Festa de Carnaval com a benção de São Pedro

Envie este artigo por email

Cor, tradição e folia trouxeram o ritmo do Carnaval à Marginal de Luanda. E não faltou a chuva na primeira edição presenciada pelo novo Presidente da República, João Lourenço. Mesmo com a chuva "amarrada"   seu favor, o União Mundo da Ilha não pôde revalidar o título, tendo sido levado pelo novato União Recreativo do Kilamba

Gingas e trajes expressivos marcaram os desfiles dos concorrentes da classe A do Carnaval da capital angolana, com os distritos urbanos da Maianga e do Rangel, a dominarem a lista dos 12, com três grupos cada. Três horas depois do início do desfile dos grupos carnavalescos, o cenário na Nova Marginal já era o de um carnaval dançado agora sob chuva miúda, e cores vivas, numa altura em que se exibia o União Kiela, e sob o olhar atento do Presidente da República, João Lourenço, e a primeira-dama, Ana Dias Lourenço.
A festa do Entrudo começou às 16h00 depois da chegada do Presidente da República. O governador de Luanda, Adriano Mendes de Carvalho, na presença de vários governantes, com destaque para a ministra da Cultura, Carolina Cerqueira, deputados e convidados, fez a abertura da festa mais popular do país.
Com efeito, o casal presidencial viu-se obrigado a abandonar, por volta das 20 horas, a Nova Marginal, devido à forte chuva que caia sobre a capital do país, quando desfilava o grupo União Njinga a Mbande.
Ainda assim, pela pista da Nova Marginal já tinham passado o grupo homenageado, União Jovens da Cacimba, os colectivos das províncias de Cabinda, Benguela, Cuanza Sul, Huambo e Lunda Norte como convidados. Antes da chuva se intensificar, nove grupos desfilaram pela pista da Nova Marginal dos 12 competitivos.
Como sinal de conservação dos rótulos de veteranos, experientes e seniores, os grupos carnavalescos da Classe A deixaram confuso o corpo de jurado da 40ª edição do Entrudo de Luanda, com performances de "encher os olhos".
Como consequência da intensa chuva que se registou no princípio da noite na cidade de Luanda, o desfile dos grupos carnavalescos da Classe A também teve de ser cancelado e remarcado para sábado, dia 17, às 10h00, no mesmo local, quando faltavam três grupos para o fim da actividade. Em face disso, os resultados, que deviam ser anunciados no dia seguinte," quarta-feira das mabangas", na Liga Africana, só deveriam ser conhecidos também no sábado, no período da tarde.
Entretanto, depois se ficou a saber que os grupos União 10 de Dezembro, União 54, ambos da Maianga, e o Juventude do Kapalanga, da Viana, já não desfilariam sábado, 17, como havia sido anunciado, inicialmente, pela organização, na pista da Nova Marginal, em função do acerto encontrado entre os grupos e a Comissão Provincial do Carnaval de Luanda.
Desta forma, decidiu-se pela manutenção dos 13 grupos da classe A a que se juntaram os cinco primeiros colocados da classe B, enquanto o União 10 de Dezembro, União 54 e Juventude do Kapalanga teriam ainda direito a um subsídio, cujo montante não foi divulgado.

