Fusão da Dikanza e do Ngoni

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Vivalda Dula e Cheick Diabaté lançam "Je t`aime" 

Fusão da Dikanza e do Ngoni
Vivalda Dula Fotografia: Jornal Cultura

É notável nos gestos e na acção o esforço em procurar ser associada com a África. Quando está em palco toca batuque ou djembê, que advoga ser mais fácil de levar e de afinar. As suas roupas e penteado, adornada com utensílios do mar e pequenas joalharias da beleza africana, precedem a sua estampada confissão de sentir-se como filha de África. Usa frases curtas, evitando cair em pretensas construções excessivas e que dificultariam a queda da tonalidade no laborioso momento dos arranjos musicais. É económica nas palavras. Um canto simples e fácil que faz o requinte das suas letras recheadas de lirismo subjectivista. Flui com uma leveza natural, aprazível e elegante, bem como os seus versos cultivados com acentuada aliteração.
Há na sua atitude vocal um toque imperioso da beninense Angélique Kidjo e uma queda bem intencionada pela morna e pelos tons de guitarra de griots. As suas paragens são batidas do coração, aberto e atento à África, num canto tanto de alma como de consciência. As suas estórias curtas com que preenche o seu canto parecem retalhos de vida cozidos em cada das 11 faixas musicais, cantadas em kimbundu, português e inglês. Mas também são ao mesmo tempo apelos à irmandade, são sabores doces das brincadeiras de crianças ou a síntese sonora de demoradas e graves noites de luar africano num tempo moderno.
É o género que cultiva, o afro fundido ao jazz e ao soul, que põe Vivalda em paralelo da dita novidade da vanguarda musical africana pós-modernista, entendida muito propriamente tanto para suprir vontades conhecidas como da alma e da vida, no seu ponto de intervenção à maneira lavrada por poetas como Neto, que encontraram no jazz e no blues outra intercessão na defesa do ideário negro. E com estes poetas, as letras de Vivalda Dula mantêm uma certa intertextualidade, com casos flagrantes, por exemplo, para invocação à mãe negra que Agostinho Neto canta no excelso “Adeus à hora da largada” e também no poema “Namoro”, de Viriato da Cruz, que deste enfatiza numa das faixas musicais a conhecida metáfora dos seios de maboque para dar imaginação ao latente erotismo.

O show no Elinga
Quando Vivalda postou no facebook que haveria de vir a Luanda para a divulgação e apresentação do cd “África”, o ator Raúl do Rosário, seu amigo, reagiu sugerindo que fizesse a apresentação no Elinga, por solidariedade ao espaço que mais ou menos dia cairia abaixo (o sofrível momento moribundo do Elinga). Desta sua aparição no Elinga, feita no dia 28 de Junho, sai daí com uma imagem muito positiva e calorosos conselhos para continuar com segurança a sua carreira musical. A sua rotina por Luanda deixou marcas, alguns músico com quem partilhou o palco reconheceram-na como ´única´ e elogiaram a decisão de regressar mais vezes a Luanda e outros pontos do país, para beber mais da sua cultura e trocar experiências com músicos locais. Ainda na sua passagem por Luanda chegou também a dividir o palco com Mário Garnacho e Ndaka Yo Wini.
Sabe colher das amizades que cultiva. No momento do processo criativo muitas coisas vão surgindo, como é o caso da participação no tema Mázui de uma sua colega chinesa com o gudjam, um instrumento de corda tradicional chinês. Conheceu a chinesa na escola de música e ambas não sabiam que já eram músicos profissionais. Convidou-a a fazer parte dos acabamentos deste tema engajado na luta contra a exploração infantil, depois de ver uma reportagem sobre o tráfico de menores e exploração infantil e decidir também dar voz contra esse mal que assola um sem número de crianças, e muitas delas africanas. Em “Flauta do Cantor” a amizade com o guitarrista clássico chileno é gratificada com o seu dedilhar delirante, com um tom choroso de guitarra que reivindica estilos africanos.
Raiz
Se engana quem a julgar como “tornada africana” em solo americano. Vivalda Dula é uma cantora, compositora e percussionista nascida em Luanda, com passagens pelos grupos Kielela, Manésima e Carapinha Dura, suas escolas de percussão e canto. A Mãe é de Malange e o pai do Kwanza-Sul.
Terminou em Maio de 2015 o seu curso de Arranjo, Composição e Produção Musical nos Estado Unidos da América, razão maior que a levou a este país onde se fez residente. Mas antes formou-se em Relações Internacionais, e foi na labuta de estudante que ganhou espaço entre os americanos, resultando no lançamento de um EP (Insanidade Mental) e uma tournée por aquele país. Foi nesta rica fase inicial do seu trabalho que conseguiu partilhar o palco com figuras de destaque mundial como Salif Keita, Allen Toussaint, Ruthie Foster e Cassandra Wilson.
Neste Dezembro Vivalda Dula voltou a ser notícia na imprensa e motivo de conversas nas redes socias. Fala-se do seu trabalho que intitulou “Je t'aime”, um single que tem data de lançamento internacional maracada para Janeiro de 2016. Conta com a prestigiosa participação do conceituado músico e contador de estórias do Mali, Cheick Hamala Diabaté. Ambos só prometem acertar a possibilidade de um cd em meados de 2016, devido a agenda apertada e comprimissos profissionais.

Jornal CULTURA - Vivalda, qual a razão do título “Je t'aime”?
Vivalda Dula - Je t' aime deve-se por ser uma canção de amor que conta a história de um homem que deixa o seu país em busca de melhores condições e que as varias adversidades o fazem continuamente pensar no seu amor. Então, escreve uma carta de amor à sua amada, que o responde comoventemente.

