Homenagem a Francisco Xavier Yambo

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Nestes últimos vinte anos de lide em torno da defesa do Património Histórico e Cultural, tenho conhecido pessoas extraordinárias colegas que dedicaram uma boa parte da sua vida na construção de uma atitude  preservacionista a favor da Cultura, Identidade e Memória coletivas e, cujos contributos são, pois, de inteira justiça, de se lhes atribuir o devido reconhecimento.

Porém, os últimos quatro anos foram, pessoalmente, marcados pelo desaparecimento físico de três personalidades que tiveram, efetivamente, um imenso protagonismo na defesa e divulgação da nossa Cultura, História e Património.

Refiro-me ao falecimento de Emmanuel Esteves (1945-2008); Fernando Batalha (1908-2012) e mais recentemente Francisco Xavier Yambo (1945-2012).

Com o Professor Doutor Emmanuel Esteves (tratávamo-nos mutuamente por chará) tive muitas interfaces que nos levaram a efetuar projetos e trabalhos em espírito de equipa. Ele foi o mentor do “Projecto Mbanza Kongo-Cidade a desenterrar para preservar” sobre o qual foram realizadas duas mesas redondas (1981 e 2007) em apoio ao processo de Candidatura daquela cidade à “Património da Humanidade”.

E foi, particularmente, no âmbito desse projecto que mais interagimos e devo francamente reconhecer que ganhei muito com isso.

O seu desaparecimento ocorrido em 2008, em Luanda, causado por um trágico acidente de viação frustrou todos, em particular a equipa do projeto. Publicou várias obras, destacando- se aquelas que estão relacionadas com a história do caminho-de-ferro de Benguela e sobre Mbanza Kongo (Reino do Kongo).

Conheci ocasionalmente o arquiteto português Fernando Batalha em 1994 em Lisboa. Porém, já dele ouvia falar, devido aos testemunhos seus deixados em arquivos do então Departamento de Museus e Monumentos (hoje, Instituto Nacional do Património Cultural) onde trabalhou de (1938 a 1983). Depois voltei a vê-lo em 2006.Apesar da sua idade já bastante avançada não lhe faltava lucidez nem reflexos para abordar a problemática do património em Angola. Além da bibliografia de sua autoria que me ofereceu, desafiou-me a escrever qualquer coisa sobre a “Rua dos Mercadores”; pois, dizia ele que, sentia uma paixão inusitada por aquela velha rua de Luanda.

O Arquiteto Batalha escreveu várias obras no domínio da história, arquitetura, urbanismo e arqueologia de Angola. Nos anos cinquenta do século passado dedicou-se à pesquisa arqueológica na antiga cidade de “São Salvador do Congo” (Mbanza Kongo), tendo trazido à luz restos (alicerces) de construções seculares daquela muito antiga cidade que foi durante um passado longínquo, a capital do Reino do Kongo.

Cruzei pela primeira vez com o Doutor Francisco Xavier Yambo em 1992, na província do Huambo (Wambu, como ele mesmo escrevia) quando lá fui parar em serviço.

Em virtude da guerra ou eventualmente por ironia do destino o Dr. Yambo veio a juntar-se a nós em Luanda e em 2000 veio a ser nomeado Diretor geral do Instituto Nacional do Património Cultural, cargo que ocupou até 2010, altura em que este começou a enfrentar, sem esmorecimento, uma grave doença que o acometeu até ao dia do seu falecimento.

Enquanto Diretor, passamos a discutir pontos de vistas de âmbito profissional, particularmente sobre o património. Tínhamos, diga-se de passagem, um gosto comum e por conseguinte, passamos a ter afinidades de ideias e propósitos que permitiam interagir.

É claro que esse convívio, quase exclusivamente profissional, permitia muitas vezes convergir mas outras vezes divergíamos nos pontos de vistas. Uma coisa que sempre ficou claro na nossa relação é que a temática relativa ao património é capaz de reunir num mesmo campo pessoas com vários pontos de vistas e correntes. Segundo Alexandre Herculano, 1857, a defesa e preservação dos valores materiais e imateriais da nação, sejam quais forem as suas instituições, governos ou convicções, são decoro Nacional. Logo, são do interesse ColetivoFrancisco Xavier Yambo, o Antropólogo

Francisco Xavier Yambo, nasceu no Dundo (Ndundu), Lunda-Norte aos 7 de Agosto de 1945. Concluiu os seus estudos na República do Kongo Democrático (ex-Zaire) tendo em 1973 concluído a sua licenciatura em Antropologia Cultural pela Universidade de Lubumbashi.
De regresso ao País em 1974, foi mais tarde (1976) admitido como funcionário do Conselho Nacional de Cultura, exercendo as funções de Guia Chefe no Museu Nacional de Antropologia, em Luanda e, em 1978 passou a exercer as funções de Chefe de Departamento Técnico de Museus e Monumentos.

Em 1979 é transferido para a província do Huambo, impulsionando a recuperação do Museu Regional do Planalto do qual foi Diretor (79-97). Foi entretanto colaborador do Núcleo do ISCED na cadeira de História de Angola e professor de Antropologia Regional (Cultura Bantu) no Seminário Maior do Cristo Rei (Huambo).

Em 2000 é nomeado Diretor Geral do INPC e coordenou várias comissões Técnicas no Ministério da Cultura, nas áreas do Património e Museus. Foi ainda Presidente do Comité Angolano do ICOMOS (Comité Internacional dos Monumentos e Sítios) e do Comité Angolano do ICOM (Comité Internacional dos Museus), órgãos consultivos da UNESCO. Foi ainda, Membro Co-Fundador do AFRICOM (Associação dos Museus Africanos).

Foi um activista em prol das ações em defesa do Património Histórico-Cultural disseminadas em campanhas de sensibilização, ações de formação, aprovação de legislação, etc. Foi ainda o grande impulsionador do processo de redefinição do papel dos Museus em Angola, fazendo imergir a necessidade e lógica de dotá-los de projetos científicos e culturais.

Foi autor de vários títulos publicados, dos quais cabe destacar "Dossier Ngangela" (INALD, 1997, 35 págs.) e "Dicionário Antroponímico Umbundo" (INIC, 2002, 68 pags), além de vários artigos e temas ligados particularmente às áreas do Património, Cultura, História, Linguística, etc.

É manifestamente uma perda que deixa saudades a quem terá o privilégio de conviver com o Dr. Yambo até ao dia 8 de Julho pp. O seu corpo foi a enterrar no Cemitério dos Santos, na Missão Católica de Hanga, Bailundo (Mbalundu), província do Huambo.

Estas três figuras produziram tanto durante a sua vida que mesmo depois de mortos, os seus saberes continuará a servir de benefícios para as presentes e futuras gerações, fazendo multiplicar, ao longo do tempo, iniciativas e gestos à favor da preservação e valorização do Património Histórico e Cultural do Povo Angolano!

Que as suas almas descansem em Paz Celestial!

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