O MOMENTO
DO VENCEDOR

A forte organização, empenho, assim como o amor à arte e a cultura foram os principais "segredos" para o grupo carnavalesco União Recreativo do Kilamba, do distrito urbano do Rangel, vencer o Entrudo de Luanda, divulgado na quinta-feira, 15. De acordo com o comandante do União Recreativo do Kilamba, Poly Rocha, momentos após o anúncio dos resultados dos vencedores do Carnaval de Luanda, a preparação do grupo com vários meses de antecedência foi um dos trunfos para a vitória.
O grupo, que desceu na pista da Nova Marginal sob o comando de Poly Rocha, obteve 842 pontos, superando a concorrência de outros oito concorrentes, e foi o oitavo a desfilar na competição. Durante a sua exibição, o colectivo de 900 integrantes transmitiu mensagens sobre a necessidade da valorização das chamadas profissões liberais.
No desfile central, o grupo exibiu-se com uma coreografia do estilo semba ao ritmo do tema “MeseneyaUfunu” (Mestre) da autoria e interpretação do músico Dom Caetano.
“O nosso grupo, geralmente, prepara o carnaval com muitos meses de antecedência, para que no dia do desfile saia tudo com foi programado. Mas o amor pelo Carnaval é a grande força motriz para vencermos o Entrudo”, ressaltou. Poly Rocha admitiu que o grupo passou por dificuldade financeiras para participar do Carnaval/2018 e apelou aos empresários no sentido de apoiarem mais as colectividades que participam do Entrudo, por ser a maior manifestação cultural do país. Dedicou a vitória a todos aqueles, que desde a primeira hora, estiveram disponíveis e apoiaram o grupo União Recreativo do Kilamba, tanto financeira como moralmente.
O comandante do Recreativo Kilamba disse à imprensa, após o anúncio dos resultados, que em Angola ainda não se dança o Carnaval porque os grupos vencedores investem muito dinheiro e o valor do prémio não compensa.
Apesar de o União Recreativo Kilamba ter vencido essa edição do Carnaval, Poly Rocha reconheceu a qualidade e criatividade dos outros grupos carnavalescos que prestigiaram a sua prestação no desfile central presenciado pelo casal presidencial, João Lourenço e Ana Dias Lourenço.
O comandante do Recreativo Kilamba, que tem como rei Domingos Manuel e rainha Lucinda dos Santos, confessou que o segredo para a conquista do primeiro título teve como base o trabalho antecipado, razão pela qual vão começar a preparar a edição 2019 nos próximos tempos.
Entretanto, a segunda posição foi ocupada pelo União Mundo da Ilha (destronado do título), com 840 pontos, enquanto no terceiro lugar ficou o União Njinga a Mbande, do município de Viana, com 804 pontos.Na quarta posição está o União Kiela, do distrito urbano do Sambizanga, com 796 pontos, e em quinto o União Operário Kabocomeu, também do Sambizanga, com 714 pontos.
Contudo, os resultados divulgados não satisfez alguns grupos, principalmente da comandante do União Kiela, Maravilha dos Santos, que manifestou, de forma visível e contundente o seu desapontamento com o que considera injusto a actuação do corpo de júri liderado pelo critico cultural Jomo Fortunato.

UNIÃO
MUNDO DA ILHA UM RECORDISTA
À ESPERA DE NOVA VITÓRIA

O grupo União Mundo da Ilha, do distrito urbano da Ingombota, continua a liderar a galeria dos vencedores do Carnaval de Luanda, com 13 títulos, depois da realização da 40ª edição.
O campeão do Carnaval de Luanda de 2017 mostrou os seus argumentos na pista da Nova Marginal, com a clara intenção de manter o troféu na sua galeria. O grupo, que trouxe consigo dois mil integrantes ao som e ritmo do semba, não pôde revalidar o troféu este ano, mesmo com todos os condimentos carnavalescos do gingar dos ilhéus.Era como se o União Mundo da Ilha tivesse levado todos os ilhéus à catedral. E enquanto a chuva aumentava de intensidade, o mestre de cerimónia, Afonso Quintas, depois do grupo recordista ter passado pela tribuna principal, disse: “O Grupo União Mundo da Ilha conseguiu amarrar a chuva. Já desfilaram. Agora nós é que vamos cuidar de amarrar a chuva.”
O grupo exibiu-se no desfile central com uma coreografia de semba ao som do tema “Letratoyagimivu” de autoria e interpretação de Tonicha Miranda.Contudo, o presidente do União Mundo da Ilha, António Custódio, disse ter recebido apoios de dois patrocinadores, o que não foi suficiente para cobrir as despesas, razão pela qual teve de usar recursos próprios para suportar os encargos carnavalescos que o grupo levou à Marginal da Praia do Bispo.
O União Mundo da Ilha foi fundado em 1968 e possui na sua galeria 13 títulos. Executa o estilo de dança semba, bem como canções na língua nacional kimbundo. As suas vestes realçam o amarelo, vermelho e branco, lembrando os pescadores e as mamãs da Ilha. A agremiação é fruto da fusão de outros dois existentes na época, designadamente Evita da Ilha e os Invejosos.
O grupo é vencedor das edições de 1980, 1982, 1983, 1984, 1987, 1988, 1997, 2000, 2003, 2004, 2007, 2008 e 2017.Na galeria dos vencedores destaca-se ainda o União Kiela, do Sambizanga, com cinco títulos conquistados, e o União 10 de Dezembro, da Maianga, com quatro títulos.

