Homenagem ao Duo Tchisosi anima o espírito Kixímbula

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O Duo Tchisosi foi fundado em 1982 por Manuel de Victória Pereira e Miguel Lino Vieira, este último falecido em 1994.

Homenagem ao Duo Tchisosi anima o espírito kixímbula
Kixímbulas

Amplamente conhecido pela sua convicção na defesa da cultura tradicional de Angola, especialmente pela interpretação do cancioneiro popular umbundu, de que restam registos no acervo musical da TPA, RNA e indústria discográfica nacional; mais tarde o duo vira trio com a adesão de Ana Major e chega a realizar apresentações em países como Portugal, Brasil, URSS e Coreia.
O já falecido Lino Vieira explica - por via de um vídeo da TPA Huíla que já leva 30 anos e que voltou a ser exibido na noite de 15 de Janeiro de 2015 no Elinga Teatro a uma plateia repleta de contemporâneos seus, juntos mais uma vez para prestar uma homenagem ao duo e em especial a Lino - que tchisosi resulta de dois termos da língua umbundo que evoluíram semanticamente e que em português significa vaidade. Segundo conta, a palavra simboliza um ritmo que foi trazido pelos angolanos imigrantes que trabalhavam nas minas em Joanesburgo (África do Sul) e que vieram de lá com os seus gramofones e nas aldeias dançavam com um certo ritmo que foi apelidado de tchisosi: vaidade ou uma dança aprimorada, não tendo uma tradução literal mas sim semântica. Ainda no vídeo, nesse dia o duo trouxe como surpresa o poema Caminho do Mato, de Agostinho Neto, traduzido e musicado em umbundo, que Lino considerou ser uma obra que “deixa sempre uma certa incompletude poética a que qualquer apreciador da beleza pode realmente completar”.
Ao actuar no Elinga Teatro, Manuel fez uma rapsódia em língua nhaneca, que outrora servira de som de fundo a uma das peças dirigidas por José Mena Abrantes, Nandyala ou a tirania dos monstros. Depois interpretou uma música do seu falecido companheiro de grupo, Lino.
Crente de que a ligação de gerações assegura a sobrevivência, o músico chamou ao palco o jovem Toty Samed, cuja ligação considerou ter sido umas das melhores experiências destes últimos anos e com quem trabalha na música feita para a Feira do Livro, que se tornou tema cartaz e que classificou como erudita por fazer lembrar Chopin.

Kixímbulas
“O António Azzevas começou a dizer que eu também era um kixímbula, e eu na altura estava com a ideia que se tratasse de um grupo musical da Faculdade de Medicina e adjacentes, mas ele insistia que eu estava no espírito. Um dia perguntei ao Azzevas: Kixímbula é o braço armado da revista Archote? E ele disse que era. Bem, kixímbulas eram poetas, cantores, jornalistas, homens de cultura. E era acima de tudo um grupo inconformado de livres-pensadores”, define ao recordar o inesquecível movimento cultural, que marcou a tónica da noite diante da revelação de que a maioria dos presentes reclamava ser um kíximbula.
Orlando Sérgio, outro kíximbula assumido, foi percebendo que havia sempre pessoas à sua volta. Os anos passaram e viu que hoje essas pessoas são autores importantes da história, uns músicos, advogados, poetas, médicos. Da atmosfera da época, classifica que tinham em mãos um país muito fechado, e finalizou, visivelmente contente, agradecendo pelo bom momento de música e ritmos do sul que já não ouve nas rádios.
O escritor Avelino Sande mostrou ser um eterno kíximbula. Foi um dos fundadores e um dos mais solicitados na altura, e dele ouvimos que Kixímbula é um espírito de tribo, é um espírito de solidariedade quase instintiva. Podemos, continuou, caracterizar como uma grande contribuição de um amigo que deu o nome ao movimento, um membro da tribo que veio de Malange: Azzevas, que foi o dinamizador número um.
Kiximbula, na tradução que Azzevas chega a compartilhar com Sande, significa o apurar dos molhos antes de serem postos na mesa. Manuel Victória Pereira, E. Bonavena, Orlando Sérgio, Américo Gonçalves… eram kiximbulas, que faziam tudo que era arte e que se tornou num dos vectores mais importantes para a cultura da época, embora não sejam tão conhecidos como tal.
E. Bonavena, também escritor kixímbula, analisou que era um movimento cultural que começou pela literatura e depois alargou-se a outras manifestações culturais e inclusive chegou a pintura com Filipe Salvador, que procurou novos caminhos para a pintura angolana e que foi irreverente no espírito kixímbula. Contudo, discerne que o explícito do movimento na literatura era precisamente a revista Archote, que começou com uma tertúlia intitulada Canteiro Novo e que não era estranho esse título: “Porque o que exactamente pretendíamos era fazer uma proposta alternativa ao ambiente cultural que se vivia, que fosse para lá do institucional. Nós tentamos abrir este espaço alternativo com a nossa irreverência da juventude. Um movimento muito largo que chegou a livro e várias componentes do Kixímbula tomaram outras proporções quando chegamos ao centro cultural universitário, e chegamos pela mão de Victor Fontes. Por aqui também passaram pela primeira vez Os Irmãos Kafala. Kixímbula era um movimento subterrâneo e alternativo num momento em que o país estava muito fechado”.
A noite foi de rica tertúlia com bons momentos de animação e de apresentações musicais de respeitosa qualidade: Carlos Lopes, que não definiu bem ser ou não um kixímbula mas que revelou ter sido um frequentador do espaço que é hoje o Elinga Teatro e ao qual não entra faz mais de duas décadas: “ A última vez que toquei aqui foi em 1985. O chão ainda era outro e nós fazíamos muitas brincadeiras”, disse o músico. O Duo Canhoto presenteou ao público dois registos com a mesma mestria habitual, Avelino Sande, acompanhado da sua banda, torceu um canto que se fixou no reggae e rock com as músicas Desatino (que dá título a um cd de sua autoria), Lungu (musicalização de um poema de Barros Neto, aquele que nasceu à beira do Kwanza e o louva e invoca de forma singular) e Ndenda, um registo que segue a rítmica do sul de Angola; a atriz Anabela Aya que mais uma vez fez “derramar” o poder da sua voz ao interpretar clássicos, o Tanga, que com o seu dedilhar harmónico sacou da guitarra o sucesso Kambuta, foi prontamente ovacionado por um grupo de contemporâneos que pareciam terem encontrado neste registo a fórmula certa para voltar no tempo; a trova de Cuca e as interpretações dos sucessos do Duo Tchisosi pelo grupo coral Nzinga Brother´s também preencheram a noite.

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