Jazz angolano Tony Jackson e a banda Afro Beat

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O 30 de Maio, Dia Mundial do Jazz, foi celebrado em Luanda pela mão do ministério da Cultura e a carolice de Jerónimo Belo, um homem de cultura que teve orgulho de partilhar esta data com as pessoas que encheram a sala de ouvidos e olhares.

Jerónimo Belo, ao centro, ladeado pela banda

"O jazz tem raízes profundas", disse o secretário de Estado da Cultura, Cornélio Caley, a abrir o pano daquela noite que se encheria de acordes e sonoridades fantásticas. “É o estilo de música mais espalhado pelo mundo”, prosseguiu o dirigente, “com raízes reivindicadas por todos os estratos sociais. A História diz que o jazz teve a sua génese (1619) na arte dos escravos (Virgínia). O jazz é o ondular da voz; a voz lançada no vento que vai e volta a suplicar. Parece não ter ritmo, mas é um clamor. Lamento, clamor dos escravos. Hoje, em Osaka, Japão, o dia é festejado. Nós, aqui em Angola, estamos na noite do jazz.”
Subiu ao palco o promotor da noite de jazz, Jerónimo Belo, para confirmar que o jazz tem sido, ao longo de mais de 100 anos, uma plataforma de entendimento entre os homens e mulheres de todas as latitudes que tem feito desse estilo musical o seu toque de eleição. E citou os nomes de alguns angolanos que, desde a independência, “não deixaram que o jazz morresse entre nós: Rogério de Vasconcelos, Rui Romano, Reginaldo Silva (que tinha um programa na rádio, intitulado ‘A Grande Música Negra’), Arlindo Macedo, e etc.

Uma boa noite de jazz
O primeiro intérprete a desvendar os mistérios do jazz, com a sua voz multímoda e versátil, foi Tony Jackson. No teclado estava Terinho Mumbanda, um mais velho cacimbado no voo digital sobre o piano. Tony cantou “I Smile”, escrita por Charles Chaplin, uma composição de costas viradas à morte e ao niilismo existencial. Tony Jackson também debitou opinião e disse que é tempo de se fundar uma escola de jazz em Luanda, uma sala onde pelo menos uma vez por semana “pudéssemos ouvir jazz.”
E ali, a ouvirmos jazz pela voz de Tony Jackson, começámos verdadeiramente a acreditar na transmigração das almas com “Fly me to the Moon”, depois de outros temas de amor à vida.

Banda Afro Beat
Mário Garnacho (teclado), Nanutu Fendes (saxofones), Fredy Mwankie (baixo eléctrico), Joel Pedro (bateria) constituíram a quadratura de uma espiral jazzística que veio inaugurar e afirmar o lugar da banda AFRO BEAT no panorama musical angolano da actualidade. Primeiro, houve a cupidez dos saxofones de Nanutu, o irreverente sopro da maresia luandense. Depois, subiu ao palco Anabela Aia. Começou com Malaika, da imortal Miriam Makeba, com variações esmaltadas sobre a letra. Interpretou autores internacionais e nacionais, quando chegou a Mbiri-mbiri, do inesquecível Liceu Vieira-Dias. Desta menina de sorriso alto, dizemos que canta muito bem, tem carisma e vai muito longe.
Irá mesmo muito longe se compreender que o jazz angolano não pode ficar-se só pela imitação dos cantos e das músicas. O jazz angolano ( e esta mensagem é também para o Gegé, o Garnacho e seus companheiros) tem de incluir a fraternidade do batuque e o cantar dos gafanhotos no cacimbo, que nasce de se roçar uma lamela de quissange, ou um bordão de dikanza, ou o voo perene das águas de Kalandula que nasce de se bater nas teclas grandes de uma marimba. Por outro lado, não se pode a todo o momento estar a repetir as criações de Liceu Vieira-Dias sem lhes conhecer a sentimento kimbundu. Ou se aprende kimbundu para cantá-lo, ou então não se canta “ngongo jiami” (o meu sofrimento) com um sorriso nos lábios. Não basta pegar num som e vestir-lhe uma roupa qualquer: escute-se mil vezes Manu Dibangu: isto, sim, é que é jazz africano!

CRIAR, CRIAR, CRIAR
E então? E então, tanto a Aia (que tem uma voz e um estilo inquebrantáveis em palco) como o Gary Sinedima (que nasceu com um dom inconfundível para o canto) devem CRIAR, CRIAR, CRIAR, com os olhos secos. É preciso chamar ao palco novas interpretações originais e esquecer um pouco o que já está cantado e recantado! Isso só Tony Jackson sabe fazer bem, dada a sua versatilidade e experiência sem limites para se metamorfosear nas personalidades daqueles que interpreta.
Monangamba, recantado por Gary Sinedima valeu pelo sentimento do tema bem expresso no tom de voz e na máscara facial. Ao seu lado, Nanutu, o homem do saxo verde e dourado e boné à cabeça, chamou os ilundu (espíritos). Choros. Sonos. Aviões. Depois elevou o ritmo metálico do grande saxo prateado e curvilíneo, de onde o som saiu satisfeito e sísmico.
E Gegé Belo fechou a noite do jazz angolano com clave de Tom Jobim e Vinicius. Garota de Ipanema. Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça!

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