VEZ E VOZ
AOS CONVIDADOS

Dança, música, hábitos, costumes, tradições, ginga, trajes, xinguilamento e rituais é o essencial que os cinco grupos carnavalescos provinciais apresentaram nesta na Nova Marginal, como parte da riqueza cultural de cada uma das suas localidades.
Mesmo na condição de convidados e, embora num palco hostil, os representantes da Lunda Norte, Cabinda, Huambo, Cuanza Sul e Benguela desfilaram com muita segurança, harmonia e alegria, expondo as suas particularidades culturais e respectivas potencialidades carnavalescas.
Com 80 integrantes, o grupo Maringa da Lunda Norte foi o primeiro a exibir-se, de forma descontraída e destemida, mostrando a riqueza da tchianda, maringa, txanga, kandowa e kandjendje da região Leste do país, sob o comando de Wilson Manuel Serafim e António Pedro.
Isabel KekeSuraya e EnoqueHunga são, respectivamente a rainha e o rei deste grupo fundado a 15 de Janeiro de 2002, no município de Chitato e que conta com quatro títulos no seu historial.
O Tchaco-Tchaco de Cabinda foi o segundo a entrar em acção, com uma coreografia sensacional que mereceu o aplauso da plateia e “cochichos” entre os ministros do Interior, Ângelo da Veigas Tavares, da Cultura, Carolina Cerqueira, e da Juventude e Desporto, Ana Paula Sacramento.
Detentor de três títulos no Carnaval de Cabinda, o grupo exibiu-se igualmente com cerca 80 foliões, ressaltando o folclore da Região Muoyo, zona Sul de Cabinda, com uma canção na língua local Fiote.
O mesmo existe desde 2009, e etimologicamente significa “aquilo que é nosso, ninguém tira”. Foi criado por António Ferro e dança Mayeye, um dos estilos da cultura do subgrupo etnolinguístico Oio do sul da província de Cabinda, exibido nas festividades tradicionais e de salão. Por sua vez, o Ovindjendje do Huambo aproveitou a oportunidade para apresentar aspectos característicos do Reino da Tchiyaca e da cultura ovimbundu, com realce para a dança olondungo, com o tema “O contributo do Reino da Tchiyaka no desenvolvimento da cultura angolana”.
Nesta primeira aparição no Carnaval de Luanda, o grupo (fundado em 2010 e oriundo do município do Chinjenje) apresentou-se com cem ousados foliões, bem caprichados na indumentária, confeccionada com tecido samakaka, na qual predominou as cores amarela e azul.
O Ovindjendje, denominação em língua nacional Umbundu, que traduzido em português significa “pássaros pousados numa árvore” dançou simultaneamente o olondungo, ohatcho e catito, típicas da região do planalto central. É vencedor de quatro edições do carnaval do Huambo.
Vencedor da edição de 2017 no Cuanza Sul, o grupo carnavalesco União Muteda do Sumbe (criado em 2007) foi o quarto emblema provincial a estrear-se na pista da Nova Marginal, no Carnaval de Luanda, a título de convidado, com aproximadamente 90 integrantes.
Com a canção "Mulher Rural", o grupo, comandado por Gilberto Ferreira Simão, evidenciou uma combinação de danças como Varina, Kazucuta, Semba e Kuduro, fazendo jus ao seu nome, que significa (ao mesmo tempo) música, teatro e dança. Tem no seu historial 4 títulos.
Finalmente, o grupo Bravos da Vitória da Catumbela, proveniente da província de Benguela desfilou classe e experiência, provando, tal como os demais “forasteiros” que está a altura de competir com os similares luandenses, e a razão de ostentar 26 títulos conquistados localmente.
Apesar de ser o último a passar, este conjunto (fundado a 23 de Março de 1978) foi o mais ovacionado nas arquibancadas e até na Tribuna Vip, onde esteve também a Primeira-dama da República, Ana Dias Lourenço, e o governador de Luanda, Adriano Mendes de Carvalho. Os Bravos da Vitória da Catumbela contam com 39 participações no Entrudo de Benguela e apresentou-se com mais de cem foliões. Dançou kazukuta, apelando (pela música e coreografia) para a necessidade de uma maior atenção às comunidades rurais e trabalhadores do campo.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos