Nelo, Leonel e Vaz: Um encontro entre o semba, a morna e o fado

Envie este artigo por email

Semba, Morna e Fado. O que estes géneros musicais dizem um com o outro? Era a responder este propósito que três profissionais da música se juntaram, o angolano Nelo de Carvalho, o cabo-verdiano Leonel Almeida e o luso angolano João Vaz.

Nelo, Leonel e Vaz: Um encontro entre o semba, a morna e o fado
Nelo de Carvalho Fotografia: Paulino Damião

Os três géneros fizeram fusão nas noites de 16 e 17 de Outubro, animando uma plateia diversa que acorreu à Casa 70. Um dia antes dos espectáculos, encontramo-los durante os ensaios que aconteciam nos estúdios da Rádio Vial, onde fundiam as barreiras conceituais destes géneros nas tardes bem passadas.
Nelo, artista angolano que verga o seu semba com novas melodias e o desafia a fusões, no momento, reconheceu ser uma ligação que por acaso já sabia que podia existir, mas nunca teve a experiência dos três estilos juntos, já que sempre foi apenas com um deles. Visivelmente alegre, procurando sempre que os ritmos se encontrem na perfeição, confirmou haver muitas coisas em comum na raiz das baladas de semba e que esta ligação pode ser flagrada em casos recentes como Waldemar Bastos ou Carlos do Nascimento, possuidores de um timbre e lirismo de gema. Da sua veia, exemplifica: “Se percebermos o meu disco anterior e o próximo a sair, poderão ver que estes três géneros estão lá. Mas penso que uma recolha de sembas à moda antiga pode ser a escolha certa para ajustar esta fusão. Devem ser coisas muito profundas. Aprende-se sempre. Deve-se buscar aquela alma do canto e sua própria tradição”.
Foi a evocar esta alma cantante que o caboverdiano Leonel Almeida acentuou como propósito: “Procuramos uma alma única. As noites da morna são sempre serenas. É sempre uma serenata. É sempre um momento de alma”.
Nestes seus quarenta e dois anos de música, apesar de amar o funaná, o batuque e a coladeira, a morna é o rosto de Cabo-verde que mais chega à sua essência. E é a mesma coisa que acha da relação do semba como identidade musical que este quinhão da África procura exportar.
Contava com dezoito anos quando começa a fazer música de intervenção, agregando á música os gostos pelo desenho e, por puro amor, se experimenta como gastrónomo.
O seu engajamento na música de intervenção surge em reação a um período cuja atmosfera era de incerteza, em que o governo colonial português ensinava e desvirtuava muitas coisas das colonias, como a propagação enganosa de que todos que estavam na luta armada eram terroristas e maus. Mas logo deixou porque compreendera que não nascera para política.
A convite de Luis Morais Chega a integrar o distinto Voz de Cabo-verde e neste grupo aprende muito sobre a música do seu país, uma escola profunda, difusa e disciplinada, surgida nos finais de 60 e extinta no início de 90.
O álbum Ninho Magoado foi o seu disco a solo de acústicos. Foi porque quis mostrar a si mesmo que não são só os discos para dançar que conseguem assumir sucessos. Feito há 18 anos, Ninho Magoado (menino magoado) retrata a dor dos imigrantes que saíram de Cabo Verde à procura de melhores condições. Traduz a dor dos meninos que com dezoito ou dezanove anos atravessavam o mundo magoado com a pobreza e de coração na mão deixavam a família e a sua terra. “Foi por isso que dizíamos: menino magoado, deixem-no chorar. Chegou a hora da partida. E quem ia para o mar podia numa mais voltar para terra nem chegar para o destino”, explica.
A sua outra aparição foi com Serenata di Saudade, um disco que prometeu ao seu amigo que morreu aos quarenta anos. Como não é seu jeito homenagear as pessoas, o músico prometeu diante do túmulo do amigo editar um disco em tributo a todos os músicos falecidos de todo o mundo. Contou com a ajuda de vários amigos, inclusive angolanos. Sempre teve um amor por Angola, tanto que pode se gabar de ter travado pessoalmente com Urbano de castro (que chegou a vê-lo em Benguela), David Zé, Sofia Rosa e, do agora, Carlos Lamartine, Carlos Burity, Yola Semedo, Yuri da Cunha, Matias Damásio.
Conhecido intérprete de fados tradicionais, João Vaz nasceu na Gabela Amboim. Na região das fazendas e da roça. Saiu de lá com 20 anos. Era um homem feito. “Tudo cá dentro é angolano. Fervilha”, desabafa.
O fado surge ainda cá em Angola, lá pelos seus treze anos. Não sabe bem explicar como e porquê por ser sempre um rapaz da roça, do campo. Primeiro teve uma queda “eterna” por Zeca Afonso e depois, com ímpeto, pelo fado. Nunca mais quis saber de nada. E fez da música o seu mundo secreto. Teve como grandes referencias Max e, posteriormente, Carlos do Carmo. Mas ouviu quase toda a gente que cantava bem o fado e aproximou-se a eles. Contudo, nunca achou certo assumir a sua identidade profissional. O fado era uma paixão interior. E o fado sempre foi fundamental como paixão. Sempre se viu desprovido do desejo de correr o mundo como cantor. Nunca teve paixão pela vida artística. A sua paixão era o fado. É um intérprete que canta os clássicos do fado. E canta extactamente os primeiros fados, aqueles que o deslumbraram quando tinha ainda menos de 20 anos. É sempre um recuar sentimental para a memória. “Até porque o fado é uma música harmonicamente básica. Só que é muito rico na maneira se toca e se interpreta. Quem o toca e interpreta é quem realmente lhe dá essa alma”, pontua.
Da intercessão ao semba e à morna, repara que são géneros do povo. “A origem e a base destes géneros está no dito popular: seus mitos, suas histórias reais, seu modo de estar”.
Vê o “MãeVelha”, interpretação de Cesária Évora e letra de Amilcar Cabral, que propõe em estilo de fado, com um exemplo claro desta linha de géneros. De resto, procura cantar clássicos do fado tradicional. Registos que marcaram épocas.
Das mutações do fado, é dos que acreditam não ser certo o fado cantado ser dado como tradicional, sendo que esta definição assenta naqueles que não exigem refrão; sempre igual, repetindo as quadras ou quintilhas.
Do novo, reconheceu que o fado evoluiu muito nestes últimos anos. Contudo, por muito que se possa evoluir, defende que a origem do fado deve ser mostrada, senão deixa de ser fado: “Tudo tem que ter o seu quê. Podem chamar o que quiserem mas o fado é viola e guitarra portuguesa e alma. Porque antes era apenas isso, e só com o passar dos anos é que apareceu o viola-baixa, e agora já se faz com flauta e violino”.
Sempre acarinhou o fado à sua maneira, de sair normalmente e na hora H. Diz ser este é seu meu fado, o seu destino. Saber sair de cá dentro, e nunca sai igual. A base mantém, o tom harmónico do fado é que muda.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos