José Carlos de Almeida: "Namíbia, estás na minha mente"

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“Namíbia, gostei imenso de te conhecer. Até já tomei a liberdade de te tratar por «tu». Namíbia, estás na minha mente” - José Carlos de Almeida

José Carlos de Almeida: "Namíbia, estás na minha mente"

Do disfarçado silêncio da foto, o grito de contexto e de protesto. Ambos por África. Somente da África com sede de África.

Os mais atentos e perspicazes poderão achar que, em muitos sentidos de si, África é joia de valor de oferenda de núpcias cujo brilho é dependente da perspetiva da dimensão de nós. Não fabricável e sã.

Da fotografia à palavra, estamos nós algures por aí. Talvez dentro do contexto, o texto ajude a procurar interrogações nas picadas, estepes e crateras do nosso ser. Afinal o que é África, quando tudo nos leva distante da mútua aproximação às coisas da terra, da natureza, dos bichos, seus mais repletos sinónimos?!

Para muitos, aquela África, berço habitat dos bichos mais estranhos e de formatos extravagantes; submersa na adjetivação de exótica; é uma mera quimera, incluindo alguns rebentos que nasceram e nunca saíram dela mas que, a priori, a sua vivência jamais sabe ao sabor deste "culto à natureza" a que chamaram de África, e se agarram às alturas dos prédios como cativeiro da imaginação, ou, na ironia, casuais intérpretes de Ícaro.

Qual é a diferença? Qual é a piada de dizer que sou de África? Claro que responder só sim seria difícil e, caso assim acontecesse, um epíteto antónimo de verdadeiro seria o caso raro de uma visita desejada a escassos minutos da hora da refeição, seguido de um escrupulosamente sincero "bom apetite" livre da exaustiva proeza de esconder nas grades das feições faciais o mínimo sinal de discordância aturável.

Assim, numa próspera e, culturalmente, dialogante viagem à Namíbia, José Carlos de Almeida, nosso conterrâneo e homem de cultura, autor do livro "Ensaboado e Enxaguado", nos propõe, mais do que uma saudável inveja dele por ser o protagonista (o que arrancaria uma doce dose de orgulho para qualquer amante de África e de tudo que é seu), uma fuga ao monopólio do barulho dos automóveis, ao estaladiço dos vidros das janelas dos altos prédios; ao alucinante (às vezes, e com alguma sorte) som do salto-alto nas escadas e elevadores; ao vício do oxigénio da máquina que se apossa dos nossos sentidos diariamente; da nossa condição de destinatário obrigatório das esquebras das pontas do barulhento kuduro no táxi; e nos desafia silenciosamente, na delícia das suas fotografias de viagem, para que abramos atalhos que nos conduzam às reservas naturais, ou melhor, às reservas de nós, trazendo à mistura a crítica escancarada do absurdo de ser que é parte do habitat de maravilhas da natureza e passa a existência sem se oferecer à oportunidade de diferenciar o roncar de um automóvel e o bramido de um elefante, talvez também por isso digno de ser chamado de "despercebido de si".

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