Nguami Maka: Manter a face do semba

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Em Ngongo, a obra discográfica do Nguami Maka, o hungu, o ngoma, o mukindu e a puita retomam o seu valor cerimonial e o Marçal desperta na mulata cor de muamba, nas máximas de São Pedro em Ngongo e repousa no tom grave que a dikanza oferece em Ditadi de Zero Sete. Mas nada mais animado que a interpretação de Favolo ni favolo de Lulas da Paixão, em que os instrumentos confluem num só ritmo. Colonial, do N'Gola Ritmos, Nzambi, de Wiza, Ula upa!, de Belita Palma, Ngonguênha, de Minguito e Mana Santa, de Kituxi são outras interpretações deste disco jovial.

O Nguami Maka na rua dos Coronéis do bairro Marçal

Se o pretexto é o de que o semba de raiz não pega, como explicar o sucesso de Kituxi e Seus Acompanhantes na música N'guitabulé, que a Televisão Pública de Angola fez conhecida do grande público ainda nos anos frescos da primeira década de 2000 e mereceu nota de respeito que seguramente jamais perderá o seu vigor. Um pouco mais distante, podemos também ver em 1964 um registo da exibição de Manazinha do N'Gola Ritmos na RTP e ouvir o ressoar da dikanza magistral de Fontinhas, a que o Bonga faz destaque na dedicatória intitulada “Fontinhas (fonte genial)” e que o considera como um dos mestres da “escola do semba” que um dia gostaríamos de ver afirmada com histórias e protagonistas merecedores. Esses e outros exemplos semelhantes afirmam a perenidade da música angolana de raiz em todas as épocas e espaços. São exemplos bem conseguidos da face do semba (da nossa face) nestes dias de actualização mecânica que se confunde com modernidade.
É a defender este semba que hoje o Nguami Maka está formado pelo tambor solo Fernando Francisco “NANDO”, o vocalista e tocador de puita e hungu Jorge Mulumba, Pascoal no mukindu, Venâncio como tambor baixo, Eliseu na dikanza e as dançarinas Eva Correia e Mariquinha Francisco. Mas todos já experimentaram um pouco de tudo nestes 12 anos da banda, comemorado no passado 20 de Abril.
A primeira linha do Nguami Maka era composta por Nando no mukindu, Jorge no hungu, o Lolito (filho do Lulas da Paixão) na voz e Pascoal na dikanza. Subiu pela primeira vez em palco a 13 de Novembro de 2002, no Cine Miramar.
O Nguami Maka é um grupo de jovens provenientes do Bairro Marçal. O grupo surge como reflexo das grandes manifestações culturais vividas neste bairro. Conscientes da vida cultural que o bairro oferecia, este grupo de jovens reuniu-se para formar uma banda tradicional à moda do semba de antigamente.
Foram persistentes. A moda da sua época já não é o semba. A puita, a dikanza, o ngoma, o hungu, a mukinda e outros já não são atrativos e significam muito pouco para a nova geração. Um pouco a contrariar esta tendência, foi então que combinaram encontrar um quinteto certo para dar vida a estes instrumentos do semba de ouro, cartaz dos excelsos momentos da grande Angola africana que, gradualmente, temos perdido.
Foi no princípio de 2002 que o nome surge a partir da polémica sobre admissão, durante a selecção dos membros do grupo. Para surpresa, muitos jovens se reviram neste projecto, mas só cinco deveriam ser escolhidos. Os cinco escolhidos decidiram então dar o nome de Nguami Maka ao grupo como forma de aclarar a todos os que não conseguiram entrar para o quinteto que eles não queriam qualquer problema. Mas a frase nguami maka não é um caso virgem, já Calabeto a deixou na ponta da língua dos amantes do semba com um registo musical com o mesmo nome.
É imperioso marcar como embironário o Trio Girassol, composto pelo congolês Makanda, que era o tecladista, onde Jorge Mulumba e Pascoal já tinham implementado o ngoma e a dikana como instrumentos imprescindíveis. O trio não durou por muito tempo e foi da sua extinção que se criaram as ideias para o quinteto.

