“MAKONZU” PARA O PINTOR ÁLVARO MACIEIRA

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António Feliciano Dias dos Santos –KIDÁ
(Artista Plástico e Professor de Arte)

Pintor Álvaro Macieira Fotografia: Arquivo

“Quando as pessoas deixam de passar durante muito tempo num local, o vento encarrega-se de apagar as pegadas até então deixadas na areia” (provérbio popular).Quem muito faz uso dessa máxima popular, é o nosso amigo Álvaro Macieira que, no alto da sua valorização aos aspectos culturais que nos são intrínsecos, incorpora nas suas atitudes de produção artística na vertente plástica, essa expressão que em tudo justifica a sua nova exposição individual pictórica denominada “Angola Makonzu”no Camões/Centro Cultural Português, aqui em Luanda. De sublinhar que o termo Makonzo, o seu significado em kikongo é Aplausos. Logo, Makonzo ao pintor!
Para o contexto, e segundo o pintor Álvaro Macieira, a assunção do provérbio acima descrito (muito profundo pela dimensão sociocultural relevante que a mesma encerra), demonstra, sem equívocos, a importância de, em espaços temporais não e nunca muito distanciados, fazer questão de “apresentar-se” ao (seu) público com novas propostas de trabalho, que geralmente acabam surpreendendo, dada a sua versatilidade em reinventar aspectos oníricos ligados ao universo da fauna e da flora metamorfoseados com a ambivalência humana em coabitação incontornável num mesmo espaço idealizando, deste modo, composições temáticas que, nalguns casos específicos, nos remetem numa incursão analítica que pode carecer de aprendizado estético por parte de quem as observa.
O artista gosta de se fazer passear em rios de tinta, usando e abusando de “toneladas” de bisnagas de acrílicos com o objectivo final de potenciar as suas gigantescas obras (em termos de dimensão do espaço pictórico), com elementos texturais inimagináveis, que só a experiência na persistência pode proporcionar.
Durante um determinado período, o artista habituou-nos a observar, obras produzidas com tons demasiadamente apelativos, na medida em que o mesmo sempre privilegiou tons berrantes (as denominadas cores quentes), num exercício que insinuava a retratação do meio ambiente africano simbolizado pelo astro Sol, sendo este elemento quase sempre presente nos seus trabalhos criativos. Todavia, e para aquilo que para muitos poderá vir a ser motivo de espanto, é que nesta exposição, o autor preferiu lidar e trabalhar com os tons bem mais suaves – mas nem por isso se liberou de todo dos ‘quentes’ - cuja paleta actual nos parece estar mais direccionada para as cores ténues, mas sem nunca perder de vista os aspectos técnicos de execução temática que lhe são características desde que se assumiu como pintor.
Álvaro Macieira, é daqueles homens que decididamente veio contribuir para mostrar à sociedade que a Arte «não tem dono», ela pertence para quem a pratica com o profissionalismo recomendável e aceitável junto dos “dominantes” da matéria, ou seja, aqueles que já têm muita “quilometragem” de estrada no domínio estético. E ele sabe fazê-lo com a prudência que a humildade recomenda. Jornalista de profissão, “entra” para o mundo artístico pela via das artes plásticas e, dia após dia, galga, conquistando cada vez mais o seu lugar ao sol. Também é poeta! É escritor! Ou seja, é polivalente! Na essência, a Arte é cúmplice dela mesma em todas as suas vertentes. Permite “fusões” e “imigração” ora de conceitos literários (poesia) para musicais, ora da plasticidade para ambientes cenográficos, enfim, o universo artístico é prenhe de ingredientes susceptíveis para a criação de “acasalamentos” profundos em termos de orientação estética das coisas. Que, “grosso modo” digamos, somente o Artista tem essa capacidade ímpar de enxergar.
Na qualidade de muito chegado que sou dele enquanto amigo,me sinto deveras suspeito de tecer quaisquer outroscomentários para além dos que acima já evidenciei, mas, na qualidade de colega, me sinto confortado em saber que, à seu singelo pedido, em vezes anteriores já acedi em tecer algumas linhas sobre os seus trabalhos pictóricos, com destaque para o texto memorável que produzi sobre os “Conexantes” -grupo artístico então constituído por ele, o Mestre Augusto Ferreira e o malogrado pintor alemão HorstPoppe - que vigorou no pricípio do ano 2000, no qual partilharam experiências de um projecto pictórico comum, e queno entanto tive o grato privilégio de os ter acompanhado durante esse período de tempo, debitando textos de opinião.
Mas a caminhada artística do pintor Álvaro Macieira, não estagnou no tempo. Continua, na mesma pedalada de sempre, a galgar o areal que deu início há vários anos sem mais nunca parar, não vá o vento querer apagar o trilho das suas ‘valentes pegadas’já solidamente cultivadas no pedestal da terra que o viu nascer.
Daí, o nosso “Makonzu, Angola!”
O nosso “Makonzu, Álvaro Macieira”!
Muitos aplausos por mais esta exposição!

Luanda, Setembro/2017

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