Kapossoka, sinfonias do fundo do mar nas mãos dos meninos da Samba

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Cinquenta crianças viram as suas vidas transformadas pela música. Sim, a música, mas não o nosso Semba, Kilapanga, Tchianda ou o aclamado Kuduro, que acreditamos terem sidos as suas primeiras referências musicais.

Orquestra kapossoka

A transformação veio, sim, pela música “clássica” ou erudita. Aquela música que leva a alma a um estado de êxtase, como quem submerge até ao chão do Oceano e por lá se queda um tempo que perece uma eternidade, ouvindo sinfonias que vêm do movimento errático das marés.

Este projecto iniciou em Outubro de 2008, pelas mãos do Dr. Pedro Fançony, na altura Administrador da Samba que apostou na recuperação de uma escola em condições precárias.

A recuperação não ficou apenas na estrutura física, mas também na estrutura humana, as crianças provenientes de zonas de risco e de famílias problemáticas. Segundo o mentor do projeto “nada melhor para recuperar as crianças que a música, hoje, em certas maternidades a música clássica é usada, pelo seu grande poder terapêutico.

A música e o desporto socializam e humanizam, daí a aposta nesta forma de inclusão social”. Hoje, a auto estima delas está muito alta.

O projeto Orquestra Sinfonica Kapossoka quebra barreiras e o que ressalta é o facto de ndengues do musseque executarem uma música tida como de elite ou seja de gente abastada.

Durante os quase quatro anos do projeto, a auto estima nas crianças foi recuperada. Kapossoka tem o apoio do Presidente da República, padrinho do grupo que diariamente disponibiliza as refeições, o BPC e outras instituições. O ENAD cedeu-lhes as instalações onde a título provisório estão a ensaiar, enquanto as obras da sede estão em curso.

É neste local que encontrámos as crianças que, na altura, ensaiavam para o III Festival Internacional de Musica Infanto-Juvenil de Iguazu, República da Argentina que decorreu de 21 a 27de Maio.

Estiveram presentes cerca de700 crianças que partilharam o palco juntas, executando grandes títulos da música clássica. A África foi representada também pela África do Sul. Os estreantes desta edição foram Angola e o México.

Havia motivação extra, pois iriam à terra do Tango e do Messi. Foi na presença dos simpáticos e atenciosos professores filipinos que o grupo repetia e posteriormente fez uma simulação de uma atuação.

Felizmente não tocaram apenas clássicos dos “clássicos”, apresentaram também clássicos nossos como o Muxima, o Crucifixo, Filhas de África, dentre outros. Os arranjos destes temas já foram apresentados em galas aqui em Angola e foram bem aceites.

A disciplina e o êxito escolar são fundamentais. Há um acompanhamento fora do projeto. Algumas crianças gostariam de ser reconhecidas como violinistas, violoncelistas, contrabaixistas, bem como fazer carreira fora da música. O projeto Kapossoka será o modelo a ser usado em outras partes do País, uma vez que a criança é prioridade do Estado e o bem-estar delas deve ser salvaguardo.

Figuras ilustres do nosso meio como Brito Sobrinho, General Mbinda, Mendes de Carvalho, Roberto de Almeida, Ary, Pérola, Elias Dya Kimuezo e até mesmo estrangeiros já visitaram e falaram das suas experiências. As portas estão abertas para a interação com estas crianças, desde que manifestem este interesse com antecedência.

Este projeto não passou despercebido da cooperação espanhola e o DVD “Um concerto para violino” será lançado no dia 9 de Junho. Produzido pela Tus Ojos do realizador Manuel Fuentes e tem Maria Manuela dos Santos Armanda, uma das meninas do projeto, no papel principal, bem como a jornalista Sany Fuji da Rádio Nacional.

Quanto aos arranjos de música angolana, pensam recuperar temas do folclore e para isso contam com o apoio de um admirador do projeto, Maneco Vieira Dias, do Kilandukilo.

Esta peça ficará completa com a voz e rostos dos kandengues artistas que proporcionaram a um Rasta e um fotógrafo tarimbado, uma agradável manhã de sábado.

Bem-haja, Orquestra Kapossoka!

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