Neves e Sousa pintor e poeta entre Angola e o Brasil

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A. Neves e Sousa nasceu ocasionalmente em Portugal, filho de pais portugueses em viagem, em 1921, e viveu em Angola até 1975, que só abandonou por força das convulsões político-militares ali eclodidas, para se fixar, com a família, durante 20 anos, em Salvador da Bahía, onde faleceu a 11 de Maio de 1995.

Neves e Sousa pintor e poeta entre Angola e o Brasil
Albano Neves e Sousa

Pintor icónico e poeta bucólico, nem sempre compreendido, é um artista virtualmente bidimensionado na pintura e na poesia, como se explica:”Todas as coisas que não consigo transmitir a pintar, eu transformo-as em poesia. A terra e eu éramos uma só ideia: África de todas as maneiras que sabia e não sabia.” E noutro passo: “Ser africano não é questão de cor/é sentimento, vocação, talvez amor. /Não é questão mesmo de bandeiras/de línguas, de costumes ou maneiras…”
O pintor Neves e Sousa deixou esse testemunho em quadros e murais representados em colecções, galerias e museus de todos os continentes, nomeadamente em Angola, Brasil e Portugal.

Albano Neves e Sousa nasceu ocasionalmente em Matosinhos a 15 de Janeiro de 1921, no decurso de uma viagem em férias de seus pais a Portugal; viveu até 1975 em Angola e morreu a 11 de Maio de 1995 em Salvador da Bahia, onde passou os últimos vinte anos da sua vida, só entrecortada por breves deslocações para satisfazer encomendas, promover exposições e receber homenagens em vários países.
Saiu compulsivamente de Angola em consequência do período de confrontações políticas e militares que precederam a conquista da independência, a que ninguém estava imune. Particularmente sua irmã, também pintora, Teresa Gama (Neves e Sousa), cujos efeitos de violência física desmedida afectaram o resto da sua vida, até à morte, quando o irmão já se encontrava no Brasil.
Em 1975, Neves e Sousa junta tintas, pincéis, alguns dos seus livros de poemas e, acompanhado pela esposa, também angolana, Maria Luísa, ruma ao Brasil, que ele já conhecia de viagens profissionais que realizara na América. A capital bahiana não foi escolhida por acaso. Cidade onde outros angolanos do mesmo período já se tinham radicado, facilitando a adaptação, mas também pelos vestígios de um passado histórico em muitos pontos comum, em que, para um pintor iconográfico, Luanda se repetia nos seus habitantes de todas as cores, nas ruas e praças ainda livres de condomínios, “resorts” e torres de betão desafiando Babel. E, como ele dizia, onde a terra lavrada e as árvores dos jardins tinham o mesmo cheiro da capital angolana.
Ademais, sobrenadando os actos e as sensações, imperava a língua portuguesa temperada pelos sons do povo, como em Angola. O que o poderia ter levado a repetir não só Fernando Pessoa, mas também Caetano Veloso: “A língua é a minha pátria e eu não tenho pátria. Tenho mátria e quero frátria.”
Ele poderia também concordar com outro português de nascença, que conhecera e amara o Brasil de lés a lés, Agostinho da Silva, quando simplificando - ”chama-se Pátria ao lugar em que nascemos” – não elidiria a abrangência de Cícero:”A nossa terra é o sítio onde se está bem.” Como terá sido, porventura, para outro português que vivera durante a adolescência em Minas Gerais, Miguel Torga, que em viagem de saudade declarara, em 1954, numa homenagem prestada em S.Paulo: : “… o Brasil amei-o sempre, foi o meu segundo berço, sinto-o na memória, trago-o no pensamento”. Todavia, podendo aditar o que escrevera depois de calcorrear o mundo lusófono, num poema dedicado ao navegador Fernão de Magalhães:”Ter um destino/ é não caber no berço/onde o corpo nasceu/é transpor as fronteiras/uma a uma/e morrer sem nenhuma.”Ou como prelecionava outro português-brasileiro, o padre António Vieira:”Para nascer, Portugal; para morrer, o mundo.”
O poeta e pintor Neves e Sousa, falando aos amigos angolanos, como Sebastião Coelho (outro compatriota deslocado da terra-mater ), que o visitara indo de Buenos Aires, resumia tudo num sentimento - “Já que não posso estar em Angola, Angola está em mim.” E num poema emblemático:
Em momentos de memórias e saudades (diga-se que o Dia da Saudade é celebrado na Bahia a 30 de Janeiro), o pintor transmudava-se para a poesia. E confessava:”Todas as coisas que não conseguia transmitir a pintar, eu tranformava-as em poesia. A terra e eu éramos uma só ideia:África de todas as maneiras que sabia e algumas que não sabia.”
Da sua representação de pintor de quadros e murais, ninguém faria melhor julgamento, no Brasil, do que Jorge Amado:

“Angola nos deu tanta e tanta coisa boa, fundamental para a formação do povo brasileiro, para o que hoje somos! Deu-nos sangue, o bom sangue negro de Angola, deu-nos dança e canto, deuses trazidos da floresta, a obstinada disposição de luta, e invencível e livre capacidade de rir e de viver. Somos tão angolanos como quem mais o seja – Bahia e Luanda são cidades irmãs.
Não contente, Angola vem de nos legar, nas confusões do nosso tempo incerto, o pintor Neves e Sousa. Pintor de Agola, de sua paisagem poderosa, de sua poderosa gente, dos costumes, da magia e da realidade – ele tocou com seu lápis ou com seu pincel cada momento e cada detalhe do país e do povo. O sol de Angola imprimiu a cor definitiva da sua paleta. Não posso senti-lo estrangeiro sob o sol da Bahia, as cores são idênticas, muitos dos nossos hábitos vieram de lá.
Na beleza das mulheres há um toque de dengue angolano, na força e na esperança dos homens descortino a decisão da gente de África. Neves e Sousa, encontra aqui a irmandade dos países que têm em comum, além da língua, alguns bens decisivos de suas culturas nacionais. Não é estrangeiro no Brasil o artista de Angola.
Sob o sol da Bahia, Neves e Sousa prossegue a sua obra admirável e a leva aos quatro cantos do continente brasileiro, pois é andejo de natureza esse mestre pintor de árvores e bichos, de homens e deuses.”

