"Muitas vezes o ideal e o real não conciliam"

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Emílio Lucombo é um dos rostos do novo teatro em Angola. Pela sua disciplina em palco, pela leveza e controle da sua movimentação em cena, pelo seu àvontade que em momento nenhum pode ser confundido como distracção, provoca sempre um gozo vê-lo actuar.

Não é por acaso que está novamente de malas feitas para Portugal, Brasil e São Tomé, onde actuará em "As Orações de Mansata", uma co-produção entre a Cena Lusófona, a Companhia de Teatro de Braga e o Teatro Vila Velha do Brasil, no âmbito da quarta edição do projecto PSTAGE ­ Estágio Internacional de Actores.

O elenco ficou três meses em Portugal e um mês em São Tomé. Começa a preparação em São Tomé. A peça foi escrita por um africano (o guineense Abdulai Sila), motivo que levou o director a preferir trabalhar em África, também para fazer os actores de Portugal e Brasil absorver mais a cosmologia africana e melhor encarnarem os seus personagens.

Já aconteceram dez apresentações em Coimbra, quatro em Braga, duas em Évora e uma em Montemor. Emílio volta para concluir a segunda fase das apresentações, iniciada no dia três de Março quando a peça foi transportada para o Brasil, volta a Portugal por duas semanas, passa por Guiné-bissau e chega a Angola em Maio, altura em que poderemos assistir ao espectáculo no Festival Elinga-Teatro. Emílio cumpre esta façanha juntamente com Marleny Musa, atriz do Horizonte Njinga Mbande.

Foi numa tarde de um dia Janeiro que nos encontramos no Elinga-Teatro. Pontual, fazia trinta minutos que nos esperava. A abrir a conversa, de imediato questionamos o que fica de Portugal e dessa experiência. Receptivo, reportou: "A primeira coisa que fica de Portugal é a saudade. Voltamos já no final de Fevereiro. Não constituiu muita novidade aquilo que nós aprendemos. Nós já fazemos aqui, só que não levamos muito a sério".

Emílio é um dos rostos do corpus do novo teatro, por isso quisemos saber as suas preocupações a respeito. Dele ouvimos que o novo teatro lusófono está no bom caminho, mas, tanto em Angola como em São Tomé, a recorrente "queixa" da falta de salas ainda impõe muitos questionamentos sobre o que realmente se pretende fazer, embora reconheça haver um certo avanço da parte de Angola.

De modo geral, constata que a África começa a atrair a atenção artística da cena Brasileira e Portuguesa, pelas suas histórias e novidades de criação, o que leva a precisar os novos tempos como "tempos de abertura entre o teatro e a África".

Ser actor
Decididamente, a sua imersão nas artes cénicas data da primeira peça em que actua, "A Herança", em 2007, pelo Horizonte Njinga Mbande. Foi a partir daí que definiu o rumo a tomar. Um pouco antes tinha dúvidas entre a dança e o teatro. O dilema se impôs quando sai de uma formação com duas propostas em mão: ir a Espanha com o grupo de dança Minessa ou actuar numa estreia.
Sentia-se dividido. Mas o teatro falou mais forte. Inicialmente, justificou a escolha por ter dado muito para aquele espectáculo acontecer. Sentia que se não fizesse aquele espectáculo não ficaria bem consigo mesmo.

Antes de entrar no palco chorou muito. "Boa merda", disseram-lhe. Foi pela primeira vez que ouve esta expressão do teatro. Ninguém se apercebia das razões dos seus soluços. Era algo muito interno. Golpe de sorte ou destino, Emílio vira que tinha escolhido o melhor para ele. E era isso que interiorizava naqueles instantes.

Depois foi pedir à família que compreendesse que queria ser actor a tempo inteiro. Não foi muito difícil aceitarem porque já fazia teatro na igreja. Sempre foi muito próximo das artes cénicas. Era facilmente escalado para fazer actuações nas festas de Natal, Páscoa, Dia da Juventude, Ano Novo... Essa definição de actor foi se ajustando ao longo dos tempos. No início, foi sempre uma maravilha. A par do convívio com muitos actores veteranos, foi se descobrindo entre as formações em Angola e Brasil.

O Brasil se abriu para ele ao ganhar a oportunidade de fazer o teste na Malhação. Do sucedido, conta que foram convidados a participar num festival de teatro em Piauí, Brasil, onde durante o festival manteve laços com uma das responsáveis. A brasileira chega a admirar o seu trabalho e personalidade e toma a liberdade de endereçar uma carta ao programa Caldeirão do Huck a levantar a possibilidade do actor angolano tentar alguma coisa no Projac. Lembra que foi no dia 16 de Dezembro de 2009, um dia antes de ter pisado as terras do samba. Ficou todo o dia a trabalhar com a equipa de selecção, aprendendo o que é fazer teledramaturgia. Assim, reforçou a leitura devido à dicção, preocupou-se ainda mais em definir técnicas de expressão corporal que o ajudassem em cena e se abriu para a formação.

Apesar de não ter dado certo, sai daí mais explícito e mais humilde. Percebe o teatro como um encontro sincero consigo mesmo, ao contrário dos períodos em que chegava a se achar "a estrela", sem sequer gostar de ouvir isto ou aquilo de alguém mais experiente. Mas a experiência entre o homem e o actor veio mostrar que é preciso sempre saber aprender, e talvez isso seja a primeira lição e uma das mais fundamentais no percurso da vida de um artista que se propõe aberto ao mundo da criação. Assim, percebeu que era preciso mudar radicalmente: "ser humilde, mas ter coragem de dizer não às coisas que não convém. O que acho é que tem de haver responsabilidade e disciplina da parte dos artistas ao se afirmarem como tal", define.

Tem noção do trajecto por desbravar, e por isso reconhece esta entrega sincera que faz com que as pessoas dêem alguma atenção ao seu trabalho. Muito pessoal, não assiste aos seus espectáculos. Nem teatro, nem filme. É aquela coisa de ser muito auto-crítico, o que reconhece que também é mau: "Muitas vezes o real e o ideal do que faço não conciliam", justifica.
Sabe que o Marado Teatro é uma escola boa. Viu pela primeira vez no Brasil e achou interessante o teatro de rua. Entra nessa empreitada com o Mara, seu companheiro de conversa, de palco e de ideias.

• Merda: palavra vulgarmente empregue para que tudo corra bem na estreia. Segundo a tradição teatral, desejar boa sorte para a estreia é sinal de azar.

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