Jazz no Kubiku Sandra canta no Kubico do Jazz

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Um projecto que começou num apartamento com a necessidade de ouvirem Jazz, não propriamente o de raiz, mas as vertentes mais digeríveis.  Aspectos que mais marca o Jazz no Kubico/ Fusion são os concertos intimistas e o sentimento de festa, entre amigos que mensalmente os organizadores propõem. Sandra Cordeiro foi a proposta do mês de Março.

No Jade Rooftop, Sandra Cordeiro apresentou sucessos como “Tempo”, “Não dá mais voltar”, “Vou viver”, “Hoje”, “Talvez um dia”, “Esquece”, “Jiminina”, ”Luandense” dentre outros que a consagraram como uma das principais referências do “afrojazz” nacional.
Com dois trabalhos editados “Tata Nzambi” e “Luandense”, Sandra Cordeiro começou a despontar na Igreja do Carmo. Lá dá os primeiros passos como corista, onde aos 12 anos passa a solista do coro. Em casa, os discos dos grandes astros da “blackmusic” moldaram musicalmente a adolescente. Depois de ter interpretado “ I'm Outta Love” de Anastacia em 2006, no concurso "Estrelas ao Palco" em 2006, começa a cantar em bares e restaurantes na companhia de várias bandas nacionais e internacionais.
A artista foi vencedora do ‘Prémio da Canção Cidade de Luanda’, em 2006, arrebatando no mesmo concurso os galardões de “Melhor Voz”, “Interpretação” e “Letra”. Neste mesmo ano venceu o Festival de Música Popular Angolana (Variante).
Com a participação no Festival da Canção de LAC, em 2005, estabeleceu uma forte parceria com o produtor Nino Jazz, que foi fundamental na gravação do disco “Tata'zambi”,  lançado pela Kriativa, em 2008, o seu álbum de estreia com o qual venceu os prémios Revelação e  Criatividade. Com o mesmo trabalho, o reconhecimento internacional chegou ao ser nomeada para o Prix Decouverte RFI  da Rádio Francesa, que destaca a 10 melhores novas vozes de África.
Destaque para o ano de 2014, quando foi consagrada como a melhor do afrojazz no Top da Rádio Luanda e no Angola Music Awards (AMA). Importa salientar que no palco do ‘Jazz no Kubico Fusion’ já passaram, entre outros artistas, Tito Paris, Jack Nkanga, J.Lourenzo e muitas outras referências que marcam a chamada “música alternativa” e já teve um Festival Internacional com as presenças internacionais do Rapper e activista brasileiro Emicida, de Portugal a cantora Joana Machado e a dupla Mano a Mano, enquanto que Selda, Anabela Aya, Totó ST, Irina Vasconcelos, Amosi Just A Label e Kamutupu Project foram as propostas nacionais presentes.

É Noiz Festival
Jazz no Kubiku

Numa época que os produtores reclamam da dificuldade em realizar eventos com artistas internacionais e reunir grandes estrelas angolanas, eis que a Kent Managements, de Francisco Valente, o fotógrafo Nuno Martins e o artista plástico Binelde Hyrcan arriscaram com a proposta do Festival Jazz no Kubiku Fusion. O rapper brasileiro Emicida, foi o principal cabeça-de-cartaz, Portugal foi representado por Joana Machado e a dupla Mano a Mano, enquanto a prata de casa participaram Totó St, Selda, Anabela Aya, Irina Vasconcelos, A Mosi Just a Label, e Projecto Kamutupu.  
Foram duas noites com música de qualidade, não obstante a pouca afluência do público, que ficou aquém da expectativa da organização que previa cerca de 1000 espectadores. O Jazz de “raiz” esteve praticamente ausente, o que marcou presença foi a música de fusão. O afrojazz, bossa-nova, Rap. a Massemba à André Mingas e Mukenga, o Rock, Afro-house, Blues, Soul e outras sonoridades que misturadas dão uma musicalidade mais eclética, marcaram e encantaram a plateia. Ângelo Reis foi o Mestre de Cerimonia do evento, marcou o festival com um estilo de apresentação sui-generis, dividindo  a plateia quanto ao grau de aceitação.