Influência

Lider e vocalista do quinteto, Jorge é sobrinho do grande Mestre Kituxi. Foi dele que recebeu grande parte da sua influência, bem como de Raul Tolingas, dois nomes que marcam com nota positiva o legado desta música angolana que agora se faz. O grupo fica assim considerado como satélite do renomado grupo Kituxi e seus Acompanhantes, que marcaram o panorama musical angolano ao assumirem um semba que se esforça em preservar a rítmica da primeira escola. Manter a face do semba é o seu grande objectivo. Ganhar a atenção dos jovens e dar continuidade. Tem sido muito difícil. Ninguém tinha noção do que era de facto o semba. Primeiro ganharam a coragem de praticar e de se despir de preconceitos. Hoje, já conseguem fazer algumas correcções e já ganharam a admiração das pessoas.
Também sabem que a música não vai parar por aqui porque o semba virou uma espécie de transfusão dentro do mundo moderníssimo da música mundial que assola a música angolana nos dias que correm. Um desses sinais é a introdução do violão.
O grupo pensa refazer as suas melodias e acrescentar alguns instrumentos como a kora e o balofone e passar esta musicalidade para um grupo maior e com maior sentimento de África. Assumem que as ligações musicais foram muito fortes, sendo que o Raul Tolingas foi sempre o incansável mestre para o grupo, tanto que fez algumas produções.

O kimbundu

São todos do Marçal. Mas, e o kimbundu? O kimbundu vem dos pais. Era falado e tocado em casa. O projecto avançou depois de sucessivas pesquisas sobre este grupo étnico, e disto há quem os tenha tratado de malucos. Hoje, sabem que a recriação da alma tem sido um processo. Acreditam e não se cansam de sonhar. A banda vive de pequenos apoios dos integrantes. Ensaiam na casa de Jorge. Alguns já constituíram famílias.
O grupo (na pessoa de Jorge Mulumba) disse ter uma autorização para tocar temas do Kituxi, e mais uma vez o kimbundu volta. De momento, estão a fazer uma grande recolha dos grandes sucessos de Belita Palma, Bonga, N'Gola Ritmos e outros, nos quais mudarão apenas algumas coisas, mas com a intenção de manter a essência.

O segundo álbum

Com o álbum Ngongo já chegou a fazer actuações na África do Sul, China, Portugal, Espanha, República Centro Africana, Brasil e Itália. Agora tem procurado apoios para a edição da sua segunda obra discográfica. O receio é de não conseguirem superar o efeito da primeira. O disco é bilingue: português e kimbundu. Mas também fazem planos de cantar em diversas línguas nacionais. Uma das grandes memórias provocadas com o lançamento do álbum Ngongo é sem sombra de dúvidas a feliz participação do grupo no show da cantora Te Macedo, em que aompanharam uma orquestra de Cuba. O grupo tomou as rédeas da percussão do show. Também já passou pelo projecto musical Raiz da Alma, que jogou um grande papel por excluir teclados e violões e deixar apenas instrumentos tradicionais e de corda. Procuram acertar todos os pormenores no segundo álbum, que chega num momento que os preocupa devido à “distração” da geração actual: “Achamos que é agora que se deve resolver a questão do semba”, defendem.

Uma crítica ao papel cultural das embaixadas

O grupo mostra-se desiludido com o desempenho das embaixadas nas responsabilidades da internacionalização da cultura angolana, considerando que “têm sido muito fracas e quase sem grandes ideias”. Visto não termos ainda em grande escala as Casas de Cultura, tomaram como exemplo as manifestações culturais que as embaixadas estrangeiras em Angola têm procurado fazer, agitando o mercado cultural angolano com apresentações muito significativas. Outrossim, incluíram também os empresários que fazem escolhas selectivas que pouco contribuem para o engrandecimento da cultura angolana no seu todo, e disso questionam: “Se os nossos empresários conseguem levar para o estrangeiro outros músicos angolanos, porque não conseguem nos levar a nós, que carregamos no timbre uma grande defesa da angolanidade? Acho que as pessoas deviam saber que muitos desses cantores não são levados em conta. Fomos a uma actuação no estrangeiro e o público começou a retirar-se assim que acabou a nossa apresentação e não queria mais ouvir outros tipos de música que não lhes era nenhuma novidade”.

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