Homenagem Memória do Dominguinho e do agrupamento “Dimba Ngola”

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Compilação “Poeira no quintal” reúne os principais sucessos do cantor e compositor

À época a música irrompia das farras dos quintais dos musseques de Luanda, num compasso delirante ao ritmo do “Merengue tira sapato”, um sucesso do “Dimba Ngola”, conjunto musical do cantor, compositor e guitarrista Dominguinho, cuja exuberância vocal, e nível textual das suas canções, marcaram um período de suma importância na história da Música Popular Angolana

Resultado de uma verdadeira manifestação da cultura popular, a eclosão natural dos conjuntos musicais e o surgimento das grandes vozes a solo foram constituindo a base da formação da Música Popular Angolana, ao longo da sua existência, desde os primórdios, em 1940, até aos nossos dias.

Neste processo surgiram os grupos São Salvador, de Manuel Oliveira, Ngola Ritmos, conjunto que, segundo Liceu Vieira Dias, “surgiu em meados dos anos quarenta”, duas formações que deram um grande impulso na aparição de uma série de conjuntos mais sólidos tais como: “Jovens do Prenda”, de José Keno, “Kiezos”, de Marito Arcanjo, “África Show”, de José Massano Júnior, e “Dimba Ngola”, de Boano da Silva e Dominguinho, dois dos seus legítimos fundadores.

Histórico do agrupamento “Ilundo”, e um dos cantores e compositores que marcou a época de ouro da Música Popular Angolana, no período da colonização portuguesa, Dominguinho ficou conhecido pela solene interpretação das canções: “ Lamento do Dimba Ngola”, “Difuba dya Luísa”, e “Kapretinha”, incluindo outros sucessos que fizeram história ao longo da sua imponente carreira.

Filho de Manuel João de Almeida e de Elvira Joaquim de Almeida, Domingos Sebastião de Almeida , nasceu no dia 9 de Setembro de 1943, em Ndalatando, Município do Cazengo, Província do Kwanza Norte. Originário de uma família de músicos, o pai foi compositor, Dominguinhos começou a sua carreira no “Ilundo”, em 1958, com Barceló de Carvalho, Elias Dya Kimuezú, Marito, Kituxi, Maria Antónia, Guida, Balake e os declamadores Ziza e Olga Baltazar.

Curiosamente, Óscar Neves começou a tocar “caixa”, em 1964, no conjunto “Dimba Ngola” de Dominguinhos.

Pai de doze filhos, Dominguinhos é, para além de cantor, compositor, e guitarrista, pintor de automóveis, tendo sido casado com Maria António de Almeida, falecida em 2000.

Kimbandas do ritmo

Dominguinhos recebeu a influência de Manuel Felizardo de Almeida, seu irmão mais velho, guitarrista dos Kimbandas do Ritmo, grupo referencial da história da Música Popular Angolana, formado na época por: Elias Bárber (viola, dikanza e compositor),
Catarino Bárber (voz, composição e guitarra) Joaquim Santana (teclas), Mervil Bárber (ngoma), Manuel Faria (viola, composição e ngoma), e Manuel Felizardo (Manuelito, viola).

Passaram ainda pelos “Kimbandas do Ritmo”: Manuel Kadete (Zito) e António Pascoal Fortunato (Tonito), muitos dos quais com uma notável formação intelectual, ao serviço da pesquisa da música tradicional angolana da região Kimbundo, incluindo eminentes nacionalistas que lutaram pela nobre causa da libertação de Angola.

Dimba Ngola

Fundado no dia 20 de Agosto de 1964, o conjunto Dimba Ngola integrava, na sua primeira fase, jovens oriundos dos grupos "Zumbi Kola" e "Ilundo": Laurindo Monteiro (percussão), Lancerdo João Barros (viola baixo), Dominguinho (guitarra solo, voz e composição), Manuel Baptista das Neves (Manecas, tumbas), Laurindo Monteiro (caixa), Dadinho de Almeida (Viola ritmo), Boano da Silva (voz, dikanza e composição), Ventura João José (caixa) e Francisco Teixeira Freitas de Almeida (também conhecido por Birra, viola baixo).

A segunda fase ficou marcada pela saída, em 1972, de Dominguinho e a entrada de Bernardo António (Dikambú) que encontra no Dimba Ngola: José Eduardo (viola baixo), Boano da Silva (voz principal), Barros Lândana (percussão), Tony Ganga (tumbas), Gudzinho (bongós) e Jesus, um jovem encarregado pela parte eléctrica do grupo.

A terceira fase ficou marcada pela entrada de Venâncio (viola solo) e Massoxi na percussão. O Dimba Ngola reaparece no dia 30 de Setembro de 2002, no programa "Poeira no Quintal", da Rádio Nacional de Angola, realizado no Centro Recreativo e Cultural Kilamba, vinte e dois anos depois do seu desaparecimento do cenário musical angolano.

Recordemos que o Dimba Ngola paralisou as suas atividades em 1980, por insuficiência de meios instrumentais, tendo conquistado o título de "Melhor Conjunto de Ritmo Popular Angolano", num concurso promovido, em 1968, pelo jornal Tribuna dos em 1968, pelo jornal Tribuna dos Musseques, do Coronel Braga Frazão, onde participaram entre outros, os Kiezos, Jovens do Prenda e Negoleiros do Ritmo.

Homenagem

Dominguinho foi homenageado no dia 24 de Setembro de 2006, por ocasião da 53ª edição do programa "Poeira no Quintal, da Rádio Nacional de Angola, no Centro Cultural e Recreativo Kilamba. Na homenagem, que contou com a presença do grupo tradicional Semba Muxima na abertura, a Banda Movimento acompanhou os artistas Day Doy, Tino Silva, Nito Nunes, e Pakito, tendo participado na homenagem: Carlitos Vieira Dias, Tonito, Paulino Pinheiro, e a Banda Muzangola.

Canções paradigmáticas

Numa clara herança da música folclórica da sua região, das vozes que marcaram a história dos "Kimbandas do ritmo" e dos coros da Igreja Metodista, Dominguinho surge como um dos intérpretes mais importantes da sua época.

A versão mais antiga de "Difuba dya Luísa" (ciúmes da Luísa) é um dos momentos mais altos da sua carreira: Nga sokana kia ilumba/ Nga vualessa kia uetuana/ Nga sokana kia ilumba/ Nga vualessa kia uetuana/ Difuba dya Luísa/ dia ngui beka ó makongo/ Difuba dya Luísa/ dia ngui beka ó makongo/ dikoloxá dia muka ngila/ uá ité tubia/ ò dilessola dia mukuá ngina/ uá ité tubia/ ò dissaiote dia mukuá ngina/ uá ité tubia/ sumbala ó polo dia mukuá ngina/ uá ité poko// Utulungungo uá mu tula mamã/ utulungungo uá mala/ eme ngui mona mucongo/ bosso, bosso ngui losame... ("Difuba dya Luísa" é a história real de uma mulher ciumenta, Luísa, que deitou fogo no lençol, colchão e saiote, tendo chegado ao ponto de desferir golpes com uma faca no rosto da rival.

Contudo, diz o compositor, nada me atinge eu sou filho de caçador e disparo em todas as direcções).

Na canção "Lamento do Dimba Ngola", outro grande instante da magistral interpretação de Dominguinhos, o compositor lamenta a decadência do Dimba Ngola, com a sua saída:

Dimba Ngola/ Oooó ngi banza/ Dimba Ngola muené/ Oooó ngi banza/ngi dila, suku ni luanha/ ngolo sota ò quizomba/quizomba diá jimbidila/ngui dila jukujukazé/ /Dimba Ngola/ Oooó ngi banza/ Dimba Ngola muené/ Oooó ngi banza/ngui sota suku ni luanha/olo sota ò dijina/dijina diá muangana/ ngolo sota ò dijina/dijina diá muangana/ Talenu ò divua didi nguitula mamé /Talenu ò dilamba didi/ diene diá nguitula mamé... Mainga mame/ ma ngui xixi mase...
(Penso e choro noite dia, procuro o nosso convívio que se perdeu). O CD "Memórias de Dominguinho", da Coleccção Poeira no Quintal", da Rádio Nacional de Angola, reúne as canções: "Merengue bula Miongo", com acompanhamento do Dimba Ngola, "Merengue Titã"(Dimba Ngola), "Difuba Dya Luísa" (Jovens do Prenda), Lamento do Dimba Ngola (Jovens do Prenda), "Merengue tira sapato" (Dimba Ngola), "Fuma"(Dimba Ngola), "Fixe"(Dimba Ngola), "Gipangue"(Dimba Ngola), "Sualo ndon ndon" (Jovens do Prenda), "Kizomba bu Sanzala" (Jovens do Prenda), "Kapretinha"(Kiezos), E Mini Saia (Jovens do Prenda). Não fazem parte da referida compilação as canções Titina e Gingombé.

DIKAMBÚ: "FOI PRESTIGIANTE SUBSTITUIR A GUITARRA SOLO DO DOMINGUINHO"

Bernardo António (Dikambú), guitarrista, cantor e eminente conhecedor da história da Música Popular Angolana, integrou o Dimba Ngola, em condições muito especiais, tendo feito o seguinte depoimento sobre a sua relação com a história do conjunto: "Entrei em 1972 para o Dimba Ngola, na condição de guitarra solo, em substituição do carismático Dominguinho.

Eu tinha saído do Surpresa 7, em 1969,e, três anos depois, surgiu-me, de forma inesperada, um convite do Gudzinho para tocar numa das edições do kutonoca com Dimba Ngola. Nesta altura morava no Rangel e este facto ficou conhecido na época no meio artístico, porque fui tocar sem ensaiar, mas acabei por fazer um trabalho que foi muito aplaudido.

O Dimba Ngola acabou por ser a minha grande referência, e foi a escola que determinou o meu percurso enquanto músico. O meu nome ficou marcado na discografia do grupo com a gravação de dois singles, em vinil, com o nome "Conjunto Dimba Ngola", que incluía as canções "Despedida", no estilo Merengue, e "Maka ku muxima", um tema de Boano da Silva, o outro single incluía as canções: "Arranca a pedra" (José Eduardo), e "kachilongo" (Boano da Silva.

Importa referir que o Dimba Ngola do meu tempo, acompanhou dois cantores pouco referenciados, Luís Maria, com o seu "Merengue Banga Sumo" e Augusto Dikongo que ficou conhecido com a canção "Encontro com a Mana Fatita". Diria, a concluir, que foi prestigiante para a minha carreira, substituir a guitarra solo de Dominguinho, um cantor e compositor de prestígio, cuja afinação vocal e nível interpretação têm uma relação direta com o facto de ter sido um exímio guitarrista, é só ouvir as canções que constituem o seu legado".

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