Heavy C voz contra um problema não tão novo

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O kizomba propriamente ao jeito angolano.

Heavy C voz contra um problema não tão novo
Heavy C Fotografia: Jornal Cultura

Por ainda não estarmos a par da nova nomenclatura que agora assume, diremos que o até então músico Heavy C (HC) viu-se obrigado a suprimir o artista em si. Contrariamente a esta revelação, estamos seguros ser a mais pura verdade de que a cabaça de beats de HC ainda transborda de novidades. Não lhe faleceu a inspiração. Sempre foi um artista que, embora se tenha firmado bem na kizomba propriamente ao jeito angolano, não se inibiu de também ser artesão de outros géneros derivados da pop music, como o rap, R&B, guero Zouk… Sempre vimos HC, ele e a sua Buedbeats, como um grupo indissolúvel, mesmo que até agora da tão confiante e pomposa produtora só conheçamos o seu rosto, caso para dizer que HC por sí só é uma empresa. Por lá passaram nomes como Yola Semedo, Matias Damásio, Ary, Pérola, Yola Araújo, Dog Murras, Army Squad, Edmázia, Marita Vénus, Negro Bué, Anselmo Ralph, Yuri da Cunha, Dog Murras, Gomez, Kalibrados, Edmázia…
Mas, por mais insólito que seja, desde 10 de Dezembro do ano passado que convivemos com a voluntária e benevolente retirada de HC do mundo da música. Pelo menos é assim que parece, embora as notícias também deixem a entender que esta atitude não condiz com a vontade do músico, mas sim uma condição do mercado, que o coage a executar uma espécie de “haraquiri artístico”, de certa forma; porque HC sempre será um guerreiro da arte da novíssima música angolana.
Ainda tem fãs que expressam nas redes sociais que nunca o HC conseguirá desfazer-se da sua condição de músico. Razão não lhes falta para refutar desta forma, um pouco em contradição a uma hipérbole sem tamanho dos títulos que a imprensa alimentou, estampando ora que o músico abandonou a carreira, ora que o músico pós fim à condição de músico. A primeira pode até ter algum sentido, porque HC não está a passar por uma fase próspera da sua multifacetada carreira de intérprete, compositor, produtor e director musical, com todas estas qualidades carregadas com significativa mestria nos géneros pop que domina. Os seus mais de 20 anos de carreira musical já criaram raízes, tanto que é um dos nomes que faz o número reduzido de pessoas que podem ser apontadas como responsáveis do rosto actual da Kizomba e R&B de cariz angolano.
A passar por aborrecíveis dificuldades financeiras, HC decidiu reivindicar da forma mais dura possível: entregando-se a um interregno da sua carreira musical. E é um golpe. Pela mesma forma como se sente golpeado e abandonado pelo circuito que domina os eventos de música, HC golpeia os seus fãs e amantes incansáveis da sua música com o triste anúncio de por fim à carreira musical. Esses fãs que o acompanham desde as aparições calmas e familiares em sofás de casa, quando este era convidado em programas de grande audiência como o Janela Aberta (onde, em jeito de brincadeira, também se tinha mudado de Heavy C para Leve C, mas sempre de pés descalço. E, anos antes, aparecia com o cabelo encaracolado e turbante elástica, de jeans e t-shirt. Essa imagem de HC foi poderosa o suficiente para mantê-lo em alta por largos anos) a shows de movimentar multidões, mereciam maior consideração. Mas, se lhe pedir que recue da sua decisão seja pedir algo para além de si, conformemo-nos, que o autor de “Pra Valer” ( um registo musical que em nada deve a outras produções bem conseguidas por contemporâneos seus de peso, casos, por exemplo, de Kaisha, Nicols, Ali, Philipe Monteiro, Marysa…,) simplesmente cessou.
Das razões que aponta, não é só o seu pé de meia que já vai sem nenhum cêntimo, é também uma atitude para apelar à consciência de todos os músicos. Vejamos o que enumerou no programa Zap News: “Desvalorização musical, falta de estrutura, abertura de falência, perdeu a piada, e a máfia”, aponta o músico. Afinal, o que é a máfia?

