Música Infantil: O mercado está cada vez mais mercantilizado e insensível

Envie este artigo por email

Segundo Mister Robson, as "Crianças angolanas estão a crescer sem identidade musical"

As  décadas de 80 e 90 foram marcantes para a música infantil angolana com o surgimento de vários cantores que hoje são referência no mercado musical nacional. Infelizmente, a produção de música e a realização de festivais infantis decaiu devido à falta de interesse, patrocínios e políticas de Estado que promovam este segmento musical importante para o crescimento da criança.

Pioneira na produção e promoção da música infantil e de outras atividades lúdicas para as crianças, a Rádio Nacional de Angola (RNA) realizou o primeiro festival de música infantil no dia 1de Junho de 1983, no auditório Rui de Carvalho.

A partir desta data, a RNA tinha assumido a missão de resgatar os valores morais e culturais na criança e colocá-las em diversão nos seus tempos livres.

Jornalista da Rádio Luanda e realizador de programas infantis há 20 anos, Joaquim Freitas, ou simplesmente Tio Quim, explicou ao Jornal de Angola que, na década de 80, as crianças tinham vários espaços para exibirem o seu talento. "Tínhamos a Sala Pió, que era um local onde as crianças aprendiam a cantar e a dançar", disse Tio Kim.

Nesse espaço, além de aprenderem a cantar e a dançar, as crianças tinham ainda explicação escolar e ouviam o Programa Rádio Pió, emitido de manhã e à tarde, produzido e dirigido essencialmente para os mais pequenos.

Outros espaços que apelavam à criatividade das crianças foram o programa infantil "O Sol" e os espetáculos de rua denominados "Pió-pió", organizados por Ladislau Silva, Laurinda Santos, Cristina Caetano e uma grande equipa de apoio.

A RNA até 1998, disse Tio Quim, gravava regularmente em todos os meses de Junho de cada ano, entre 10 a 15 músicas infantis. Mas com a chamada era da globalização e as mudanças políticas e económicas que o país registou, acrescentou, perdeu-se muito o afeto e o incentivo a criatividade das crianças.

Além da RNA, a Televisão Pública de Angola (TPA) também procurava dar a criança o espaço que ela merece, por esta razão, havia o programa infantil "Carrossel" que era emitido durante uma e que dava a criança a oportunidade de interpretar as suas próprias canções ou imitar outros cantores infantis.

A era da decadência

Para o músico Juseca de Brito, a década de 80 será sempre recordada como aquela onde houve a maior divulgação da música infantil no país e que viu surgir músicos que hoje são referência no music hall nacional, nomeadamente, Manborró, Lucas de Brito "Maya Cool", Ângelo Boss, Gingas do Maculusso, Alberto de matos, Yuri da Cunha, entre outros.

Juseca de Brito considera que estes músicos pertencem à primeira geração de cantores infantis que embelezaram a "Sala Pió" e os festivais "1 de Junho" com músicas que retratavam a beleza da natureza, o gosto pelos estudos e o respeito pelos mais velhos.

Hoje ligado a outras atividades que não a música, Juseca de Brito disse que música infantil, à semelhança da moda e das tecnologias, devia ter evoluído acompanhando a dinâmica do mundo. "Mas, infelizmente, a nossa música infantil sofreu uma decadência", frisou Juseca de Brito, acrescentando que os músicos infantis da geração de 80 e 90 atingiram a fase adulta, mas não surgiu quem pudesse continuar o trabalho deixado por eles. "A música infantil morreu, o espetáculo de rua pió-pió e a Sala Pió desapareceram. Os festivais organizados nos dias 1 de Junho e 1 de Dezembro já não são feitos com regularidade", disse Juseca de Brito, para quem os programas infantis na rádio e na televisão entraram num absentismo total e as pessoas que trabalhavam para as crianças saíram do país.

