Mariano Bartolomeu em grande plano

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Desde que, em Julho do corrente ano, a Cinemateca Portuguesa acolheu a mostra de cinema angolano "Olhares sobre Angola", sobre a qual já deixei o meu testemunho e publiquei o meu aplauso, decidi colocar o DVD de Mariano Bartolomeu, cineasta angolano homenageado neste certame, na prateleira dos «prazeres adiados".

Mariano Bartolomeu  em grande plano
Mariano Bartolomeu em grande plano

A minha decisão revelou-se afortunada: acabo de assistir a várias curtas-metragens de ficção, rodadas ao longo de duas décadas em diferentes latitudes, e não resisti a alinhavar estas impressões com a mesma espontaneidade com que provavelmente o cineasta pensou, em algum momento da sua vida, em filmar apenas com «uma ideia na cabeça e uma câmara nas mãos», como o fizeram décadas antes os seus colegas do Cinema Novo ou da Nouvelle Vague.
Nos seus filmes, que saboreei devagar e sem ideias prévias, encontrei ambientes obscuros e uma sensualidade latente, cenas intimistas e uma atmosfera que lembra ocasionalmente o film noir, com a sua dose de mulheres fatais, de personagens moralmente questionáveis e ambíguos, e de relações disfuncionais.
Estas narrativas, algumas das quais feitas em contexto académico, atravessam décadas e continentes. Rodadas de 1989 a 2008, entre Cuba, E.U.A. e Angola, acompanham, como uma sombra, o próprio autor: impossível dissociar o criador da sua própria criatura.
Na primeira curta-metragem, que não ultrapassa os 10mn, um coreógrafo homenageia um poeta jamaicano executado por um polícia numa ruela sombria dos bas-fonds londrinos. Fá-lo através de uma linguagem visual dramática impregnada de sensualidade, e confessa: «A dança é como fazer amor, se não há entrega total, não se desfruta».
A morte e a dor viajam das ruas para o palco, e a barbárie redime-se no espectáculo, exprime-se na dança e pela dança. E assim vamos «Caribeando», pelo olhar do autor do musical captado e recriado pela câmara de Mariano.
1991: o ano em que o cineasta rodou dois dos seus filmes foi um ano também marcante para mim. Facto irrelevante para os leitores, mas que desperta em mim um prurido incontrolável: «Um lugar limpio y bien iluminado» é uma história inspirada no clássico conto «The Killers», de Hemingway (escritor cuja obra foi amplamente adaptada ao cinema) e que, como Mariano Bartolomeu, desenvolveu um forte vínculo com Cuba, onde viveu parte da sua vida. Um retrato sem meias tintas, literalmente a preto e branco, num cenário escuro e sujo, em que o gesto conta mais do que a palavra e os diálogos são tensos, curtos e directos: os homens não falam muito, não gostam de ser questionados nem contrariados, e têm apenas uma missão. Tal é a postura dos dois tipos, com trejeitos de matadores profissionais, que procuram a sua vítima num bar, onde uma mulher dança para todos, alheia a si mesma.
O visado é «El Suave», um boxeador algo blasé, cansado de fugir, que em miúdo tinha «bom ritmo para a música». El Suave não sai à rua, não foge nem se mostra, é carcereiro de si próprio, pois há muito que o medo se mostrou mais forte do que qualquer ameaça real, como a dos dois tipos que o procuram. É um colete que lhe tolda o desejo de liberdade. El Suave é a vítima, sim, mas sobretudo desse medo. Mais importante do que o enredo, é a atmosfera carregada que paira sobre as personagens, como uma nuvem precedendo a tempestade.
Neste mesmo ano foi rodado «Quem faz correr o Quim?», que me trouxe à memória o conhecidíssimo romance «O que faz correr Sammy» de Budd Schulberg. Mas a história baseia-se, afinal, num conto de outro autor, o japonês Kenzaburo Oe.
