Njinga Mbande reina no entrudo de Luanda

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Os grupos este ano fizeram o seu carnaval.

Njinga Mbande reina no entrudo de Luanda
Grupo carnavalesco Njinga Mbande Fotografia: kindala Manuel

"Os objectivos para o próximo ano são melhorar muito mais. Conquistámos o primeiro lugar, mas não ficamos por aqui, vamos mostrar que a Cabecinha está na Nova Marginal de Luanda para vencer”, salientou António Domingos, o presidente e comandante deste agremiação do município de Viana, fundada em 1979.
A aposta no estilo de dança Cabecinha deveu-se ao facto de “sermos vianenses e alguns elementos que integraram o grupo serem oriundos de Catete, da Kissama, de Calumbo”, regiões em que, à semelhança do que acontecia “no outrora, só brincávamos o Maiadu, a Cabetula e a Cabecinha, não tínhamos o Semba, neste momento estou a procurar reactivar a Cabetula”, disse o folião também conhecido por Tony Mulato.
António Domingos pensa que há coisas que devem melhorar no Carnaval de Luanda e aponta o caminho. “Primeiro não devem importar tecido de fora, nomeadamente de Portugal, porque nós, os grupos, ficamos a perder”.
“Os grupos este ano fizeram o seu carnaval. Porque o dinheiro chegou às nossas mãos uma semana antes do desfile” e, por outro lado, o também gestor entende que o Gabinete Provincial da Cultura deve incrementar o valor cabimentado às agremiações carnavalescas.
O presidente do União Njinga a Mbande congratulou a organização do Entrudo que considera ter sido irrepreensível, mas fez uma ressalva. “Não vamos imitar os outros países. Vamos recuperar o Semba que conheci dos anos 80 do União Mundo da Ilha, a Kazukuta do Kabocomeu em 1979, isso é que quero ver, o espírito do Carnaval da Vitória”.
No Carnaval de Luanda 2016 concorreram 12 grupos, provenientes de vários pontos da urbe luandense, e todos dançaram o Semba, excepto o Njinga a Mbande, num cenário que parecia difícil para os vianenses que, em 2013, arrebataram, também com a Cabecinha, o Entrudo daquele ano.
Três anos depois a história repete-se, mas com um sabor especial, com uma dobradinha. Na classe infantil, o grupo Viveiros do Njinga a Mbande ficou em primeiro lugar, com 875 pontos e nas posições imediatas os Cassules do 10 de Dezembro (824) e Jovens da Cacimba (772), respectivamente.
Na 38.ª edição do Carnaval de Luanda, na Classe A, de adultos, o pódio ficou assim composto: União Njinga a Mbandi de Viana, 868 votos, em primeiro lugar, União Kiela – 773 votos, segundo lugar, em terceiro lugar ficou o grupo União 10 de Dezembro, com 711 pontos.
Na classe B, de adultos, venceram o Recreativo do Kilamba (793 pontos), União Kabocomeu (726) União 54 (691). Atente que em 2017, estes três grupos participam na 39.ª edição do Carnaval de Luanda, e o União 54, vencedor do Entrudo em 1998, volta ao convívio dos grandes após ter descido para classe B, em 2015.
Foram despromovidos para a classe B, os grupos União 17 de Setembro, União Nova Geração do Mar, União Amazonas do Prenda, União Jiza e União Café de Angola.

União Kazukuta, "desuso" da Varina
Aleatoriamente, o Gabinete Provincial da Cultura de Luanda homenageia as agremiações carnavalescas. Este ano não foi excepção e o União Kazukuta do Sambizanga, vencedor do Carnaval em 2001, pelo trabalho que tem desenvolvido, foi o escolhido.
Se, em 2015 houve representações de Kazukuta, Semba e Cabecinha, em 2016 o cenário foi diferente, com 11 dos 12 grupos que brincaram o Entrudo com o “semba no pé”. Curiosamente, o União Njinga a Mbandi, foi o único a dançar a Cabecinha, que aliás, mobilizou 3500 foliões, contra os 5000 do ano passado, ficou-se com a ideia de que os outros estilos carnavalescos como a Varina, a Dizanda, a Cidrália estão em desuso.
António Sebastião Vicente “Santocas”, presidente do Júri do Carnaval 2016, é da opinião que “é necessário fazer um trabalho aturado em termos da Comissão Provincial e da Comissão Nacional que realizam esta festa popular, porque não podemos deixar que este vazio se possa registar, porque a Varina está inserida naquilo que é a nossa Cultura”.
“Acho que para a próxima edição as comissões que frisei têm de fazer com que os grupos que praticam outros estilos de dança possam voltar”. A nível dos grupos, Santocas ressaltou ser importante, se quiserem triunfar, têm de se apresentar na Nova Marginal de Luanda de acordo com aquilo que é a Bíblia do Carnaval, ou seja, não podem perder de vista questões como a alegoria, a canção, a corte, entre outras.

Governador, contrastes e chuvisco
“Estão criadas as condições para que se dê início ao Carnaval de Luanda 2016”, o Governador Provincial, Higino Lopes Carneiro, foi lacónico no seu discurso, no entanto, a tribuna de honra foi se compondo, com figuras do Estado angolano. Passavam cerca de 15 minutos das 16 horas, quando o coordenador executivo do Entrudo, Manuel Sebastião anunciou a presença do edil de Luanda, para o posterior arranque da festa.
O primeiro grupo, União Povo da Samba, fundado em 1973 foi o primeiro a desfilar. O tema do refrão exaltava o amor: “Vamos nos amar, vamos nos amar, vamos nos amar/ Cada passo que o país está a marcar/ Cada passo que Angola está a marcar/ É resultado desta linda paz”.
O União Mundo da Ilha, por exemplo, teve como tema: “Tanaku Marinha” frase aportuguesável para Obrigado Marinha, homenageando este braço das Forças Armadas Angolanas que tem a sua base naval, na Ilha do Cabo, inclusive houve fragata alegórica em que os foliões representavam o trabalho que a Marinha de Guerra Angolana desenvolve.
Ainda o Sol brilhava na Nova Marginal ardente, quando desfilou o grupo Café de Angola. O atraso do União Sagrada Esperança, que era o terceiro no programa de desfile, precipitou a passagem do União Mundo da Ilha, por sinal o grupo angolano que ostenta 12 títulos do Carnaval.
O Sagrada Esperança, até então detentor do título, foi o sétimo grupo a desfilar e não se sentiu, pelo menos as pessoas que este jornal ouviu, disseram que não tinha estrela de campeão, o atraso porém, implicou no dia 10, dia da publicação dos resultados a penalização com a retirada de 35 pontos, um facto polémico, mas que não evitou a derrocada da agremiação do Rangel.
Às 18:55, o céu da Nova Marginal era um manto negro que salpicava gotas de água, ligeiramente, prenúncio de um chuva miúda que molhou o asfalto e esfriou o terreno para o desfile do Kiela e do União Jiza, que ofereceu desdobráveis sobre a importância de doar sangue e fez deste tema a sua canção.
O União Njinga a Mbande apelou aos munícipes de Luanda e não só, a não construir em zonas de risco, uma canção de teve como compositor e intérprete o consagrado músico Baló Januário. As mamãs kitandeiras dos mercados do 30, da Regedoria e de outras praças do município de Viana expuseram frutas, legumes, panos africanos, as suas kindas à cabeça e estendia-se o tapete para um eventual campeão. O vaticínio de muitos bateu certo. A supremacia confirmou-se. Njinga a Mbande é o vencedor do Carnaval de Luanda 2016.
REPORTAGEM DE RÚBIO PRAIA
FOTOS DE KINDALA MANUEL

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