Festival Internacional de Teatro e Artes – Luanda

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A Internacionalização como sinónimo da qualidade do Teatro Angolano

Festival Internacional deTeatro eArtes – Luanda

Passaram já quatro anos desde que a cidade de Luanda ganhou mais um festival internacional de teatro (a par do festival de Teatro do Cazenga - FESTECA), desta feita o Festival Internacional de Teatro e Artes – Luanda, organizado pelo Elinga Teatro, que vai na sua 2ª edição, visando comemorar a sua data de aniversário (21 de Maio).

Nestes 24 anos de Elinga, a abertura do festival, que aconteceu de 17 a 31 de Maio de 2012, contou com a presença da ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva e da Vice-Governadora para a esfera social, Juvelina Imperial, que fez ponto forte da sua explanação a carta branca dada aos grupos de teatro para que doravante possam utilizar os anfiteatros das diversas escolas para desenvolvimento das artes cénicas.

Na cerimónia de abertura do festival, o grupo Horizonte Njinga Mbande, considerado o guru do teatro angolano, foi agraciado com o prémio “Elinga Teatro” pela sua persistência e dedicação ao desenvolvimento das artes cénicas durante 26 anos.

Houve um momento de comédia – Free Yourmind com representantes da Namíbia, e seguiu-se a exibição do Horizonte Njinga Mbande, de Luanda, coma peça “Uanga, Feitiço”, de Óscar Ribas, um romance folclórico angolano, que retrata a sociedade luandense dos fins do século XIX, com os seus usos, costumes e tradições, peça que contou coma encenação de Adelino Caracol.

Participaram seis grupos de Angola, respetivamente pela ordem de exibição: Horizonte Njinga Mbande com a peça “Uanga, O feitiço” de Oscar Ribas, Elinga-Teatro coma peça “A Errância de Caim”, versão para o teatro de José Saramago, Projeto Perpetuar com a peça “O Método de Groholm” de Jordi Garcerám, Grupo Pitabel com a peça “O Preço do Fato” texto de criação coletiva do Grupo Pitabel, Companhia de Teatro Dadaísmo coma peça “Luanary” versão para o teatro de Luanary de Adriano B. de Vasconcelos, Grupo Vozes de África (Huambo) coma peça “O Reino da Desigualdade” de Nelson Pedro Nhanga, e o grupo Henrique Artes com a peça “fragrância de Amor” de Flávio Ferrão.

Portugal esteve representado pelo grupo Voz Humana, que exibiu a peça “Três Mulheres”, de Sylvia Plath, já o Brasil se fez representar por dois grupos, tratou-se dos grupos Dragão 7, que trouxe na bagagem “O Auto da barca do Inferno” de Gil Vicente, e o grupo O Pecado que exibiu o monologo “O Órfão do Rei”, da autoria de José Mena Abrantes.

De Moçambique veio o teatro jovem e estético do grupo Lareira (que brilhantemente tem representado Moçambique nos festivais internacionais de língua portuguesa),coma peça “Cavaqueira no Poste” de Sérgio Mabombo, e de Cabo Verde a Companhia de Teatro Solaris coma peça “Glória” de Herlandson Lima Duarte.

As exibições ocorreram num clima artístico, todas as sessões registaram sala lotada, onde os grupos convidados, e não só, tiveram a oportunidade de estarem próximos uns dos outros, alguns encontrados somente noutros festivais internacionais, numa trocar de experiência entre encenadores, atores e técnicos, em conversas informais, que permitiu a discussão de aspetos ligados à atividade cênica e ao atual estado do teatro, uma verdadeira festa.

Na opinião de Hilário Belson, encenador da Companhia de Teatro Dadaísmo, “esses eventos são importantes para a classe teatral angolana, pois servem igualmente para unir atores de diferentes nacionalidades, falantes da mesma língua, pois chegamos à conclusão que muitos problemas que o teatro angolano enfrenta, como a falta de salas, de formação, de leis que regulem o exercício teatral e de organizações vocacionadas para as artes cénicas são enfrentados na mesma proporção por outros grupos africanos.”

Já Orlando Domingos diretor do Festival de Teatro do Cazenga afirmou que “o festival do Elinga engrandece o intercâmbio, consolida as posições já conseguidas pelo teatro”.

Estes festivais devem ser encarados como barómetros para que os grupos possam medir o seu nível de crescimento quanto à consistência na conceção dos textos, o melhoramento dos cenários e que os mesmos tenham funcionalidade nas peças, e que não sirvam meramente de função decorativa, o enquadramento e aperfeiçoamento das técnicas de luzes, que tem o seu devido efeito e valor, assim como na elaboração do figurino, e os traços que marcam o conjunto da encenação.

“Hoje aprendemos várias correntes teatrais, vários tipos de teatro. Eu acho que nós, angolanos, quando vamos a um festival internacional, é peremptório que tenhamos que mostrar algo que é nosso, para saberem como é a nossa cultura”, defendeu Adérito Rodrigues, encenador do Pitabel, e concluiu que “o teatro em Angola ainda não vive os seus melhores momentos, ainda há muito que se fazer”.

Contrariado por Flávio Ferrão, encenador do Henrique Artes, que mostrou a sua satisfação pela repercussão que têm tido os trabalhos apresentados pelos grupos angolanos aquando da participação em festivais internacionais, que afirmou que “só não acredita que o teatro angolano está a crescer quem não quer ver, quem não vai a uma sala de teatro, e não observa aqueles itens que são apropriados para um verdadeiro espetáculo”.

“Nós, do teatro, lamentamos muito, e não somos pragmáticos. Não é muito fácil trabalhar nas condições em que nos encontramos, mas nós somos os atores deste processo.” Arrematou Orlando Domingos, diretor do Festival de Teatro do Cazenga.

Além dos doze grupos que apresentaram as suas performances nos quinze dias de exibições, o festival contou igualmente com exibições do grupo Fee Yourmind da Namíbia, com um estilo de comédia que mistura cânticos namibianos, com música urbana, poesia e teatro, o programa contemplou ainda a atuação da Companhia de Artes Kussanguluka de Angola com um espetáculo de dança teatralizada, sobre a história de Tchibinda Ilunga, guerreiro e caçador Luba, que unificou o reino Lunda, teve ainda exposição de pintura e sessões de música ao vivo no seu encerramento.

Faltou a Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, para que tivéssemos, de facto, representados todos os países falantes da língua portuguesa no continente africano, quem sabe na 3ª edição se concretize ou em outras iniciativas como esta realizada pelo Elinga, que não seria possível sem o alto patrocínio do Governo Provincial de Luanda e os apoios da TAAG, da Sonangol, do BPC, da Tipografia Corimba, do Jornal de Angola, do Novo Jornal, e do jornal O País.

Até lá... Que as cortinas não se fechem e os holofotes não se apaguem. ACÇÃO!

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