Festival Rio Loco à descoberta da Lusofonia

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Pela ocasião da sua décima oitava edição de 13 à 17 de Junho 2012, o festival Rio Loco em Toulouse, no sudoeste da França, decidiu explorar os caminhos das culturas dos países de língua portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor) um mundo ainda por descobrir não obstante a presença em terras gaulesas de uma importante comunidade lusitana.

 

Festival Rio Loco

Evento generoso, cosmopolita e pluricultural, o Rio Loco é também um espaço pluridisciplinar no qual para além da música, __ cujo coração bate no parque Prairire des Filtres, nas margens do rio Garonne,  praticamente no centro da chamada cidade cor de rosa__ estão programados o teatro, a dança, as artes visuais, o cinema, a literatura, palestras, exposições e encontros sobre a temática do festival, em vários bairros de Toulouse.

Segundo Hervé Bordier, diretor do festival Rio Loco esta 18ª edição teve como objetivo "traçar os contornos de uma terra incógnita da mestiçagem num mundo lusófono que continua a interrogar-se sobre a sua identidade e que paralelamente nutre sonhos de memória, de futuro e de liberdade".

Os protagonistas

A inspiração que desembocou na temática do evento, segundo apuramos junto dos organizadores, foi provocada pelo angolano Bonga, memória viva da Lusofonia musical, que com exceção dos tradicionais samba e fado (e mais recentemente os ritmos do Brasil nordestino, tais como o maracatú, coco, frevo e demais) procura desencravar-se do seu estatuto de expressão artística confidencial.

Porta-voz do semba, kabetula, rebita, Kilapanga e outras expressões musicais de raiz angolana em terras internacionais, Barceló de Carvalho conhecido pelo nome artístico de Bonga, deu em 2011 a tonalidade do que seria em 2012 a essência do festival Rio Loco.

Depois da sua participação calorosa e freneticamente aplaudida por algumas dezenas de milhares de pessoas, Bonga sugeriu que o décimo oitavo ano de existência do Rio Loco fosse marcado pelo emblema das culturas de expressão lusofonia.

Música, dança, cinema, teatro, fotografia, artes plásticas, palestras e literárias foram as opções retidas pela organização, para a festa lusófona num espaço de francofonia.

Bonga que no dia 5 de Junho antecedeu no sentido próprio e figurado o festival foi de certa forma o MC que abriu a cortina sónica da Lusofonia 2012 em Toulouse. Vieram posteriormente o Conjunto Angola 70, Paulo Flores, Batida (Angola), Ferro Gaita, Teó ilo Chantre, Nancy Vieira, Maria Alice, Tito Paris e Tcheka (Cabo Verde) Ghorwane (Moçambique), Madredeus, António Zambujo, Norberto Lobo & Carlos Bica, Mariza, António Chainho (Portugal), Lenine, Hamilton de Holanda-Marcos Suzano-Jaques Morelenbaum, Malcom Braff (Brasil) e também alguns amigos das lusofónicas culturas como a francesa Juliette para um encontro jubilatório entre o Choro do Brasil e a popular musette francesa na qual o acordeão é o rei do swing.

Caminhada ao encontro das visuais artes.

Deambulando pelas alamedas e pavilhões da Prairie des Filtres também lá descobrimos os artísticos plásticos Tosca, de Portugal e Bruno Novelli do Brasil. Tosca com a sua exposição sob forma de declaração de amor, "Azulejo, meu amor" e Bruno Novelli, que aos 32 anos de idade trouxe para as margens do Rio Garonne, as pulsações de uma arte urbana nova, síntese de imaginário medieval e lúdico, de movimentação tribal e de artefacto digital.

Prosseguindo a exploração da também occitana Toulouse (Tolosa), terra natal do autor-compositor-cantor Claude Nougaro, 9 de Setembro 1929 ­ 4 de Março de 2004 (pioneiro francês nos anos 1960 dos encontros entre as músicas do Brasil e da África em França e pedra fundamental da fusão entre a canção francesa, o jazz e as músicas contemporâneas) fomos até as imediações do histórico Capitole, em pleno centro da cidade.

Na livraria Librairie Ombres Blanches no n°50 da rua Léon Gambetta, o cineasta, realizador, produtor de televisão e fotógrafo angolano, NGuxi dos Santos apresentava a sua exposição fotográfica "Povos e lugares" uma peregrinação ao rico património de Angola, através das suas gentes e culturas. NGuxi dos Santos foi o escolhido entre os duzentos candidatos que também desejavam exibir a sua arte fotográfica, como veremos mais para frente.

