Mário Tendinha confessa-se "Através das Portas"

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É o sonho que abre as portas da arte? Ou é a arte que abre as portas do sonho? Não é atrás da porta peneirada do confessionário que Mário Tendinha se confessa.

Mário Tendinha confessa-se "Através das Portas"

O pintor angolano da nova vaga confessa-se através de portas recicladas, ou melhor, esvaziadas de pecados capitais, e a sua alma atravessa o umbral duma porta aberta, outra fechada, uma vertical, outra na horizontal, por isso que o visitante da galeria do Instituto Camões, à rua de Portugal, omita a leitura do aforismo de Benjamim Sabby, curador da exposição "Através das Portas" (27 de Setembro a 19 de Outubro), que propõe: "o limite da arte é a própria arte", e arranque pelos batentes as doze portas que Mário Tendinha (MT) carpinteirou em telas de infinitas possibilidades, a ver se:

I. É com "Capotas na Zebra" que MT nos convida a sair do nosso `eu' e entrar (ou sair ainda) nessa pele de zebra sobre a qual as galinhas do mato vão debicando a mancha galáctica do mundo.

II. "Passion Através da Porta" não será uma janela horizontal, de rostos desenhados a china, rostos que trazem no coração paisagens sem olhos e sem saber uma oração a um deus (des)conhecido/(des)conseguido?

III. "Urban Nkisi": espelho de quantos temores nos subjugam nesta viagem terrena. Lança, pregos, corno de gazela, ferinos elementos de outra plástica bio industrial espetados no quadro (na porta) não são armas de crucificação e do derramamento de sangue? E as nossas almas lá vão fechadas dentro de saquinhos misteriosos, coloridos...

IV. "Jantarada": porta do banquete de sábado (a Última Ceia?), sobre a qual Sô Santo vaticinou "coma e arrebente, o resto vai no mar", naquele poema do Viriato da Cruz. Mesa cheia de figurantes (serão treze ou serão menos? nem contei...) e figurinos da banda, a multietnicidade e o cosmopolitismo patente através dos vazios na pintura, é mil bocas que zuelam, é mil olhos que nos comem, é rostos castiços, é o toque surreal do pincel, a desconjunção das mandíbulas em acrílico desbotado, uma perfeita unidade entre o gesto e a expressão das almas.

V. "Binas Porta", a porta das bicicletas com vista para a cidade onde se brinca de levantar a roda da frente e se namora em cima do quadro triangular, meu Deus, que maravilha e gozo o MT nos desenha aquela porta rosa fechada de cabeça para baixo a nos contar seus mambos pelas frinchas!

VI. "Huku Porta Balarina" em aberto: homem ou mulher, esse kifumbe? Tem saia rendada, um pé de bailarina e outro sapato preto. Rosto de kazumbi: um fio de sangue escorre indiferença sobre a testa. Vamos masé dançar ou ser sombra de quem somos?

VII. "Black Magic Woman", Santana ainda ecoa seus acordes de guitarra dentro dos seios multitudinários dessa dama sentada no umbral dos nossos apetites, já com a maçã carnal na garganta, os cabelos em fogo, não abre a porta, meu, o interior é de noite, podes perder-te no teu próprio sonho real.

VIII. "USA mais não abusa" ou o sentido utilitário dos metais sobre a madeira, mas talvez o reverso da superprodução em série, a languidez de uma cortina enfeitada, a enfática solidão dos bonequinhos burgueses que enfeitam as casas de banho. Para que serve uma casa de banho ambusexus, senão para recondicionar o orgasmo?

IX. "Walalapo", porta do sol e da alegria , manhã vestida de azul, vermelho, amarelo, verde, branco e beijo, língua de fora, ave remota a debicar nossa ânsia de afetos.

X. "Ovankwanyama" procede a um esforço fixo de reconstrução da mente do espectador sobre a figura diluída do pastor sentando/encostando na porta de chapa todo o seu (in)conformismo natural pelas bandeiras do silêncio e a textura do futuro.

XI. "Oku Awisa" na horizontal, o deus kronos reconstrói as areias da planície onde o gado levanta os cornos e os ancestrais desenharam mitos em rituais percorridos de olhares que nos perseguem desde então.

XII. "Munhino versus Patéro". A maior porta da solidão do pintor, a abrir-lhe as veias do pincel com tons de acrílico sobre madeira, três ovos de avestruz, três bois esplendorosos (verde, rosa e branco timbrado de preto) na hora do cio elementar, dois sóis azuis temperamentais e o caçador que dispara o arco contra a própria morte, e a raiz das coisas se materializando nas árvores finas do agora.

“Através das Portas” quem passa?
O Mário Tendinha? Ou a nossa sede de resistir à angústia de viver ("temos a arte para não morrer da verdade", como pensava Friedrich Nietzsche?)

E eu (o leitor/espectador)?
O que poderei sonhar com estas portas?


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