Foi ao som de “Monami” da saudosa Lourdes Van- Dunem que Emicida começou a actuação, encerrando o Festival Jazz no Kubiku Fusion, marcado com boas apresentações e com pouca plateia. O  principal cabeça-de-cartaz do festival esteve sem os membros da sua banda, fazendo-se acompanhar de um Dj.  O homem que em tudo ouvia a voz de sua mãe e que viu Deus numa mulher preta, teve no concerto de Luanda, a materialização de um sonho, cantar em África.
A performance do rapper e activista brasileiro foi fortemente marcada pela apresentação do álbum “ Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa” de 2015 que, dentre outros motivos, teve a visita que efectuou em Luanda e em Cabo-Verde, fontes de inspiração, comprovada em “Mufete”. Joãozinho Morgado, Mayo Bass, Texas e Joel participaram na gravação em estúdio de “Mufete”  que interpretada no Clube Náutico foi carregada de emoção e gratidão,  quer pelo facto de Emicida apresentar ao vivo em Luanda, a cidade onde os “chamadores de candongueiros” têm musicalidade e os citadinos se identificarem com a mensagem; e gratidão pela forma como os presentes receberam a música que fala das suas “quebradas”.
Assim como “Mufete”, o tema “Passarinhos”,  um dos mais conhecidos de Emicida em Angola, proporcionou outro grande momento, com Selda, dando o toque angolano, na parte interpretada em estúdio por Vanessa da Mata. “Mandume” um som mais pesado conquistou os angolanos, não apenas pelo nome do herói nacional “Mandume Ya Mufuelo” mas a mensagem que aborda a união, a gratidão, amizade e com um pendor interventivo forte. O homem que respeita todas as quebradas não deixou de lado Nagrelha e citou algumas “noias” marcantes deste jovem que marca o Sambila, ficando bem claro que Emicida “provou e gostou”
Emicida trouxe as estrelas das noites de “Madagáscar” e o amor foi chamado implorando a bênção de sonetos de amor de Pablo Neruda e outros tantos versos de Mia Couto. “Mãe”, Baiana” e “Boa Esperança” foram aplaudidos. Emicida ofereceu o Rap, MPB, dentre outros sons e até convidou o pessoal para dançar kizomba ao som de “Mufete”.
Emicida aproveitou e fez uma retrospectiva na sua discografia “ O Glorioso Retorno de Quem Nunca esteve Aqui”,” Doozicabraba e a Revolução”, Emicidio” “Sua Mina ouve meu Rap”  e “Prá quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei mais longe” mostrando não apenas as suas mensagens conscientes mas dando o exemplo de superação e de afirmação do menino Leandro que começou por vender os discos de mão em mão e que conquistou o showbizz brasileiro, sendo um dos maiores empreendedores culturais com a sua produtora LaboratórioFantasma, hoje espécie de Motown brasileira.
A noite e o festival terminaram com um dos maiores sucessos de Emicida, a motivadora “Levante e Ande”, uma mensagem que apesar de ser autobiográfica se estende a todos aqueles que lutam pelos seus sonhos.
À margem do festival, Leandro Roque de Oliveira “EMICIDA” apresentou o documentário “Noiz”, que  faz parte do mesmo projecto onde consta o álbum "Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa” gravado em Cabo Verde e Angola.