Mas em Angola, como pintor, Neves e Sousa só foi apreciado bastante tarde e de diversos ângulos, em que se misturaram com a arte a incultura estética e o preconceito ideológico. Todavia, alguém quis apostar - logo numa adolescência já consagrada ao desenho e à pintura, que se manifestou em duas exposições realizadas em 1936, no Andulo, terra da sua residência, com a família, e no ano seguinte, em Luanda, com o apoio do jornal A PROVINCIA DE ANGOLA - no futuro do que viria a ser, para muitos dos seus admiradores, o maior pintor de Angola.
Em 1943, a Câmara Municipal de Luanda concede-lhe uma bolsa de estudos que lhe permite fazer o curso superior da Escola de Belas Artes do Porto. Entre 1949 e 1950 coopera com o Grupo dos Independentes do Porto, tendo organizado com mestre Fernando Lamas a 1ª Exposição de Arte Infantil no Porto. Em 1950 e 1951 obtém três prémios em concursos da Escola de Belas Artes. Em 1952 defende tese, regressa a Angola e fixa-se em Luanda, onde logo se anuncia com uma exposição de pinturas produzidas durante os anos de ausência.
Não teve o acolhimento certamente esperado junto dos meios culturais que assumiam a crítica, como se pode avaliar por uma nota da prestigiada revista MENSAGEM, no seu segundo e último número de Outubro de 1952, em que se transcreve um comentário da revista moçambicana TRIBUNA:

“A exposição de Neves e Sousa – aguarela e óleo – merecia, na realidade, uma referência mais pormenorizada do que uma simples nota. Mas, à falta de melhor, resta unicamente lembrar a característica principal que o conjunto dos seus trabalhos revela. Nos óleos, a deficiência de cor e uma preocupação de rebusca “cubista” – superficialmente, pois não atingiu o sentido decorativo revolucionário desta escola – inferiorizaram-lhe os trabalhos. Note-se ainda quanto aos estudos etnográficos e as aguarelas a sépia, imitando desenhos, eram os pontos fracos da sua exposição, mas que mesmo assim não destruíram o aspecto agradável do conjunto. Se Neves e Sousa aprofundar e não alindar os seus temas, mas numa directriz da interferência humana da arte com a vida, poderemos esperar dele um excepcional ilustrador.”

Seis anos depois, em Março de 1958, numa revista também histórica pela sua representatividade no Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, CULTURA, um mais extenso comentário a outra exposição de Neves e Sousa, assinado por F.de Oliveira, já dá conta do relativo sucesso do Artista junto do grande público, em contraponto com os seus detractores e a crítica assumida como tal. Observando:

“É uma coisa difícil falar de Neves e Sousa: a seu respeito há uma polémica quase permanente em aberto e com ligações directas a sectores artísticos ou estranhos a qualquer actividade do espírito, de Luanda. Nos já longos anos em que venho visitando as exposições de artes plásticas realizadas na capital de Angola, tenho visto que raras vezes se tem dito algo de verdadeiramente interessante a respeito do, pelo menos laborioso, artista: ou o elogio incaracterístico, ou a detracção muitas vezes ditada por razões pertinentes mais a rivalidades ”comerciais” que a considerações de ordem estética. (…)“

Enfim, contra ventos e marés, a carreira do Pintor continuou a progredir, dentro e fora do seu país, tendo atingido os píncaros da consagração em todos os continentes, onde foi admirado e homenageado com prémios e condecorações e está figurado em colecções e museus de renome internacional.
Mas nesse percurso de êxitos continuados sobretudo em Portugal e no Brasil não teve merecido lugar o Poeta, atingido pela sua ausência física durante os dez anos que esteve fora da terra-mater, onde vigoram ainda duas máximas cruéis: quem não aparece, esquece; só faz falta quem está connosco.
Hoje, quando são reconhecidos nomes de poetas angolanos que se extinguiram à nascença, é imperdoável que Neves e Sousa estivesse ausente de antologias como “Poetas Angolanos”, organizada pela Casa dos Estudantes do Império (1962), “No Reino de Caliban”, organizada por Manuel Ferreira (1976), ou “Poesia de Angola”, organizada pelo Ministério da Cultura de Angola (1976), com prefácio de António Jacinto, e todas constituindo peças imprescindíveis dos estudos universitários.
Excepção: a editora IMBONDEIRO, de Sá da Bandeira, incluiu A.Neves e Sousa em duas antologias de 1963 –“Colecção Imbondeiro” e “Colecção Mákua”- em que são seleccionados poemas de 13 reconhecidos poetas de Angola, e se faz esta nota sobre Neves e Sousa, o primeiro por ordem alfabética: “Vivendo em Angola desde a mais tenra idade, é sobretudo conhecido como o Pintor que mais exclusivamente vem revelando a paisagem física e humana da terra em que cresceu e abriu os olhos para Arte. Autor de três livros de poesia de motivação africana: Motivos Angolanos, Mahamba e Batuque.”
Ao que se poderia acrescentar, para definir o Pintor-Poeta, lembrando Buffon e Max Webber: “0 estilo é o homem”- “Mesmo a visão unilateral de um acontecimento vale como um contributo para a compreensão do real.” Por isso, Neves e Sousa continua presente.

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