Nesta Mostra lusófona de Toulouse, na qual o brasileiro Manifesto Antropófago foi igualmente motivo para debate em redor de uma espécie de encontro de antropofagia gastronómica, (camarão com manga, frango de banana, quindins e outros quitutes) graças entre outros ao lusófilo Michel Chandeigne e à cantora franco-brasileira Rita Macedo, Angola foi alvo da curiosidade e da atenção. Música, fotografia e cinema foram as três artes que neste Rio Loco 2012 representaram Angola.

Visto, revisto e corrigido o filme "Um Herói" (Grand Prix do Sundance Film Festival em 2005, Estados Unidos e Prémio do Público do Festival dos Trois Continents em 2011 de NantesFrança) do cineasta Zézé Gamboa levou interessados espectadores à descoberta da realidade angolana do após-conflito.

A saída da projeção do filme, efetuada num pequeno pavilhão instalado no próprio espaço do festival (Prairie des Filtres), alguns profanos vieram a descobrir que Angola agora vive em paz. O Rio Loco é uma dessas novas rotas abertas à cultura angolana e às suas homólogas da lusofonia em África, que como o afirmou o edile de Toulouse, merecem uma atenção pela diversidade e riqueza.

A reação de abertura do público que a luiu ao festival, para ouvir as propostas sónicas feitas pelos grupos e solistas programados confirma o interesse crescente por essa diversidade cultural lusófona que com exceção do Brasil evidencia algumas dificuldades em internacionalizar-se.

A homenagem que foi prestada em Toulouse, a diva cabo-verdiana Cesária Évora, inicialmente prevista na programação do evento, é um sinal promissor de que a lusofonia se afasta a passos largos do túnel da confidencialidade.
Encontros, abraços e despedidas

Nesta perspetiva fomos ao encontro dos artistas e demais que não deixaram de salientar o facto de que a primeira grande reunião das culturas musicais lusófonas decorria num país francófono.

Fundador da gravadora Lusafrica em Paris e produtor na origem da ascensão internacional de Cesária Évora, José da Silva é também a figura que atualmente produz o angolano Bonga.

Ele lembrou-nos que "a música é um elemento essencial da expressão cultural de Cabo Verde. Graças à Cesária Évora, Cabo Verde foi colocada à jamais no mapa-mundo e é hoje mais respeitado no plano internacional. Não só aqui em França como noutras partes do mundo.

Nós em Cabo Verde compreendemos que a música como vetor da nossa cabo-verdianidade era um instrumento que nos podia abrir muitas portas no plano internacional.

Eu acho que semelhante reflexão poderia ser valida para outros países lusófonos. A cultura, a música neste caso preciso, tem e terá um papel cada vez mais importante na promoção dos nossos países".

Influenciado pela música concreta de Pierre Schaeffer, Pierre Henri, John Cage, Steve Reich e Hermeto Pascoal entre outros, o brasileiro veio à Toulouse no mesmo dia que o angolano Paulo Flores expor face à vinte e duas mil pessoas a dimensão sensorial de uma música mínima e não minimalista, na qual a base percussiva é transposta ritmicamente para as guitarras.

O rock, o pop, o samba, o coco, o maracatú e a embolada são na música de Lenine arranjados com uma roupagem simultaneamente concreta e orgânica.

Descoberto pelo público francês há mais de uma década, Lenine viu a sua participação no evento Rio Loco como "articulação natural entre dois países, a França e o Brasil, nos quais as culturas são o produto de uma mescla. Existe nesse aspeto uma identificação mútua.

Não é por acaso__ diz ele__ que a minha música foi melhor aceitada pelo público francês do que em Portugal, embora nós falemos a mesma língua, que os nossos patrícios portugueses. Eu gostaria de ter perguntado à Cesária Évora porquê que ela tocava tanto na França e tão pouco em Portugal. Portugal como país colonizador de Cabo Verde foi um dos fomentadores da expressão cultural de Cabo Verde. A França como historicamente se abriu para o mundo muito cedo então ela conseguiu abraçar todas as expressões de maneira muito ampla. Esse não foi o caso de Portugal".

De câmara em punho e deambulando através do recinto do festival, o cineasta e fotógrafo angolano NGuxi dos Santos mostrou-se satisfeito pelo seu trabalho ter sido escolhido entre duzentos apresentados à organização do evento. Para o criador angolano o Rio Loco em Toulouse permitiu-lhe com a sua exposição intitulada Povos e Lugares "inverter o quadro de guerra no qual se situava Angola aos olhos do estrangeiro.

