Kota Calabeto é uma escola

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Foi ao seu jeito mexido que Calabeto subiu ao palco, trazendo na ponta da língua estórias de amor e de luta num Kimbundu abundante.

Kota Calabeto é uma escola
Artista Kota Calabeto

Nascido a 3 de Abril de 1945, António Miguel Manuel Francisco "Calabeto" (o também Kôta Bwê) comemorou no dia 5 os seus 70 anos de idade rodeado de familiares, amigos e colegas de profissão no Centro Recreativo Kilamba, no Rangel, sendo o aniversariante a atracção principal do muzongué de domingo. Na mesa o mufete, o funje de calulú, o caldo de peixe e outras iguarias típicas da gastronomia angolana, degustadas ao bom som de registos que fazem furor desde os anos setenta aos dias actuais.
Robertinho, acompanhado pela banda da Rádio Nacional, ordenou gentilmente os presentes a encherem a pista de dança ao trazer bem lapidado o seu imortal “Kiowa” e outros sucessos desta grande voz do semba. Na vez de Dom Caetano, o mestre de cerimónia, ripostou ao tirar do seu repertório o sucesso “Sou Angolano”, acabando a sua actuação com uma homenagem musicada ao toque da kazukuta do Kabocomeu.
Foi ao seu jeito mexido que Calabeto subiu ao palco, trazendo na ponta da língua estórias de amor e de luta num Kimbundu abundante. Dos seis temas interpretados, “Tussocana kiebi” deixou o Kilamba numa azáfama desconcertante, as mamãs vestidas a bessanga e as senhoras de trajes ocidentais não conseguiram estar quietas, quase todas foram buscar um companheiro que saciasse a vontade de dançar este sucesso. Confesso admirador da postura de sembista de Calabeto, Edy Tussa subiu ao palco para fazer vincar o seu “Amor a Mwangolé”. Mas não ficou apenas com sucessos novos, partilhou o palco com o aniversariante no sucesso “Ngui Dia Ngui Nua”, da autoria de Calabeto e que o jovem interpreta no seu mais recente cd intitulado “Grandes Mundos”.

Saudades na forja
Conta 70 anos de idade e a caminho de 53 de carreira. Calabeto já tem uma estrada muito longa, e argumenta que é preciso ter disciplina para poder aguentar.
Questionamos para quando a próxima obra. Sem data prevista, alegou que problemas financeiros o impendem de avançar com o projecto. No entanto, enfatiza que as músicas e os recursos humanos existem, não tem é dinheiro para gravar o próximo disco, que muito gostaria de o fazer. Caso saia, partilhou que seria intitulado Saudade, título de uma das 10 faixas musicais que o mesmo comportaria.
Guarda muitas boas memórias do Kilamba e reconhece o esforço da produção do Muzongué (encabeça por Estevão Costa) por promover a música e os músicos angolanos que já não aparecem frequentemente na imprensa.
Do seu recado à nova geração, disse estar aberto a dar ensinamentos e incentivou que continuem a cantar: “Eu já vou com setenta e Elias Dya Kimuezo já vai nos oitenta. Será muito bom que os jovens saibam interpretar a música angolana, porque podemos sofrer uma invasão cultural. O país tem história e tem cultura e deve ter defensores fervorosos deste sentido de estar”.
De Edy Tussa ficamos a saber que este momento é sinal de que os mais velhos estão a deixar o testemunho para os mais novos e que os da sua geração devem prestar atenção no que os kotas fazem e na entrega deles à causa da música angolana: “A geração do kota Calabeto está a passar o testemunho. É nossa obrigação receber e preservar para a continuidade do génio de gerações anteriores. Está de parabéns o kota Calabeto: é uma escola. É importante sentarmos, sobretudo os jovens, à volta dele e ouvir histórias com raízes de nós. Essa convivência profunda com kotas desta índole gera em nós uma atitude distanciada em relação a muitas coisas do estrangeiro que temos trazido para nossa praça e afirmarmos como se fosse nossa, ignorando totalmente que os próprios estrangeiros sempre souberam fazer melhor”.
Numa breve comparação, Edy Tussa reconheceu que a música desses kotas toca há mais de trinta anos e ainda se impõe como sucesso no seio dos seus admiradores, prova mais que suficiente de que a sua geração ainda não está a fazer melhor, sendo que a dos kotas abriu caminhos, exaltou o semba e as línguas nacionais em períodos difíceis. Um pouco contrário ao que acontece com as estrelas dos dias recentes, que criam sucessos que não sobrevivem meio ano e caem em total esquecimento.

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