Kudissanga: Batuque é Raiz

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A volta às nossas tradições, "Um povo que esquece os seus valores culturais ancestrais é um povo sem alma e sem espírito"!

“Umpovo que esquece os seus valores culturais ancestrais éumpovosemalmaesemespírito”!

Kudissanga Batuque é Raiz é um projeto educativo sociocultural criado em Agosto de 2009 pelo percussionista e DJ  angolano residente em França, Rucangola, coma presença de Augusto Van-Dúnem, monitor responsável em Luanda.

O objetivo deste projeto é simplesmente educar as crianças e jovens de Angola através da arte dos tambores e a diversidade de ritmos africanos e afroamericanos, sem esquecer os cantos de liberdade.

Rucangola acredita que a percussão pode participar na educação das crianças e jovens em Angola colaborando positivamente no processo de reconstrução Nacional.

Tudo começou quando Rui Loureiro, “Rucangola”, notou que, ao contrário de países africanos e mesmo de outros fora do continente fortemente marcados pela cultura africana, não encontrava na cidade locais para exercitar e ouvir os sons dos tambores, da ngoma, da dikanza e demais instrumentos deixados pelos ancestrais.

Inicialmente, o projeto “Kudissanga Batuque é Raiz” realizava os seus ensaios aos sábados e domingos, entre as 14h00 e as 22h00, no largo da Angoship, defronte à antiga Loja Militar do Bungo, com a participação de dezenas de percussionistas nacionais e estrangeiros, que ensinavam as crianças a familiarizarem-se e socializarem-se ao som duma boa batucada. Apresentavam essencialmente batucadas de semba, kilapanga, kazukuta, samba, afro beat e rumba.

Augusto Van- Dúnem é o encenador e responsável do Grupo de Ballet Kussanguluka, o principal parceiro. Segundo Rucangola, "tudo começou aquando das suas férias em 200. Ao passar nas imediações do Elinga Teatro, senti o som forte dos batuques. Era comum ouvir o som da percussão noutras paragens, mas não aqui na banda".

Não resisti e fui falar com o Tio Van- Dúnem e apresentei-lhe o projeto. Eu vivo em Toulose, na França, e no Maranhão, Brasil, locais com forte presença africana e daí a existência de várias manifestações populares da Cultura do continente berço. Quando o Poeta escreveu "Havemos de Voltar", também apelava à solidariedade e ajuda ao próximo bem patente na cultura angolana.

Daí esta aposta, socializando e inserindo os kandenguesde famílias de baixa renda, iniciando-os nos ritmos dos batuques e, quem sabe, a posteriori, na nossa marimba e no quissange e outros instrumentos convencionais nacionais”.

A iniciativa começou ao ar livre e de forma gratuita. Os interessados levavam batuques, latas, panelas ou outros instrumentos para tocarem. Outros grupos abraçaram a ideia como o Abada Capoeira  e Carapinha Dura. Augusto Van- Dúnem diz “inicialmente realizavam o atelier de percussão com os kandengues e ao final da tarde era a batucada dos kotas.

O projeto visava ainda reunir periodicamente os percussionistas, sobretudo os ligados aos grupos carnavalescos que, após a festa do Entrudo, ficam um longo período sem praticarem a percussão e desta forma não podiam passar o testemunho. Outra intenção do Batuque é Raiz é o de promover os nossos rituais e ritmos, valorizando de uma maneira espontânea nas ruas de Luanda a arte da percussão como parte integrante da nossa identidade cultural. “O projeto, naturalmente,  também uma componente do processo de reconstrução nacional do nosso país.

Kudissanga Batuque é Raiz tem como objetivo despertar as consciências para, de maneira natural e fraternal, valorizarmos a nossa identidade cultural, comunicando na rua através da dança, canto e percussão, cultivando paz, amor, harmonia social e mantendo viva para sempre na vida de todos os dias a nossa expressão kudissanga kuamakamba (encontro entre amigos)”, disse Rucangola.

O Kudissanga Batuque é Raiz bebeu a ideia de projetos similares no Brasil como os percussionistas Mirins do Olodum, a percussão feminina da Banda Didá, Afroreggae e ainda das oficinas de arte realizadas no Maranhão pela Unegro, parceiros de Rucanagola. Todos estes são projetos de inclusão social, por isso a componente educativa é fundamental. Existe um acompanhamento no aproveitamento escolar, algumas crianças que estavam fora do sistema do ensino foram enquadradas.

Hoje o grupo não ensaia na zona da Angoship, mas sim no Elinga Teatro e outros núcleos foram criados: um na Mabor e outro no Morro Bento. O projeto tem cerca de 50 crianças.

Várias têm sido as atuações destes garotos destacando a participação na 2º Trienal de Luanda, participação no Show de Ângelo Boss, homenagem ao Mestre Kamosso, numa edição do Programa Kialumingo, jornadas em torno do dia Mundial da Dança de 2012 e mais recentemente no Festival Internacional de Teatro. Convites para o exterior já foram formulados.

Tem sido um esforço manter este projeto. A título de exemplo, os instrumentos são do Kudissanga, não é fácil dar merenda aos miúdos quando ensaiam. O lançamento de um álbum é um sonho. Na ausência de Rucangola, o incansável Augusto Van-Dúneme a Tia Graciana Loureiro não se coíbem de buscar parcerias e apoios, mas quase sempre não encontram respostas positivas.

As crianças estão satisfeitas, dizem que o projeto mudou as suas vidas. Como todas as crianças sonham e brincam, na sua inocência falam das aparições nos programas da Televisão, as noticias no Jornal e Rádio e os aplausos nos palcos. Querem fazer mais e a sociedade pode ajudar a fazer e desta forma contribuir para a concretização da aspiração do Poeta em “Havemos de Voltar” com batucadas de solidariedade e ritmos de felicidade na construção do Homem Novo.

Curiosidades

. Afonso Quintas proporcionou a primeira edição do BatqueÉ Raiz, Realizado em Agosto de 2009 no Miami Beach
. Dog Murras foi o padrinho na atuação da Trienal, doando camisolas para atuação e fez a conexão para a participação no Showde Angelo-Boss
. Rucangola inspirou-se no trabalho do percussionista baiano Carlinhos BrownedoOlodum.
. Rucangola durante os últimos anos é uma presença constante nos Carnavais da Bahia e Maranhão e nestes dois estados tem feito workshop de semba, kazukuta e outros ritmos angolanos.
. Parcerias com os palengues comunidade de afro-colombiana
. Projeto coordenado em três Países, França, Angola e Brasil, pela Vânia Rocha (Pérola Negra)
. O palco da Rádio Vial através do programa Kialumingo, proporcionou o encontro como carismático entre os kandengues do Batuque é Raiz e o mestre Kamossodo Hungu.
. Rucangola, e amigos como o capoeirista Cabuenha, a fotografa Hindhyr a Mateta, e o ator Raul Rosário, são responsáveis da redescoberta e de uma campanha de solidariedade ao Mestre Kamosso, tendo mesmo participado na homenagem realizada no Estado do Maranhao no dia 4 de Abril pela Associação Cultural Mandingueiros do Amanha e a Secretaria de Estado Da Cultura do Maranhão.



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