Música Infantil: O mercado está cada vez mais mercantilizado e insensível

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Segundo Mister Robson, as "Crianças angolanas estão a crescer sem identidade musical"

"A música infantil morreu, o espetáculo de rua pió-pió e a Sala Pió desapareceram. Os festivais organizados nos dias 1 de Junho e 1 de Dezembro já não são feitos com regularidade", disse Juseca de Brito, para quem os programas infantis na rádio e na televisão entraram num absentismo total e as pessoas que trabalhavam para as crianças saíram do país.

"Dos poucos que ficaram, alguns cantam para adultos, outros cantam para crianças mais de forma tímida, e alguns infelizmente estão a trabalhar em outras áreas mais rentáveis", disse.

Tio Kim, por seu lado, lamenta o facto de a rádio e a televisão terem reduzido as horas de emissão dos programas infantis e a falta de espaços nos jornais. Esse facto, acrescentou, leva a criança a optar por canais internacionais que nada têm a ver com a cultura angolana.

"Estes canais não transmitem o nosso padrão cultural, por isso é que hoje as crianças respondem mal aos mais velhos, vestem mal, falam e escrevem mal porque consomem todo o tipo de informação fora da idade dela", acentuou o tio Quim.

O compositor de músicas infantis, Fernando Belo Nogueira, defende que é responsabilidade de toda a sociedade, principalmente daquelas pessoas com meios materiais financeiros, resgatar e promover o interesse da criança em cantar ou realizar qualquer outra atividade infantil salutar.

Fernando Belo Nogueira, que é igualmente diretor de coordenação de emissão da RNA, considera que a baixa produção de músicas infantis se deve à falta de interesse das pessoas mais adultas. "Por trás de uma criança deve estar sempre um adulto, porque se assim não for, facilmente se perdem", disse.

A imprensa, defende, devia continuar a dar à criança o espaço que merece para divulgar as suas atividades. "Hoje, os programas infantis, tanto nas rádios como na televisão, têm a duração de apenas 30 minutos e uma vez ao dia no período da manhã", disse.

Para Alice Berenguel, apresentadora e organizadora de atividades infantis, defende que a época do mono-partidarismo foi uma época bem organizada para as crianças, porque os adultos de facto eram menos ocupados do que agora.

Os cantores infantis, acrescenta, tinham letras muito animadas e bem direcionados para aquilo que eram as brincadeiras de crianças e adolescentes e os mais velhos gostavam muito das músicas infantis.

"Com a entrada da democracia ou multipartidarismo, o que nós ganhávamos já não chegava, o sistema nos obrigava a procurar melhores condições de vida, logo era muito difícil conciliar o nossos empregos quer fossem estatais ou privados com as atividades infantis que gostávamos de realizar na RNA e na TPA, e os festivais de 1 de Junho e 1 de Dezembro", acrescentou Alice Berenguel.

Fernando Nogueira reconhece haver falta de orientação nas letras das músicas infantis. Segundo ele, para que haja letras músicas infantis com qualidade se torna necessário e urgente que os cantores consagrados ajudem as crianças na composição das suas músicas. "Eu componho algumas letras e entrego às crianças para interpretarem, tenho cerca de 20 músicas gravadas, que já têm estado a tocar nos poucos programas infantis existentes", disse.

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