FENACULT II-Teatro Uma Árvore no meio do caminho

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Havia uma árvore robusta no meio do mato.

FENACULT II-Teatro Uma Árvore no meio do caminho
Gabriel e Jandira sentados à sombra da árvore Fotografia: Paulino Damião

No curso do nada. A existir para o vento. Para o pássaro. Para os ancestrais. Para dignidade do formato do mato. Para sombra e companhia de Gabriel, o do mato, e que protesta contra o derrube da árvore. Um simplório. Distraído das grandes mudanças do betão, dado à erva, à vida repleta de chão, barro, capim, água, pão e amor. E só isso faz a sua paz. Mas lá no mato também existia Yuri, aquele que respeitosamente ainda chamava Gabriel de tio. Mas Yuri atravessava o mato com sede de betão. Aliás, ganhava a vida com o betão. Era empregado temporário na obra da auto-estrada, o traço de massa de alcatrão destinado a desbravar o capim e a ser motivo civilizacional do salutar derrube da árvore robusta. Yuri era subordinado da urbana engenheira Jandira, a menina da cidade. Gente habituada à presença do cimento, do cheiro da tinta, do ferro, do barulho e da poluição dos automóveis, da “comodidade”, da rapidez dos serviços, da competição institucionalizada, que se desgarrou dos ancestrais, da liberdade enclausurada e da vivência claustrofóbica nos cubículos… Por sua vez, a menina da cidade era subordinada do snobe e engravatado PCA da empresa de construção. Um sujeito gordo, corrupto, que anda com dois (ou mais) telemóveis em mão, ciente de que a sua maneira de vestir ajuda a garantir que segue a conduta recomendável para gente de progresso. Sem descortinar se é ou não hierarquicamente superior, aparece a dama de honra do rei, protocolo necessário para se fazer presente. O rei é apresentando como um defensor do progresso e com planos de expandi-lo sob qualquer preço, mesmo que isso custe muito da vida de pacatos, provincianos ou simplórios conterrâneos e súbditos seus, como é o caso do derrube da árvore secular para estender a estrada. O plano das personagens é análogo a valores como cidadania, patriotismo, civismo, ambientalismo, democracia e pluralismo.
As personagens criam um diálogo em círculo. Os citadinos Yuri, Jandira e
PCA contrapõem Gabriel, que defende que a árvore é a sua vida e que faz parte da aldeia. Um debate vertical que se levanta como trama, sem constituir um conflito a desvendar. O diálogo simples e acessível é o próprio conflito. É participativo. É consensual. É a necessidade de existir a voz das razões de cada. O rei, anteriormente disposto a derrubar a árvore, é levado a crer que a mesma devesse continuar e que a estrada poderia seguir outro curso.
Com uma actuação de destaque, o elenco foi constituído por Orlando Sérgio (rei), Virgílio José António (Gabriel), Yuri de Sousa (Yuri) e Helena Moreno (Jandira). No palco há apenas dez vasos e uma árvore no centro. As sessões de estreia aconteceram no Elinga Teatro, nas noites de 18 e 19 de Setembro. Escrita por Nuno Milagre, o espectáculo enquadrado no FENACULT II foi realizado pelo projecto Mukange, constituído por: Orlando Sérgio, coordenação e produção; Miguel Hurst, encenação e produção; Cristina Gaspar, produção executiva; António Cali, desenho e luz; Binelde Hyrcan, cenografia; João Ana, música.

FENACULT II
Música angolana ganha coleção de discos e emissão de selos

“Memórias do Conjunto Nzaji”, “Memórias da Música Tradicional de Angola”, “Memórias da Música Popular de Angola”, “Memórias do Duo Ouro Negro” e “Memórias do Ngola Ritmos” são os álbuns da coleção Música de Angola-FENACULT 2014, apresentada juntamente com a colecção de selos que carregam com imagens ilustrativas importantes instrumentos da tradição musical, Luxiba, Kalialia, Kissanje e Olunkungulu.
Luxiba é uma flauta de origem Lunda e Baluba, constituída por noves tubos de caniço com tamanhos variáveis e ligados entre si através de entrelaçados de fibras vegetais. Este aerofone, também foi registado entre os grupos etnolinguísticos Bakongo e Ambundu (jimbendo) como parte integrante do conjunto dos seus instrumentos musicais. É usado em cerimónias de circuncisão, bem como em manifestações recreativas dos rapazes.
Kalialia é uma espécie de violino de origem Lunda e Cokwe, feito de madeira e três cordas de fibras vegetais (apresentada habitualmente duas cordas). Uma das extremidades do Kalialia apresenta a forma de um braço curvo que prende as três cordas do violino. A outra apresenta uma caixa acústica ou ressonância decorada com uma face antropomórfica e com várias figuras geométricas.
É um cordofone de influência europeia que existe por toda parte de Angola, comparado ou designado kakoxi e é usado em manifestações de recreação colectiva, executada pelos músicos profissionais, que vivem das suas exibições.
Kissanje é um instrumento musical cujo nome é generalizado a todos lamelafones, com ou sem caixa de ressonância. O presente kisanje é de origem Cokwe e Lunda e é constituído de madeira e teclas de ferro, equipado com uma cabaça acústica decorada com vários motivos.
Trata-se de um modelo para uso exclusivo dos mestres profissionais e é usado para acompanhar os viajantes nas suas longas caminhadas como forma de encurtar a distância. Também, à volta da fogueira, é usada para animar as histórias locais e lazer. Olunkungulu é o arco sonoro e melódico dos Nyaneka-Humbi (muito frequente entre os Mungambwe), formado por uma vara flexível de madeira entalhada em reco-reco e corda (pode ser de pele torcida, de arame ou de nylon a semelhança dos instrumentos actuais) de fibras vegetais, amarrada nas duas extremidades. É um instrumento musical tocado friccionado os entalhes (reco-reco) com uma vara, ao passo que uma das mãos fixa o comprimento da corda vibrante. A peça foi usada em vários rituais. O acto de apresentação aconteceu no dia 18, na sala dos Correios de Angola, com presenças da ministra da Cultura, da Presidente do Conselho de Administração da referida empresa e de distintos músicos e homens de cultura, tendo também momentos musicais a cargo de Carlitos Vieira Dias, que interpretou algumas canções do Ngola Ritmos.    

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