Anabela Aya foi a primeira a subir ao palco e deu o seu melhor. A cantora que explora muito bem a expressão corporal, fruto da carreira que consolidou no teatro, teve como acompanhantes Nino Jazz (teclado), Mayo Bass (baixo), Yasmane Santos (percussao), Carlos Praia (solo)  e Dilson Pitter Groove (bateria). Se com “I love  bué, Tic Tac” a sensualidade musical de Anabela surge com temas como “Teu nome um”, do compositor Jomo Fortunato, a Massemba teve um andamento perfeito, com Nelo Jazz, fazendo jus ao nome, jazzeando nos teclados. Um outro momento foi o toque dado a “Mabele” de Óscar Neves e “ Tia” de Artur Nunes fazendo um entrosamento entre temas que marcaram o cancioneiro nacional, com nuances modernas, com um groove de Mayo Bass. Bob Marley e as divas da blackmusic americana, assim como um toque Zulu preencheram  a primeira proposta do Jazz no Kubiku. Anabela Aya mais uma vez exagerou na improvisação e em certos momentos a banda demonstrou que ensaiou pouco, mas fruto da cumplicidade que têm noutros projectos, o concerto agradou os presentes. Anabela Aya venceu o “Grande Prémio Canção de Luanda”, edição de 2017 e em Outubro deste mesmo ano participou no Festival de Fado.
A segunda atracção da noite, Selda, que levou o pessoal “Naquela Rua”, com “Palavras Doces”,  dentre outros temas do álbum “Morena de Cá” e propostas para o aguardado segundo disco. Guiselda Tainara Salgueiro Portelinha ou simplesmente 'Selda', nasceu a 4 de Julho, no Huambo. Os primeiros passos na música surgem aos 12 anos e dois anos mais tarde começa a compor. Em 2005 conhece Toty Sa` Med e Caetano, dois rapazes que estavam a montar uma banda, e junta-se a eles para formar a banda Cueca e Boxes, mais tarde  ‘The Kings’, onde era vocalista e única rapariga. Fez parte desta banda durante quatro anos. Em Setembro de 2006 foi convidada pelo autor e compositor Jomo Fortunato  a interpretar uma de suas canções com o título ‘Essa Voz’ no Festival da Canção da LAC, onde foi eleita a preferida do público. Selda canta Soul Music, Afro Jazz, Blues, Bossa Nova e muitos outros estilos e é dona de uma voz inconfundível. Com Morena de Cá em 2012, no Angola Music Awards, conquistou nas categorias de Álbum Acústico, Melhor compositor, Voz Feminina, Melhor música. E com a música "Aquela Rua", no Top Rádio Luanda,  foi considerada a voz feminina revelação. Depois da estreia, a cantora tem sido uma presença constante em festivais do genéro como aconteceu no Jazzing e em projectos musicais como Show do Mês, Trienal de Luanda, Jazzmente, entre outros; daí a escolha para o Festival Jazz no Kubiku Fusion
Totó ST fez o concerto mais aguardado e aplaudido da primeira noite, demonstrando muita maturidade em palco e tendo levado o público cantar os seus principais sucessos. O músico acompanhado do seu violão, cantou com a cumplicidade do jovem guitarrista Mário Gomes, nos solos e ritmos, o baixista Kris Kasinjombela e o cubano Yasmane Santos na secção percussiva. O artista teve um ano com várias apresentações mediáticas como: na III Trienal de Luanda, Show do Mês e  uma digressão no Reino da Espanha. O artista teve o reportório assente nos discos “Filho da Luz”, lançado em 2015, "Vida das Coisas" (2006) e "Batata Quente" (2009). Serpião Tomás, ou simplesmente Totó ST, notabilizou-se pela forma percussiva de tocar a guitarra e na aposta de fusões rítmicas. Totó encontra-se a preparar o seu próximo álbum e em Janeiro deste ano actuou na cidade de Maputo. Este exímio “trovador moderno”  tem as seguintes distinções: Melhor Afro Jazz - World Music” no Angola Music Awards, edição 2015 e no mesmo ano “Melhor Afro-Jazz” no Top Rádio Luanda, entre outras.
Joana Machado e Mano a Mano, da legião portuguesa actuaram de seguida, dois projectos diferentes, que na noite do primeiro dia se  fundiram para o festival. Com uma sonoridade assente no jazz, soul, blues, bossa-nova, mpb e outras tendências da Black Music esta proposta foi penalizada quer pelo atraso do início do evento, como do show arrasador de Totó ST. Joana Machado é da Madeira, aos seis anos entra no Conservatório e aos 17 mudou-se para Lisboa onde frequentou durante um ano o curso de canto da Academia de Amadores de Música e, mais tarde, integrou a escola de Jazz do Hot Clube de Portugal. Em 2002 mudou-se para Nova Iorque a fim de frequentar o programa de Jazz e Música Contemporânea da New School University, que concluiu com uma Bolsa de Estudo atribuída por essa instituição.