Um problema não tão novo
Responde Heavy C: “Máfia na selecção de shows; máfia na selecção dos músicos; máfia na selecção de imagens para as empresas”. O músico diz ainda que a falência trata-se de não haver dinheiro para os músicos, questionando a seguir se é possível que um elefante seja alimentado à base de ginguba.
Quantos mais terão de encetar esta atitude algo cobarde para o problema estar à mesa de encargos de entidades competentes, não sabemos. Esperemos o que o futura nos reserva, por mais que o presente precipite motivos para cogitar. Se vermos bem, este problema não é assim tão novo e já mesmo neste quinzenário foi tratado com alguma preocupação. Falamos, por exemplo, da renúncia à música de Beto Dido, trazida com lamúria e tristeza desconcertantes pela pena do escriba José Luís Mendonça, isto numa das edições de 2014, quando o embalo da crise económica ainda não era uma preocupação em voga, mas já a queixa contra essa “máfia” que HC agora levanta se revelava preocupante. Meses depois, Belmiro Carlos, SG da UNAC, volta a meter o dedo na ferida, numa entrevista concedida a este quinzenário e conduzida pelo autor destas linhas, onde diz num dos pontos: “É verdade que os empresários têm toda a liberdade de escolher os artistas com quem querem trabalhar, mas é preciso haver um certo sentido de razoabilidade”, e também diz: “Aqui o grande problema é uma gravíssima falta de estrutura no ambiente de trabalho artístico a nível nacional …”, igualíssima razão de HC.
Agora sim, a vermos a dimensão do problema, devemos aplaudir, e enquanto estão aí, a coragem e visão de Estêvão Neto, do Centro Cultural e Recreativo Kilamba, e Yuri Simão, da Nova Energia, porque ambos pautaram por uma política de shows inclusiva, sem desprimor de género e de idade, e nem por isso não surtiu efeito, dado que há bocas que ainda se apegam ao discurso etário e preconceituoso de que há músicas de kota e que esta já não bate, por mais que se lhes diga que a música, como qualquer objecto passível de análise artística, define-se primeiro em ser boa ou má, e depois discute-se o resto. Vejamos que o Show do Mês investe o mesmo nível de atenção tanto a uma Yola Semedo como aos Kiezos, e ambos os shows deram sucesso, para não dizer da memorável passagem de Euclides da Lomba naquela casa, que veio provar como a kizomba feita com algum requinte ainda se impõe. Já Estêvão há muito que tem lutado contra o silêncio da chamada geração de ouro do semba, que têm no Centro Cultural e Recreativo Kilamba o mínimo de atenção possível, muitas vezes acompanhados por jovens como Yuri da Cunha e Edy Tussa, que se esforçam para beber da experiência desses Kotas que parecem ser as vítimas habituais e conformadas dessa “máfia”.
Este seu fim tem os seus fins, e nos levar à reflexão sobre os problemas da falta de estrutura e equidade do mercado musical é certamente um deles. É assim que Heavy C seja, certamente, a mais nova voz contra essa problemática, porque mais outros se viram obrigados a por fim à carreira, mas sem talvez esta toda atenção mediática que levantou HC, e talvez num silêncio doloroso num quintal qualquer destes Prenda, Catambor, Avó Kumbi, Rangel..., onde convivem e se movimentam ofuscados, com saudades dos tempos em que eram grandes estrelas. Mas uma estrela é sempre uma estrela: fazemo-la brilhar, como bem vimos, já a fechar o ano de 2016, o show que o Conjunto Angola 70 deu na Fortaleza São Miguel no dia 18 de Dezembro, promovido pelo Instituto Cultural Alemão – Goethe Institut, que fez dos tubarões do semba a sua grande aposta, com direito à promoção e movimentação na Europa, através da produtora Mano a Mano, de Otoniel Silva. Sigamos exemplo.

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