora, se realmente esta máxima de Agostinho Neto possui as características ou os elementos que se assacam a um provérbio, seguindo as pisadas de Cláudia Maria Xatara e Thais Marini Socci, encontradas na sua obra “Revisitando o Conceito de Provérbio”.
Na introdução, dizem as autoras que “Provérbio é uma unidade fraseológica fixa e, consagrada por determinada comunidade linguística, que recolhe experiências vivenciadas em comum e as formula como um enunciado conotativo, sucinto e completo, empregado com a função de ensinar, aconselhar, consolar, advertir, repreender, persuadir ou até mesmo praguejar.”
Dos aspectos caracterizadores do provérbio, como se encontram alinhados no artigo acima citado, podemos então ver se são ou não subsumíveis à palavra dita em Malanje, no ano de 1979.
1. Frequência e lexicalização. Verifica-se frequência na pronúncia de muita gente dos mais variados estratos sociais e bandeiras políticas de Angola e a sua reiteração nos blogues da internet. Nota-se ainda que ele constitui uma “Unidade léxica (UL) complexa que não permite que o seu significado seja calculado pelos significados isolados de cada uma das ULs simples contidas no seu interior. O provérbio é omnipresente, ou seja, está em todo o lugar e não deixa escapar nada; intromete-se nas profissões desde o médico ou pedreiro; julga homens, mulheres, crianças, velhos, deficientes físicos, homossexuais; esteve no passado, está no presente e acompanhará as futuras gerações."
2. É uma "cristalização do passado, (que) se mantém surpreendentemente viva no presente.
3. Tradição. Ele já faz parte do sentimento comum do povo angolano, enquanto fruto da experiência da primeira República e das vicissitudes do pós-independência. Tornou-se um "referencial comum".
4. Universalidade. Expressando um “princípio de conduta, ele “é em si, universal, pode se adaptar a outros países e idiomas”.
5. Função de eufemismo. Esta palavra de ordem, aparentemente simples e directa, mascara uma forma indirecta de dizer simplesmente “… não dilapidem o património público.”
6. Autoridade. Dizem as autoras que “a autoridade política e proverbial têm caminhado juntas desde os tempos de Salomão. Na cultura africana, os advogados utilizam-se de provérbios como suporte para os seus argumentos. A argumentação não deixará espaço para a contra-argumentação, o discurso passa a ser irrefutável, por constituir uma verdade consagrada.” É o caso desta palavra de ordem.
7. Polifonia. "Enquanto enunciado discursivo e persuasivo por excelência, é constituído por fios de vários discursos e reveste-se na voz da colectividade, podendo falar por instituições, pelos grupos sociais".
8. Ideologia. A ideologia dos provérbios, dizem as autoras, “tem um certo carácter maniqueísta, faz a oposição entre o bem e o mal, o certo e o errado. “O mais importante é resolver os problemas do Povo” poderá significar uma ideologia de renúncia ao lucro fácil para um empresário avaro, enquanto que, para um empregado significará melhoria de salário, por exemplo. Neste caso, a palavra de ordem transformou-se em sentença, em máxima peremptória e irrecusável.
9. Aspectos estruturais. No que diz respeito à sintaxe, a formulação proverbial é relativamente simples e geralmente costuma responder a alguns padrões:
No caso vertente, temos a estrutura (SN+SV). “No que concerne aos tempos verbais, a maior parte dos provérbios encontra-se no presente do indicativo o que lhes confere um carácter de atemporalidade ou no imperativo, para anunciar uma verdade moral”. Aqui temos o presente do indicativo, “é” e o SN “o mais importante” que lhe confere a imperatividade enunciativa.
10. Cristalização na língua. “O mais importante é resolver os problemas do povo” constitui uma máxima categórica e imperativa que, traduzida pelo Instituto Nacional de Línguas para as grandes língua nacionais de Angola, se fala deste modo:
1. Cavelapo okusokiya ovitangi vyo wiñi (Umbundu)
2. Okyabeta kota okwidika o maka ma athu (Kimbundu)
3. Edyambu disundidi omfunu isikidisa omambu ma 'nkangu (Kikongo)
4. Exi Unene Xinakonaxa Okuwanifapo Eemumbwe Doxiwana (Oxikwanyama)
5. Cuma Camwenemwene Kuyula Phande Jambunga (Cokwe)
6. Kuhakula vyihande vya mbunga cikhiko cacilemu (Luvale)
Por ter transitado do seu criador individual para o colectivo nacional e por estar estabilizado na língua veicular, pode ser inscrito no grande livro dos provérbios que Américo Correia de Oliveira compilou, com as traduções nas diferentes línguas nacionais.

Metáfora discursiva

A outra frase de Neto que aqui destacamos é a que foi pronunciada no dia 9 de Janeiro de 1978, quando recebeu o título de Dr. Honoris Causa pela Universidade de Lagos, pelo seu contributo como Homem de Letras, Combatente pela Liberdade dos Povos e Intelectual Revolucionário. Foi quando Agostinho afirmou: “Hoje a África é como um corpo inerte, onde cada abutre vem debicar o seu pedaço” – metáfora discursiva, que arrasta no seu âmago o espírito inspirador de kituta.
Quanto à sintaxe, esta imagem da África é um enunciado completo, que insere recursos estilísticos, com ênfase para a metáfora.
Quanto à semântica representa “uma verdade geral resumindo experiências vividas por mais de um indivíduo, seja sentimentos ou posicionamentos, e (...) apresenta um valor peculiar restrito a uma região”. Estes versos de oratória não representam uma verdade de resignação consoladora. Antes, surgem como fonte de inspiração e de reflexão sobre o estado de um continente em busca de emancipação pós-colonial.
Segundo revelou revela a viúva, Maria Eugénia Neto, “Durante a sua vida, Agostinho Neto só escreveu poesia num curto espaço de tempo porque a liderança política foi tão desgastante, tomando-lhe todo o seu tempo e energia, que os discursos políticos substituíram os escritos poéticos, embora, muitas vezes, estivessem eivados dela.” O ensaísta brasileiro Benjamim Abdala Júnior, ao analisar a obra e a vida do primeiro Presidente de Angola, concluiu que “Entre as concretizações desses dois campos sémicos da actividade social (literatura e discurso político) ocorriam simetrias de situação.”
Concretizam-se nesta máxima concisa, precisa e verdadeira a simetria entre literatura e discurso político: sob a posição hegemónica do líder, a criatividade poética perseguiu Neto como inspiração residual de Kituta que incorporou no Kilamba, até à última palavra dita neste mundo.

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