O que leva um homem a correr incessantemente, o que o move para lá da rotina, o que o apaixona, o que o leva a pisar o risco e a ignorar todos os alarmes? Quim é um piloto militar que acaba de ser pai de uma criança com uma malformação genética. Quando a medicina não lhe dá as respostas que procura, o feitiço surge-lhe como uma explicação e uma solução, que avalia com a sua mãe. A frustração e o desejo de evasão levam-no a procurar uma atraente mulher alheia ao drama, que o conhece desde sempre e o conforta. A mulher, desesperadamente disponível, acolhe-o sem perguntas nem exigências. Mas cada um tem os seus objectivos, para além da relação esporádica e de uma tensão contida que os liga. Quim e essa mulher acabam por convergir pontualmente e ser cúmplices num negócio ilícito que provoca uma viragem na vida de ambos.
Depois, o pai de família cumpre a sua função protectora e acomoda-se ao seu destino.
O «Contador de Estórias», rodado já em Angola, em 2003, traz-nos a adaptação do conto «Em Casa», de Anton Tchekov (médico e escritor russo, conhecido nomeadamente pelos seus contos). Esta curta traz-nos um acontecimento do universo familiar contado com um intuito claramente pedagógico, em que a opção por planos propositadamente longos parece justificar-se com essa intenção. Um professor de matemática é posto à prova como pai e como educador, confrontado duramente pela mulher; esta critica-lhe o mau exemplo perante o filho, por ser um fumador incorrigível, não obstante as promessas que lhe fez.
Durante uma aula o homem deixa-se encantar pela imagem de uma sedutora mulher que observa concupiscentemente pela janela. A mulher aspira o tabaco com volúpia, e ambos (mulher e cigarro) se afiguram irresistíveis para o professor…Entretanto o seu filho atreve-se um dia a fumar em segredo, tendo encontrado cigarros no escritório do pai, o que desencadeou uma dura crise familiar. Pressionado pela mulher e pela sua própria consciência, o pai alerta-o para os malefícios do tabaco, condenando com igual indignação o facto de lhe ter mentido e desrespeitado os pertences alheios. Em vão. Educa-se pelo exemplo, mais do que pelas palavras, como é sabido. O professor esforça-se então por criar um clima de absoluta confiança, contando-lhe, ao anoitecer, como Sherazade, uma história interminável, adaptada por ele. Educar através da arte, da emoção, por meio de um jogo de espelhos, foi a forma encontrada para chegar ao coração do menino …
Finalmente, «Uma noite perfeita para falar de amor», é uma narração de cerca de 30mn inspirada num conto de J.D. Salinger (Pretty mouth, green my eyes). O conto, sublinhe-se, pede a gritos para ser adaptado ao cinema: é um drama passional descrito através de diálogos intensos e intrigantes e conta a história de um improvável e assustador triângulo amoroso. Mais do que um conto, a história é já um script, pronto a ser contado em imagens: nelas vemos um homem desesperado à procura da mulher, instável e volúvel. O homem embriagado desabafa com um amigo e colega de trabalho, pede-lhe conselhos e conforto, desvairado, longe de imaginar que este está com ela na cama, vivendo uma aventura casual. O amante ouve-o com compaixão e desconforto, enquanto a mulher se escuda na sua feminilidade discreta sem culpa, à maneira das divas, beberricando um whisky tranquilamente. O diálogo ao telefone ocupa a maior parte da narrativa, que se apresenta como um drama psicológico e uma intriga insólita. Por fim o marido traído volta a telefonar ao amigo e sossega-o, afirmando que Joana, a mulher, acaba de voltar a casa…esta confissão desconcertante acaba por assustar o amigo e mergulhá-lo numa atmosfera de suspeição…a mulher, (vítima ou predadora?) é a personagem que assiste à narração da sua própria vida, e apenas observa, como uma fera preparando o salto final.
Como espectadora, fui ao encontro do realizador apenas depois de conhecer um pouco da sua obra. E mesmo que estivesse mergulhado no mais profundo anonimato, o mundo iria, com certeza, resgatá-lo desse torpor. Sentimos claramente as suas influências, e percebemos o seu fascínio por histórias fortes nascidas em ambientes carregados de sombra, que reinterpreta com um olhar centrado em África mas aberto ao mundo e à modernidade.
Não terá sido por acaso que nestas histórias escolheu adaptar contos bastante visuais, com diálogos cinematográficos, de autores de culto. Eram personagens que esperavam um rosto, e Mariano deu-lhes forma e conteúdo visual, cobriu os esqueletos de carne, segundo a sua perspectiva. Por outro lado o estilo de Fellini, de Altman ou de Tarantino estão subjacentes à sua obra, são os mestres que o guiam e cuja influência ele assume, com transparência.
