Kianda Kiá Ngola, da gíria luandense & da interpenetração idiomática

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Ouso debitar alguns escassos parágrafos em razão deste poemário da autoria de Jimmy Rufino que, dentre os autênticos cultores das poéticas locais, caudalosos rios de tinta fará correr indubitavelmente.

Primeiro, porque Jimmy Rufino é um companheiro de tarimba desde os idos de 80(do século passado, claro!), quando chegou e de forma acutilante iniciou vida literária na Brigada Jovem de Literatura de Luanda, tendo seguido ativamente todo o seu percurso.

Não posso olvidar nem deixar de referir, aqui e agora, que a brigada jovem de literatura de então era mesmo uma verdadeira escola e, como tal, o mais reputado viveiro literário que a história da literatura angolana do século passado regista para a posterioridade.

Por outro lado, o autor enquanto cultor e amante da melhor poesia angolana e não só, pautou-se sempre pela defesa do rigor ético e estético-literário das mais recentes gerações de literatos angolanos, ora cultivando e publicando o ensaio crítico, ora alimentando o debate criativo nos mais distintos palcos do nosso contexto literário.

Não é pois de estranhar que sendo ele um integrante da geração do 80, só agora, justamente agora, se apresenta aos demónios do crivo literário e por via da poesia. É que, na verdade, tal como exige o género poético, Jimmy é um cultor de exercícios de fino recorte e terapia relutante.

Sabe considerar e estar diante do texto que se propõe artístico-literário, enquanto leitor e produtor do mesmo, chegando a atuar não raras vezes - com aquilo a que, comummente, chamar-se-ia de "excesso de zelo" literário, em razão do proprium e do continum.

Assim sendo, o do autor, é já um nome de referência que se estreia solidificado e certamente vem para ficar, mesmo sabendo que em cada geração literária que se afirma, somente mais ou menos meia dúzia de autores consegue saltar as barreiras do seu tempo, e destes, simplesmente, mais ou menos meia dúzia de textos resistem de forma intemerata às intempéries próprias dos tempos.

Pois, mudando o tempo enquanto dinâmico fenómeno literário, mudam-se, obviamente, as propostas estético-literárias.
Entretanto, não passarão despercebidas ao atento leitor a perspetiva telúrica OHANDAJIANA proposta nos anos 80, sob o signo e manifesto da mudança contra o cantalutismo de então bem assim como os rasgos experimentais no que concerne ao tratamento da linguagem sugerindo, de quando em quando, alguma interpenetração idiomática entre o quimbundo caluanda e a língua portuguesa.

Mas é, justamente, aí, que "a porca torce o rabo" pois o poeta, em nosso modesto entender, acaba criando um código lexical muito próprio, situandose entre o calão, a gíria luandense e a vernacular língua veicular.

Constatamos que, vários lexemas (em versos distintos) jamais estarão ao alcance até do mais vivo dentre os vivaços calús, do Marçal, do Cazenga do Rangel, do Bairro Operário ou mesmo do Sambila, que são zonas onde, em razão da resistência ao colonialismo, o calão e a gíria suburbana facilmente faziam morada para governo dos filhos da terra.

Quem por acaso descortinará a intensidade ou a densidade verbal... de katingados xaxatansos marmelos/ na gulosa gingonda por muzakazucas/ de sabulados kía sabalos...?

Não serão estes, versos de um hino «barroco» meio descompassado? ­ O que será então, ou o que quererá o autor sugerir a cada um de nós leitores?

É preciso não esquecer na esteira de Johannes Pfeiffer, que a dado trecho «a poesia converte-se então num reino de valiosas criações verbais que se saboreiam de acordo a sua perfeição artística».

Isto não implica a obscuridade poética, pois se a poesia enquanto resultante do labor artístico das palavras poéticas é já motivo de difícil penetração, a proposta ora gizada por Jimmy Rufino, confirma o facto e tende a ser compreendida simplesmente pela forma mas é com certeza de um conteúdo significativo.

Alias, ainda na esteira de Pfeiffer, ler ou compreender este poemário tendo como fonte a forma ou (...somente!) o conteúdo, é, na verdade, encará-lo de modo impróprio.

O nosso autor cria e recria. Aqui lírico, ali épico e não raras vezes satírico, atendendo a perspetiva de Ortega & Gasset que dizia ser a sátira para a poesia, aquela pitada de sal sem a qual, uma boa refeição tornar-se-ia insossa.

O autor age sempre em torno dos motivos da angolanidade dos urbanos e/ou suburbanos de Luanda Músicos populares, conhecidos escritores, famosos salões de bailes, irreverentes grupos carnavalescos, exímios bailarinos e até o celebre Dinis do futebol do musseque, inspiraram e povoam estas páginas, como se quitutes da terra fossem de saborear com prazer depois da água na boca.

Resulta dai poesia forte, em razão da angústia e das influências. De entre outros momentos Jimmy, aproxima-se da transcendência por via da intertextualidade inspirado por Neto, o poeta presidente e elabora o texto DO VENTO E DA CHUVA... No irrigar dos leitos desnaturados / na nudez das distancias panfletárias / em adeuses de paz ecuménica / de pássaros com saudades / ...a sepultar o pão do povo / ... que guarda exemplos como as estações do ano / sem paranoicos cangalheiros / esquecidos de serem irmãos
. ... Porque não somos apologista da elaboração de prefácios, recensões e notas longas, muitas vezes maiores do que as obras em questão, por aqui me quedo, augurando ao autor muitos e muitos mais títulos e momentos de alteza. Aos leitores desejo persistência, para que possamos descortinar a complexa tessitura poética do autor.
 

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