 Joana Machado já integrou o cartaz de inúmeros festivais de jazz e outros eventos, tendo colaborado com diversas orquestras e big bands. Editou cinco álbuns em nome próprio e a sua discografia inclui ainda participações em gravações de Abe Rábade, Amílcar Vasques Dias, Ricardo Pinheiro e Septeto do Hot Clube de Portugal. Lifestories (2016) é o último disco da cantora e reúne dez composições da sua autoria. André Santos e Bruno Santos, dois irmãos tocam juntos há tempos, apesar dos 10 anos que os separam. Começaram a tocarem juntos na Madeira, apostando nos  “standards” e “bossas” típicos de “jam session”. Com passagens em Portugal em espaços como:

Hot Clube, Ondajazz, Café Tati, Bacalhoeiro Coolectivo Cooltural, Cantaloupe Café, Scat Funchal J Irina Vasconcelos abriu as hostilidades sonoras, com uma proposta com incursões no Rock e todos os ritmos que tem experimentado, prendendo os presentes. Clovis com a guitarra fez o que mais gosta, os solos psicadélicos do Rock, enquanto Kappa D deu o groove da música africana. Irina Vasconcelos ao som de "Praia Morena",  o seu mais recente sucesso e música mais aclamada, provou que como a famosa Praia Morena, ela apesar de pequena é cheia de garra, e que na frescura daquela noite, conseguiu abrir as portas das almas e corações dos presentes. Músicas como "Belina" e outros temas autorais e versões antecederam "Kilapanga do Orfão", um dos principais hits do Café Negro. A cantora interagiu com o público de forma salutar. Também tratada por Clave Bantú, a intérprete e compositora conquistou o panorama nacional, inicialmente com o Rock e depois com sons mais ecléticos e versões de músicas angolanas que ganharam um toque especial no seu timbe vocal. Versátil e irreverente, com a banda de rock Café Negro, em 2014 recebeu o prémio do Grupo do Ano no Angola Music Awards e de lá para cá tem conquistado outros trofeús.
Amosi Just A Label que no passado foi Jack Nkanga teve o seu espaço. O artista que se estreou no mercado discográfico em 2014 com disco "Oops" onde encontramos “Sonhador”, “Its so hot”,  “Eu e a garina” e “Arts & Grafts”, dentre outros, aproveitou e apresentou algumas novidades sonoras, assim falou do recente reconhecimento em França, pela RFI. Clóvis como solista, Kris Kasanjbela no baixo e Dalú Rogeé na percussão deram o suporte instrumental que foi essencial para a segunda actuação, do segundo dia, onde mais uma vez o cantor incorporou estilos africanos, com o funck, o soul e o rock. Importa sempre salientar a pesquisa que tem feito com o Konono ritmo Basongo que tem introduzido em alguns temas. Amosi Just A Label prepara o álbum “Konono Soul” com combinações de sons da música negra numa estética singular, dando vida aos elementos derivados do Konono, Funk, Soul, Punk e Jazz.
Kamuputu Project trouxe a “vibe tropical” do seu Afro-house com letras cheias de poesia. E como disse a canção era só “alegria, rosas no ar”, uma aposta que se encaixou perfeitamente no line-up do Festival, até parecia que não faltava nada. Ricardo e Paulo Alves  contaram com Ciryus que substituiu Gari Sinedima, ausente por questões de agenda e com Ivan Alekxei. Temas como “Vizinha Maria”, “Vibe Tropical” proporcionaram momentos de “chiling” e serviram como um autentico “warn-up” ou seja de aquecimento para a grande atracção do Festival Jazz no Kubiku Fusion, o brasileiro Emicida. Para os presentes passou despercebido a ausência da Banda Mortem, da Dinamarca.

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