"Dos poucos que ficaram, alguns cantam para adultos, outros cantam para crianças mais de forma tímida, e alguns infelizmente estão a trabalhar em outras áreas mais rentáveis", disse.

Tio Kim, por seu lado, lamenta o facto de a rádio e a televisão terem reduzido as horas de emissão dos programas infantis e a falta de espaços nos jornais. Esse facto, acrescentou, leva a criança a optar por canais internacionais que nada têm a ver com a cultura angolana.

"Estes canais não transmitem o nosso padrão cultural, por isso é que hoje as crianças respondem mal aos mais velhos, vestem mal, falam e escrevem mal porque consomem todo o tipo de informação fora da idade dela", acentuou o tio Quim.

O compositor de músicas infantis, Fernando Belo Nogueira, defende que é responsabilidade de toda a sociedade, principalmente daquelas pessoas com meios materiais financeiros, resgatar e promover o interesse da criança em cantar ou realizar qualquer outra atividade infantil salutar.

Fernando Belo Nogueira, que é igualmente diretor de coordenação de emissão da RNA, considera que a baixa produção de músicas infantis se deve à falta de interesse das pessoas mais adultas. "Por trás de uma criança deve estar sempre um adulto, porque se assim não for, facilmente se perdem", disse.

A imprensa, defende, devia continuar a dar à criança o espaço que merece para divulgar as suas atividades. "Hoje, os programas infantis, tanto nas rádios como na televisão, têm a duração de apenas 30 minutos e uma vez ao dia no período da manhã", disse.

Para Alice Berenguel, apresentadora e organizadora de atividades infantis, defende que a época do mono-partidarismo foi uma época bem organizada para as crianças, porque os adultos de facto eram menos ocupados do que agora.

Os cantores infantis, acrescenta, tinham letras muito animadas e bem direcionados para aquilo que eram as brincadeiras de crianças e adolescentes e os mais velhos gostavam muito das músicas infantis.

"Com a entrada da democracia ou multipartidarismo, o que nós ganhávamos já não chegava, o sistema nos obrigava a procurar melhores condições de vida, logo era muito difícil conciliar o nossos empregos quer fossem estatais ou privados com as atividades infantis que gostávamos de realizar na RNA e na TPA, e os festivais de 1 de Junho e 1 de Dezembro", acrescentou Alice Berenguel.

Fernando Nogueira reconhece haver falta de orientação nas letras das músicas infantis. Segundo ele, para que haja letras músicas infantis com qualidade se torna necessário e urgente que os cantores consagrados ajudem as crianças na composição das suas músicas. "Eu componho algumas letras e entrego às crianças para interpretarem, tenho cerca de 20 músicas gravadas, que já têm estado a tocar nos poucos programas infantis existentes", disse. Dificuldades de gravação

Tio Kim disse que, todos os anos, tem encontrado dificuldades para lançar a coletânea de músicas infantis intitulado Ndenguelândia, composto por 18 ou 20, entre antigas e novas faixas.
O projeto Ndenguelândia, cuja edição número seis foi lançada em 2011, permite, explicou tio Kim, descobrir novos talentos. "Foi assim que se descobriu cantores infantis como a Lavínia Kifem, Mister Robson, Sónia António, Palhaço Santolas, Elsa Gonçalves, Georgina Costa, entre outros que têm estado a fazer muito sucesso", disse.

Tio Kim realçou que atualmente já existem muitos músicos infantis, na medida em que todos os anos surgem entre 10 a 15 cantores infantis, mas, infelizmente tem faltado a realização de festivais regulares e um prémio de música infantil para suscitar o interesse de crianças que gostam de cantar.

Alice Berenguel também é da mesma opinião. Para ela, os adultos precisam acompanhar as crianças que gostam de cantar para se evitar que apareçam músicas com letras obscenas ou os bifes entres os meninos como se diz na atualidade, os meninos precisam de orientação na melodia, letra e na qualidade da voz.

