Morreu o artista plástico Valentim (1950-2014) Um pincel marcado de memórias da tradição

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Na quinta-feira (17 de Abril) morreu o artista plástico Fernando Caterça Valentim. Sobejamente conhecido como Valetim, reconhecido na Europa e na África como um mestre cujo pincel reúne finas linhas.

Valentim na Humbi Humbi diante de um dos seus quadros

Nasceu a 5 de Maio de 1950 na região da Gabela, Kwanza-Sul. Pintor autodidacta, é membro da União dos Artistas Plásticos desde 1977, e é igualmente membro da Sociedade Portuguesa de Direitos de Autor. Foi aluno do pintor angolano Lusolano João de Deus.  
Em Julho de 1994, Valentim é o vencedor do grande prémio Presidente da República do Congo, na V Bienal de Arte Bantu Contemporânea, realizada em Brazzaville e promovida pelo CICIBA, com a sua obra “A Aurora”.
Multifacetado, o pintor frequentou também o curso de pintura de azulejos, na escola Inatel, nos anos de 97-98. A exposição “O Paraíso das Pérolas”, dedicada aos azulejos, desenhos e à pintura de Valentim, foi um êxito em Portugal, no Lagar do Azeite em 1998. As suas obras mais emblemáticas e de maior expressão mediática são “Lágrimas da Negra” e “O Sol Negro”. A primeira foi doada à galeria de pintura Naif Podgorica – ex-Titorgad – e representou Angola na Exposição de Arte dos Países Não Alinhados, no Cairo, Egipto. A famosa pintura “O Sol Negro” encontra-se no Museu da Torre Nabemba, em Brazzaville, na República do Congo. A sensibilidade artística conduziu-o à publicação do livro de poemas “Sentimentos” em 1993.
Em 1997, o investigador e professor universitário Alfredo Margarido disse, ao fazer uma análise de uma das exposições do autor em Portugal, que “ …se partirmos do princípio de que o artista possui uma evidente força taumatúrgica, podemos então compreender que a força que o põe em movimento depende de uma relação íntima, tensa e constante entre o imaginário individual e as pulsões colectivas. Como se o artista fosse uma condensação dos projectos do seu grupo.” Ana Maria Mão-de-Ferro Martinho, num artigo intitulado “A ARTE DE VALENTIM: TRADIÇÃO AFRICANA E ACTUALIDADE PLÁSTICA”, escreve: “A africanidade estética notória nas obras de Valentim assume duas vertentes distintas, que coincidem com a opção intermitente pela cor ou pelo preto e branco. No primeiro caso, a intensidade e luminosidade alcançadas, sem que as cores se revelem fotográficas ou excessivamente realistas, traduzem a preferência pela reposição de memórias e paisagens marcadas pela tradição. Pesquisam, por isso, a coerência de caracteres étnicos através de tipologias figurativas, os títulos atribuídos às diferentes obras (e que podem citar-se como exemplos: Camponês, A Mãe, A Anciã, Nómadas, Saudade, Despertar), confirmam a visão de mundos que evoluem, marcados pela relação estreita entre o passado e o presente, a complexidade e a interrogação, traços tanto mais sintomáticos quando nos referimos a África”.

As últimas palavras do mestre ao Jornal Cultura

Katiana Silva

Em Dezembro de 2013 o artista recebeu em sua casa uma equipa de reportagem deste quinzenário, que por pura razão editorial só agora servimos ao leitor, já sumariamente refeita.  
Valentim contou-nos que passou muitas dificuldades na sua infância: cresceu sem os pais. Antes de se tornar um artista plástico queria ser jogador de futebol, mas não conseguiu. O artista contou que sabia perfeitamente o dia em que o seu interesse pela pintura ganhou vida. “Foi nas décadas de 60 e 70 quando encontrei um empregado de balcão a fazer uma caricatura com lápis de cor. Essa imagem ficou gravada na minha memória. Quando fui admitido em1975 no Comissariado Provincial de Luanda, passei a pintar cavalos e flores que vendia”.

Portugal
“Cada dia da vida do homem é como uma obra de arte, e ele é a peça principal dessa obra”. É a frase de um artista que sempre mostrou sinais que evidenciam a arte na sua vida. Valentim envidou esforços para evoluir como artista plástico renomado internacionalmente quando em 1977 conseguiu ganhar espaço no mercado  português, o que não era comum para um artista angolano pouco conhecido.
Segundo contou Fernando Valentim, foi algo jamais visto, porque, mesmo não conhecendo as suas obras, os portugueses aceitavam-nas com muita facilidade. Era um estilo novo que os portugueses desconheciam e passaram a gostar.
Almejando por mais, o artista não parou por aí. O dinamismo e a persistência de Valentim fizeram dele o tipo de pessoa que nunca deixa de correr atrás dos seus sonhos.
Relembrou que o grande arranque na  sua vida artística dá-se depois do contacto com o artista plástico Lusolano, já falecido, de quem foi aluno durante quatro anos. “Estávamos para levar uma exposição conjunta à Nigéria, quando o grande mestre Lusolano morre. Mas as suas técnicas ficaram”, conta.
De regresso a Angola, Fernando Valentim dava os seus quadros em troca de tintas, pincéis e telas. Voltou a frequentar a UNAP e a nova galeria Humbi Humbi, bastante frequentada por artistas plásticos de diversas gerações.

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