Música Infantil: O mercado está cada vez mais mercantilizado e insensível

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Segundo Mister Robson, as "Crianças angolanas estão a crescer sem identidade musical"

Dificuldades de gravação

Tio Kim disse que, todos os anos, tem encontrado dificuldades para lançar a coletânea de músicas infantis intitulado Ndenguelândia, composto por 18 ou 20, entre antigas e novas faixas.
O projeto Ndenguelândia, cuja edição número seis foi lançada em 2011, permite, explicou tio Kim, descobrir novos talentos. "Foi assim que se descobriu cantores infantis como a Lavínia Kifem, Mister Robson, Sónia António, Palhaço Santolas, Elsa Gonçalves, Georgina Costa, entre outros que têm estado a fazer muito sucesso", disse.

Tio Kim realçou que atualmente já existem muitos músicos infantis, na medida em que todos os anos surgem entre 10 a 15 cantores infantis, mas, infelizmente tem faltado a realização de festivais regulares e um prémio de música infantil para suscitar o interesse de crianças que gostam de cantar.

Alice Berenguel também é da mesma opinião. Para ela, os adultos precisam acompanhar as crianças que gostam de cantar para se evitar que apareçam músicas com letras obscenas ou os bifes entres os meninos como se diz na atualidade, os meninos precisam de orientação na melodia, letra e na qualidade da voz.

Alice Berenguel reconhece que, em muitos casos, existem crianças com boa voz, mas por falta de orientação de pessoas entendidas na matéria, acabam por interpretar músicas sem qualidade.

"O mercado está a ficar, cada vez mais, comercial e muito insensível para com atividades infantis, então as crianças gravam em qualquer estúdio de bairro músicas sem qualidade", disse.

Por seu turno, tio Kim defende que a questão da composição das letras de música infantil, deve ser analisada por vários organismos, desde os pais, o ministério da Cultura e os empresários. "A música infantil é um processo pedagógico, que quando bem feito, a mensagem chega até a criança e a instrui", disse, dando o exemplo de uma letra que compôs intitulada "Já descobrimos quem deita lixo na estrada", interpretada pelo cantor infantil Mister Robson."Com esta música, muita gente que vive nos prédios e deitava lixo nas escadas ficou sensibilizada e deixaram de fazer isso. Logo, é importante que haja espaço para a música infantil, tanto nas rádios como na televisão, porque as crianças angolanas estão a crescer sem identidade musical", explicou.

Para por cobro a esta situação, tio Kim pede as entidades de direito que olhem mais para o processo de aprendizagem da criança. "Os ministérios da Cultura, da Educação e a Organização do Pioneiro Angolano (OPA) podem, de forma regular, realizar uma vez por ano um grande festival envolvendo crianças das 18 províncias do país, isso vai ser muito bom para as nossas crianças".

Altos custos

A produção de uma boa obra discográfica infantil num estúdio sério requer um alto investimento, porque, segundo Tio Kim, é igual à de um disco de um cantor consagrado. "A produção de um disco requer a elaboração das melodias, introdução da guitarra, do teclado, das tumbas, os coros, edição da capa e as sincronias que, feitas num estúdio sério, podem ficar na ordem dos 15 mil dólares, isto só para produzir cinco mil cópias", disse.

Para Alice Berenguel, a realidade não foge à regra pois, nos dias de hoje, preparar bem a voz de uma criança para cantar tem custos altos. "Acho que sou a única pessoa que diz aos pais para pagarem o que podem para se dar orientação musical ao seu filho, aí os pais dão o que têm e nós procuramos patrocínio para editar o disco", disse. Alice Berenguel explica que, devido aos elevados custos com a produção de um disco, tem optado por editar um número reduzido de exemplares, na medida em que os lucros das vendas são repartidos com a produtora.

"Lançar um disco infantil tem muitos custos", frisou Alice Berenguel, lamentando a falta de sensibilidade dos empresários em patrocinar obras infantis, preferindo sempre patrocinar discos para adultos por causa dos ganhos rápidos e avultados. "Esquecem-se que existe muita gente à procura de música infantil para tocar nas festas infantis que os seus próprios filhos têm frequentado e acima de tudo esquecem-se que algum dia foram crianças."

A voz dos produtores

Argílio Silva, responsável da LS Produções, disse que aquela produtora não produz especificamente obras infantis, por não ter ainda no país uma estrutura para fazer um trabalho especificamente para crianças, por serem mais sensíveis e exigirem mais dedicação.

Apesar disso, explicou, a LS produções apoiou a edição de um livro infantil com o título "Cassinda, o cão que não tem dono" e a edição dos discos "Conchinhas do Mar". Argílio Silva defende que deve existir um mercado onde a música infantil é consumida de facto e as atividades infantis deviam ser mais rentáveis. Para isso, acrescenta, é necessário que os pais sejam mais sensíveis para adquirir discos, livros ou levar os filhos a passear, tendo em conta que os meninos dependem totalmente dos adultos para terem alguma coisa.

De acordo com Argilio Silva, a LS produções não produz diretamente discos infantis, na medida em que quem canta para crianças tem que saber que existem características próprias para a produção de músicas infantis. "Nem todo o produtor
sabe produzir música infantil, pois existem toques específicos que devem ser respeitados por se tratar de crianças", disse.

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