Alice Berenguel reconhece que, em muitos casos, existem crianças com boa voz, mas por falta de orientação de pessoas entendidas na matéria, acabam por interpretar músicas sem qualidade.

"O mercado está a ficar, cada vez mais, comercial e muito insensível para com atividades infantis, então as crianças gravam em qualquer estúdio de bairro músicas sem qualidade", disse.

Por seu turno, tio Kim defende que a questão da composição das letras de música infantil, deve ser analisada por vários organismos, desde os pais, o ministério da Cultura e os empresários. "A música infantil é um processo pedagógico, que quando bem feito, a mensagem chega até a criança e a instrui", disse, dando o exemplo de uma letra que compôs intitulada "Já descobrimos quem deita lixo na estrada", interpretada pelo cantor infantil Mister Robson."Com esta música, muita gente que vive nos prédios e deitava lixo nas escadas ficou sensibilizada e deixaram de fazer isso. Logo, é importante que haja espaço para a música infantil, tanto nas rádios como na televisão, porque as crianças angolanas estão a crescer sem identidade musical", explicou.

Para por cobro a esta situação, tio Kim pede as entidades de direito que olhem mais para o processo de aprendizagem da criança. "Os ministérios da Cultura, da Educação e a Organização do Pioneiro Angolano (OPA) podem, de forma regular, realizar uma vez por ano um grande festival envolvendo crianças das 18 províncias do país, isso vai ser muito bom para as nossas crianças".

Altos custos

A produção de uma boa obra discográfica infantil num estúdio sério requer um alto investimento, porque, segundo Tio Kim, é igual à de um disco de um cantor consagrado. "A produção de um disco requer a elaboração das melodias, introdução da guitarra, do teclado, das tumbas, os coros, edição da capa e as sincronias que, feitas num estúdio sério, podem ficar na ordem dos 15 mil dólares, isto só para produzir cinco mil cópias", disse.

Para Alice Berenguel, a realidade não foge à regra pois, nos dias de hoje, preparar bem a voz de uma criança para cantar tem custos altos. "Acho que sou a única pessoa que diz aos pais para pagarem o que podem para se dar orientação musical ao seu filho, aí os pais dão o que têm e nós procuramos patrocínio para editar o disco", disse. Alice Berenguel explica que, devido aos elevados custos com a produção de um disco, tem optado por editar um número reduzido de exemplares, na medida em que os lucros das vendas são repartidos com a produtora.

"Lançar um disco infantil tem muitos custos", frisou Alice Berenguel, lamentando a falta de sensibilidade dos empresários em patrocinar obras infantis, preferindo sempre patrocinar discos para adultos por causa dos ganhos rápidos e avultados. "Esquecem-se que existe muita gente à procura de música infantil para tocar nas festas infantis que os seus próprios filhos têm frequentado e acima de tudo esquecem-se que algum dia foram crianças."

A voz dos produtores

Argílio Silva, responsável da LS Produções, disse que aquela produtora não produz especificamente obras infantis, por não ter ainda no país uma estrutura para fazer um trabalho especificamente para crianças, por serem mais sensíveis e exigirem mais dedicação.

Apesar disso, explicou, a LS produções apoiou a edição de um livro infantil com o título "Cassinda, o cão que não tem dono" e a edição dos discos "Conchinhas do Mar". Argílio Silva defende que deve existir um mercado onde a música infantil é consumida de facto e as atividades infantis deviam ser mais rentáveis. Para isso, acrescenta, é necessário que os pais sejam mais sensíveis para adquirir discos, livros ou levar os filhos a passear, tendo em conta que os meninos dependem totalmente dos adultos para terem alguma coisa.

De acordo com Argilio Silva, a LS produções não produz diretamente discos infantis, na medida em que quem canta para crianças tem que saber que existem características próprias para a produção de músicas infantis. "Nem todo o produtor
sabe produzir música infantil, pois existem toques específicos que devem ser respeitados por se tratar de crianças", disse.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos