Nagrelha: Estado maior do kuduro continua no Baião

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É atualmente um dos maiores nomes do estilo kuduro.

Tem no registo o nome de Gelson Caio Manuel Mendes e, nos palcos, Na grelha. Integrante do grupo os "Lambas", muitas vezes aparece como líder deste, embora na entrevista que nos concedeu em casa, sita na rua do Baião, distrito do Sambizanga, pretender apenas falar de si. A letra "Comboio", música do primeiro CD do grupo a que pertence e escrito por ele é uma das suas maiores motivações para num futuro breve retratar a sua vida numa obra literária.

Difícil foi sentar com Nagrelha. Pois só através de Kanguimbo Ananás, a quem chama de mãe, foi então possível a conversa. Foram precisas quatro horas de espera, num sol ardente entre risadas sobre histórias do mundo do Kuduro. "Na grelha é humano", dizia o kudurista Da Beleza, amigo do cantor que na ocasião se encontrava no local. O tempo passava e outros músicos chegavam à residência de Nagrelha: 100 Maneira, Chá Preto, Trator, Mago, Weza (das fuguentas) só para citar os que são das lides do músico.

"Esta sempre foi a nossa casa", disse um dos músicos. Depois de longa espera, surge Nagrelha, extrovertido e sério, convidando-nos a comer macaiabo, seu prato preferido. "A conversa é Nagrelha ou os Lambas?", perguntou o músico aos repórteres, tendo de seguida advertido que só falaria sobre o grupo na presença dos outros elementos. "Os Lambas é um grupo composto por bailarinos e outros vocalistas", advertiu o músico, que no mesmo instante pediu para um dos presentes chamar Bruno King, outro vocalista do grupo.

Este acabou por não comparecer, por não se encontrar no bairro. Na grelha, para além de cantar e encantar, também aprecia letras de outros artistas. E foi na música de David Zé, reproduzida pelo irmão Gabi Moi "Eu tenho uma vizinha, mas não digo o nome dela. Eu tenho uma vizinha, mas não digo o nome dela. Saiu da sua casa e foi viver com o namorado. Quando chegou em casa, a mãe dela perguntou: minha ilha onde é que estavas e ela não soube responder.

A mãe foi trabalhar e ela pôs-se a chorar, a mãe foi trabalhar ela pôs-se a chorar" e "Menina quando queres de mim é melhor dizer sim" de Man Ré, que o músico se inspirou. "Na altura, estas músicas inspiravam-me e davam-me energia. Sentia que era um homem batalhador, e estas canções punham-me a refletir no futuro", disse, ao interpretar as músicas com bastante satisfação.

O início da carreira de Na grelha assemelha-se ao de outros músicos do estilo kuduro. Começou também pelo Rapp, isto em 1997, no bairro do Sambizanga, onde nasceu e vive. Mais foi no kuduro que viu a sua sorte tornar-se realidade, logo na saída do primeiro disco do grupo, Os Lambas, com o título "Os demónios do Sambizanga".

Desde então, o seu nome é sempre citado quando se fala do kuduro, a nível nacional ou internacional. "Como rapper eu cantava somente na rua e de brincadeira. Já o estilo kuduro foi profissional e permitiu que me tornasse na pessoa que sou hoje", disse. O look de cabelo loiro que usa, acrescentado à sua irreverência na forma de estar, fez de Na grelha uma referência nas lides dos kuduristas, acrescentando a isso o próprio sacrifício, que permitiu manter o nome até aos dias de hoje, embora por alguns momentos tenha anunciado publicamente chamar-se Ngongoyove. "Este look veio apenas para legalizar a minha imagem. E como qualquer artista, eu precisava fazer a minha diferença, daí ter optado pelo cabelo loiro".

Vivência no kuduro

Vivência no kuduro Aos 24 anos de idade, Na grelha é dos kuduristas mais polémicos. Depois de ter passado pela Comarca de Viana, acusado de furto e logo depois absolvido por falta de provas, procura a cada dia "emendar-se" do passado. "Nunca sonhei com o que sou hoje e todos os dias me esforço no sentido de melhorar, porque a minha vida e sustento dependem integralmente da música", conta o músico que garante só mudar de estilo se Deus assim permitir.

Como filho de peixe peixinho é, como ele mesmo diz, tem no ilho Mirelson, de cinco anos, um dos continuadores do estilo. Ele considera o seu "candengue" como irmão menor e outros integrantes do grupo Os Lamba também o tratam por filho.

Nagrelha considera os "biffs" (insultos) como luta pela sobrevivência. Para ele, este tipo de atos pode continuar, mas nas letras, sem contudo originar lutas ísicas como se verifica. "Os músicos deveriam estar unidos e a par e passo um do outro. Procurar saber o que o outro precisa na carreira, reciprocamente", disse Nagrelha que considera a sua relação com os outros cantores de saudável. "Tenho muitos amigos e um deles é o Da Beleza que é do Cazenga e hoje está aqui comigo, como podem ver", assegurou.  

Kandengue

A sua infância foi como a de qualquer outra criança. Família humilde e com várias paixões. O desporto era uma das muitas que tinha. E tem o basquete que ainda pratica, na ruela do baião num campo improvisado, apenas com uma tabela, de quando em vez, como a sua maior atracão no desporto. Mas foi no futebol onde emprestou o seu talento integral ainda criança. O que lhe permitiu passar pelo Progresso, Flamenguinhos, Anatenos, Ferrovia, Bota Fogo, só para citar alguns clubes. Ele é de uma família bem ligada ao desporto.

É sobrinho do falecido Praia, que foi um médio central do Progresso Associação do Sam bizanga e da seleção nacional.
Na grelha despiu-se do barrismo e disse, sem gaguejar, que é adepto do Petro de Luanda. E nos tempos livres procura estar com os amigos do bairro. Pratica também artes marciais.

"A arte é cultura e fui ensinado que não devo me expor lutando. Embora que treinamos para nos defender de possíveis ataques, procuramos não desenvolver estas técnicas sem qualquer necessidade", explicou.
Estado Maior A relação e a união que existe no grupo Os Lambas é uma marca registada. Na grelha revelou que o Estado Maior vai continuar até 2030 a impulsionar outros artistas. "Hoje somos jovens e daqui a 20 anos estamos kotas. Não podemos dizer que somos eternos, mas com o nosso saber vamos procurar passar a nossa experiência", disse anunciando para dentro de dois meses o lançamento do próximo disco dos Lambas.

Fax

Fax é o primeiro nome adaptado por Nagrelha em 1997, no início da sua carreira artística. Na altura Na grelha cantava rapper com o irmão mais velho "Mago". Conta que nesta fase era o irmão que fazia os bits e ele punha voz na música. "Na altura cantávamos na rua. Ele tocava e eu cantava e não era ainda sério, apesar de muito querer aparecer como músico", frisou.  

Kanguimbo Ananás

Em 2010, Na grelha enfrentava um processo justicial. Nesta altura, a sua falecida mãe, Maria Caio, recorreu à socióloga Kanguimbo Ananás para que ajudasse na solução do caso. Desde então, Kanguimbo passou a ser madrinha de Na grelha e do grupo em particular. Após a morte da mãe, a atenção da socióloga estendeu-se também aos irmãos e outros músicos do bairro do Sambizanga. A intenção, disse o músico, é que a socióloga preste assistência a todos os kuduristas do país, até porque "os bons ou maus jovens não residem apenas no Sambizanga".

Com a vinda de Kanguimbo Ananás, apesar da tristeza que carrega pela perda da mãe, sente-se com mais motivação na vida. "A escritora não é só mãe do Na grelha, quem resolvia os problemas dos grupos no Sambizanga era a minha mãe biológica e felizmente que ela deixou alguém que cuida de nós", disse alegre.

Dentro

Gelson Caio Manuel Mendes, mas conhecido por Nagrelha, nasceu em 24 de Março de 1988. Começou a cantar em 1997, no bairro do Sambizanga, onde nasceu e reside até a data presente. Faz parte do movimento de explosão do estilo musical kuduro e pertence ao grupo com maior popularidade "Os Lambas", fundado no mesmo bairro, por Amizade, já falecido. Participou em várias tournées nacionais e internacionais. É solteiro e pai de um filho.

Tem como sonho ser administrador do Sambizanga e ajudar no seu desenvolvimento. Nunca pensou viver fora de Angola, embora tenha gostos em conhecer outras culturas e povos. "Nasci em Angola e é aqui que devo trabalhar para ajudar o meu país a desenvolver. Não é justo sair de Angola para ir fazer filho em Portugal", rematou.

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