Angola possui belas paisagens, lindas regiões turísticas, uma diversidade de povos e culturas, que durante o período de guerra não podiam transitar nem comunicar. As viagens só eram possíveis de avião. Em Angola, as pessoas do norte tem a sua maneira de estar bem como as do sul e viceversa.Com esta temática o meu objetivo foi provocar o encontro e o reencontro entre as gentes do meu país.

Há dez anos que Angola vive em paz, que as pessoas circulam, mas que na realidade não conhecem as culturas uns dos outros. Com Povos e Lugares e as vinte fotografias que integram a exposição eu quis divulgar ao mundo as culturas angolanas de norte ao sul e de sul ao norte. A reação do público foi positiva se eu atender ao facto de que três jornalistas que visitaram a exposição propuseram-me fazer um trabalho conjunto sobre várias regiões angolanas".

Angola face ao olhar do mundo também com uma música que eclodiu nas décadas de sessenta e setenta do século vinte e fez dançar aqui em Toulouse milhares de pessoas.

O percussionista e veterano do Conjunto Angola 70 Chico Montenegro, considerou a resposta do público como prova de que a música do grupo "não é uma manifestação de nostalgia, mas sim o relançamento de um processo de criação que tinha sido interrompido. Aliás é gratificante constatar que as novas gerações de músicos angolanos começa a inspirar-se no que fizemos no passado para criar a música nacional do futuro.

Este semba que algumas pessoas em Angola qualificam de música dos kotas não é senão uma música inspirada pelas nossas danças carnavalescas e por conseguinte pelas tradições angolanas. E as tradições permanecem vivas na nossa música. Nós somos um museu vivo no qual se inspiram os mais jovens".

Isto embora, os músicos de hoje em Angola " sejam muito influenciados pelas músicas europeias" lembrou-nos Carlitos Timóteo (ex- Jovens do Prenda, ex- Kiezos, ex- Semba Tropical) sólido baixista do Conjunto Angola 70. Timóteo realçou que com arranjos mais modernistas o semba de outras épocas está de volta na produção musical angolana".

O emblemático Paulo Flores é sem dúvida a resposta às preocupações dos kotas, com o seu semba que propõe uma fusão de tradições acústicas angolanas, tonalidades brasileiras e influências do jazz e de outras partes de África. Em Toulouse, Paulo Flores intrigou e encantou apresentando uma música para o espírito e para o corpo, para um público que assim descobriu a identidade plural de uma lusofonia musical que o autor, compositor e cantor domina com mestria e reinamento.

Em português, nas línguas angolanas (kimbundo nomeadamente) em crioulo de Cabo verde, Paulo Flores reafirmou as coordenadas da sua arte musical perante vinte e duas mil pessoas, que foram ao pináculo por ocasião do seu excecional dueto com a nova estrela ascendente da música angolana, Yuri da Cunha.

A lusofonia portou-se bem na terra francófona de Toulouse, não obstante o facto de que os seus contornos como força musical no mapa-mundo ainda estejam por traçar.

Nesta décima oitava edição do festival Rio Loco a Lusofonia musical teve a ocasião de se exprimir na sua diversidade. "Porque a diversidade é a característica essencial das músicas de Portugal, de Angola, do Brasil, de Moçambique, de Cabo Verde e demais", realçou o guitarrista e compositor dos Madredeus, Pedro Ayres Magalhães.

"É bastante positivo que os franceses tenham organizado um festival sobre as músicas dos países que falam a língua portuguesa. Eles optaram por mostrar as músicas de raíz. Mas dito isto, eles poderiam igualmente ter trazido para este esplêndido lugar à beira do rio Garonne outras correntes musicais desses países onde o jazz, o pop, o rock e outros géneros são praticados.

Claro que os organizadores do Rio Loco não podiam trazer todas as músicas dessa Lusofonia, mas eles escolheram os artistas que de momento melhor poderiam servir de sensibilização à um público para quem, a música de língua portuguesa é de certa forma exótica.

Mas a ideia deveria também servir de inspiração a CPLP, porque é nestes encontros artísticos que se criam laços", concluiu Pedro Ayres Magalhães cujo Madredeus prepara um concerto excecional, para celebrar os vinte e cinco anos de carreira da banda portuguesa.

Os cinco dias de Lusofonia musical em Toulouse reuniram um total de cento e vinte duas mil pessoas para quem as sonoridades e os ritmos de Angola, Brasil, Cabo Verde e demais deixaram de ser um pouco menos desconhecidos.
Em 2013 o festival Rio Loco de Toulouse acolherá nas margens do rio Garonne as músicas das Caraíbas.

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