JC - Quais musicalidades se pode ouvir neste single promocional?
VD - No single ourvir-se-à certamente o sabor de duas culturas numa simbiose harmónica e sentir-se-à também a presença lusófona (Vivalda) e francófona (Cheicke Hamala). A canção foi escrita e composta por Vivalda Dula, produção do Dr.Robert e co-produção de de Vivalda Dula. Nela ouviremos diversas lí¬nguas, dentre elas o mandingue, kimbundu e francês, e foi gravado e misturado em Washington DC e Houston. Esperamos que tenha uma excelente receptividade nos variados mercados, desde o lusófono ao francófono.

JC – Qual a perspectiva musical?
VD - É uma proposta fresca, inovadora, madura, e uma excelente experiência musical para mim, que viajo numa poesia musical-intectual, trabalhando com um dos africanos mais reconhececidos nos EUA e dos poucos africanos que já foi nomeado para Grammy.

JC - Quem é Cheick Hamala Diabaté artisticamente?

VD - Cheick Hamala Diabaté é reconhecido no mundo como um dos mestres do Ngoni, um instrumento tradicional do Mali. Aos 12 anos, ele foi convidado pelo Instituto Nacional de Artes em Bamako, capital do Mali, onde estudou Música, Artes Gráficas, Cinema, Literatura e Teatro. Ele começou a sua carreira artística internacional após a formação. É músico, professor, contador de estórias. Cheick Hamala começou a sua turné pelo mundo em 1995, viajando por toda a África, Europa, Asia, Canadá e EUA. A sua música sempre reflete a integridade histórica de uma forma de arte importante, com uma rica tradição que remonta centenas de anos para a formação do Grande Império do Mali. Trabalhou com vários músicos de renome mundial tais como Salif Keita, Bela Fleck, Corey Harris, Bob Carlin, Toumani Diabaté, Kandia Kouyate, entre outros. A sua colaboração com o americano Bob Carlin valeu-lhe a nomeação para o Grammy na categoria de Best Traditional World Music Álbum com o disco for "From Mali to América".

JC – Como surgiu esta parceria?
VD - Esta parceria musical surgiu de uma conversa amigável dias depois de sermos introduzidos por um amigo comum e productor musical, apresentador de televisão e vencedor de varios prémios e que já trabalhou com estrelas do nosso mercado como Paul G e Anselmo Ralph.

JC – E sobre a fundir o djembe, ngoni e a kora à dikanza e ao batuque?
VD - Os instrumentos usados foram para além das vozes, guitarra, bass, bateria, Ngoni (instrumento tradicional do Mali), o talking drum, calabash, a nossa dikanza, chocalho e o djembé.

JC - Como tem sido a vida artística de uma angolana EUA?
VD - Não tem sido uma vida artística fácil mas possivel. Existem muitas dificuldades, começando pela língua, manter-se fiél aos valores culturais e de raiz e lutar por eles. Nos EUA podem abrir-se portas, mas aprende-se na prática que ninguém fará por tí¬ e que tens que trabalhar arduamente e abdicar de inúmeras coisas na vida, na luta dos nossos sonhos que podem ou não acontecer como o desenhamos na nossa mente ou como a televisão mostra.

JC - Qual a repercussão da música angolana nos EUA?
VD - Directa e sinceramente falando, não se fala nem se houve muita música angolana por aqui. Ainda não atingimos este espasso neste país. Temos o Waldemar Bastos e Ricardo Lemvo mas levaram decadas para chegar onde estão. Mas ainda assim é muito mais fácil ouvir sobre músicos de países do Oeste de África. Eles já conquistaram e mantenhem patente o nome de seus países e muitos deles com ajuda de projectos culturais de seus governos/Embaixadas.

JC – Mas já é um passo para a internacionalização da música e cantores angolanos?
VD – O EUA pode ser um passo para a internacionalização da música e cantores angolanos. Mas, pelo que aprendi do music business nos últimos 5 anos, não importa a cultura, tens que ter algo especial, ser especial, originalidade acima de tudo, ser tu mesmo. Se és angolano e vais fazer música americana tens que estar ao mesmo pé de igualidade, profissionalismo e talento que eles. Respeito pelos profissionais, chegar a horas e esquecer a questão padrinho na cozinha. Se fazeres música do teu país, tens que te identificar como tal e ser puro. Não basta colocar uma camisa de pano africano, colocar um lenços na cabeça e um vestido/trajes nacional, se não tens originalidade e talento. Ter uma voz bonita não significa ter talento num mercado como o americano, porque vais te deparar com cantores e músicos que são compositores e que tocam muito bem dois ou mais instrumentos. Pessoas que tenhem uma versatilidade incrí¬vel dentro e fora dos palcos. São possuidores de uma musicalidade estupenda e estão acostumadas a ouvir seleções ecléticas de música e por isso estão auditivamente mais bem preparadas para a diversidade musical e internacional.

JC - Sobre a internacionalização, que outras ideias e qual a sua opinião sobre o processo e artistas angolanos?

VD - O nosso governo, a partir do nosso ministério da Cultura, tem capacidade para ajudar na internacionalização da excelente música angolana. A Lei de Mecenato tem que ser aplicada também para a diversidade e salvaguarda da nossa música e arte de e com raiz. Angola possui mais de 4 grupos etnolinguísticos e uma diversidade cultural sem igual. Cada proví¬ncia é uma relí¬quia musical e cultural estupenda e ainda assim não vemos ou ouvimos musica angolana nos considerados melhores festivais de música do mundo. Não se pode depender sempre do Bonga e do Waldemar Bastos para representar a diversidade e o nosso world music.

JC - Quando é que os angolanos poderão ter em mãos o single “Je t' aime”?
VD - O single estará disponí¬vel intenacionalmente a partir da primeira quinzena de Janeiro de 2016.

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