Mas…«O que faz correr Mariano»?
O cineasta esclarece: «Em primeiro lugar, acho que todo o ser humano sente uma necessidade vital de conexão com outros seres humanos, sejam eles da mesma comunidade ou não. No meu caso, isso acontece, por exemplo, na necessidade que tenho de exprimir a minha vivência, experiência e emoções através do cinema, contando historias minhas, quando se trata de ficção, ou de outras pessoas, quando se trata de documentário. Haverá sempre alguém que também se sinta identificado com o que vê, com o que contamos. Naturalmente, uma história é sempre um incentivo para olharmos para dentro e tentar compreender a razão do nosso ser, mas também de olhar para fora e tentar fazer sentido com as coisas que nos rodeiam. É por isso que contar histórias sempre ocupou um lugar primordial em qualquer cultura, porque, além de ser uma tentativa de interpretar a realidade, também ajuda a expandir e a construir o futuro, que muitas vezes aparece primeiro como um acto utópico e imaginário. Angola é um país maravilhoso, tanto do ponto do vista humano como geográfico, e tem muitas estórias que necessitam de ser contadas. Acho que o cinema é o lugar privilegiado para fazê-lo.»
Conhecemos a aventura que é, para um cineasta africano, conseguir financiamentos, num continente onde os circuitos de distribuição são frágeis, há carência de formação de técnicos e actores e existem prioridades estatais mais gritantes que o cinema. Muitos empenham o seu próprio património, recorrem a crowdfunding ou submetem-se às imposições dos produtores, procurando manter a essência da obra e cedendo sobre pormenores. São anos de avanços e recuos em que a desistência não é uma opção: filmes que só são vistos em festivais e raramente entram no circuito comercial.
Acreditamos que Mariano Bartolomeu premiará a médio prazo a fidelidade dos seus fãs com mais produtos de ficção, longas metragens que atinjam o frágil equilíbrio entre cinema viável comercialmente e artisticamente válido. Boas histórias bem contadas e interpretadas, como as que constam dos seus projectos em carteira: um road movie e um filme sobre uma figura da nossa História.
Eis os seus esclarecimentos sobre esses projectos:
«O projecto sobre Nevunda, o embaixador do reino do Congo em Roma no início do seculo XVII é um filme que está a ser produzido por Rui Costa Reis, produtor angolano que tem uma produtora baseada em Hollywood, a RCR Media Group. Encontra-se ainda em fase de desenvolvimento. O argumento está a ser finalizado, mas algumas figuras importantes do casting já estão determinadas, como é o caso do Jamie Foxx que está muito entusiasmado em interpretar a figura do embaixador. É preciso não esquecer que no centro do filme está uma figura histórica, um africano no meio das intrigas de uma corte europeia que não tem a mínima intenção de facilitar a missão do emissário de um rei africano a Roma. Houve a necessidade de muita pesquisa para se conhecer melhor a história real. Só assim foi possível lançar as bases para desenvolver um épico de ficção onde muitos dos elementos, sem serem estritamente reais, têm, no entanto, que ser absolutamente convincentes e verosímeis.
Em relação ao Road movie, existe um argumento, mas falta financiamento. Ainda não tem casting embora eu tenha já algumas ideias a respeito. Enquanto isso, continuo a trabalhar no aperfeiçoamento do argumento. Tendo em conta a forma como o projecto está estruturado e pensado é um pouco difícil de facto fazer o “pitch” aos potenciais financiadores, pois trata-se de uma história que eu quero filmar no estilo do neorrealismo italiano, com um argumento minimalista, mas aberto. Mas já fizemos algumas propostas e o feedback é positivo.»
Confiamos no envolvimento de produtores audazes e atentos dentro ou fora do continente, que ousem apostar em filmes fora dos clichés generalizados, do fast cinema, das receitas garantidas, ou dos produtos descartáveis, que tomem as dores do realizador e assumam solidariamente a sua quota-parte de risco. De outra maneira não teria qualquer graça…
Agradecimentos: Expresso o meu claro reconhecimento ao realizador, pela disponibilidade em fornecer informações actuais sobre os seus projectos em carteira e a sua visão do cinema, destinadas aos leitores da lusofonia.

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