Nomes tradicionais na cultura umbundu

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O nome atribuído a uma determinada pessoa na tradição umbundu, pode estar carregado de diversificados elementos culturais, que a sociedade não pode ignorar sob pena de perdermos a nossa identidade.

Nomes tradicionais na cultura umbundu
Festo Sapalo

Quando nasce um bebé a família e a sociedade no geral preocupam-se em atribuir um determinado nome, por ser também seu direito, e como parte constitutiva completa a pessoa e explica a natureza do ser individual, mostrando ao mesmo tempo a sua realidade.
O nome é um distintivo, é como uma sombra que segue a corpo humano, faz parte da sua personalidade, e revela o ser da pessoa, integra o homem no grupo porque é a denominação que permite reconhecer o sinal da sua situação e origem em relação aos outros.
O nome mais do que um sinal, transforma-se numa figura simbólica, carregado de um dinamismo vital participado na comunidade, e, por isso, a sua intitulação obedece a motivações que atingem vitalmente tanto a pessoa detentora do mesmo, como a comunidade onde estiver envolvido.
Nomear alguém é definir a sua personalidade, nomear um antepassado é fazê-lo reviver.
Em muitas regiões de predominância da cultura umbundu a escolha de nome é feita pelo avô paterno, noutras, se for o um menino, o seu progenitor tem o direito de nomear um antepassado e o mesmo faz a mãe quando nasce uma menina.
Cada nome atribuído a um ser vivo sela um testemunho e é um documento, ou mesmo uma memória para a sua história. Há casos em que pode ser a parteira que no dia seguinte ao nascimento do bebé anuncia a chegada de um novo membro na família e, colocando-o à porta da casa, borrifa-o com água expelida a partir da sua boca, pronunciando o nome da criança várias vezes, ao que é seguido pelas pessoas ao seu redor, que fazem o mesmo enquanto batem as palmas.
Por vezes aparecem nomes estranhos, tendo em conta as circunstâncias em que nasce o bebé, como é o caso de um de um parto complicado, ou haver uma visita importante em casa ou na comunidade ou também o nome da própria parteira.
Ser chamado pelo próprio nome é evocar a própria pessoa e uma vez que atinge a idade de juízo tem de aceitar a relação entre si e o seu nome, significa ser possível ser chamado, ter uma história e uma missão.
O historiador Festo Sapalo lamenta e reprova o facto de muitas famílias pouco ou nada fazerem para o resgate e preservação dos nomes e porque quem assim procede pode ser considerado um atrasado ou desactualizado.
O voto de confiança do historiador recai às comunidades rurais que continuam a utilizar nomes em línguas nacionais, que revelam a nossa identidade cultural.
Festo Sapalo diz que gostaria de ver esta realidade transportada para o meio urbano para que sejam também conservadas nas cidades as nossas raízes e origens, uma vez que um nome em Umbundu, kimbundu ou kuanhama, o indivíduo é facilmente reconhecido quanto à sua origem e família.
“O desenvolvimento actual que se registam nas cidades não pode ser motivo para espezinhar os nomes dos nossos antepassados, porque constituem a raiz da família e de tudo o que faz parte da tradição da região”, realçou Festo Sapalo. Muitas vezes as actividades que determinada pessoa desempenha na sociedade pode criar títulos novos aos seus proprietários, como por exemplo um caçador, pescador, pastor, toma estes nomes pela força da sua acção diária e as pessoas próximas baptizam-no com o mesmo título.
“Existem nomes que elevam e resgatam os valores culturais, e, seria bom que cada encarregado de educação ou da família atribuísse ao menos um nome tradicional ao seu filho, pois que esta medida exalta a tradição da nossa região”, aconselha o historiador.
O especialista critica o facto de muitos nomes locais serem aportuguesados, principalmente no tempo colonial em as pessoas eram impedidas de se expressar em línguas nativas.
Segundo o historiador o nome individualiza o seu detentor num colectivo de pessoas, quando o seu nome é invocado, a sua resposta é imediata, uma vez que um nome nos identifica e nos situa melhor onde nascemos e onde vamos.
Aconselha, ao mesmo tempo que, ter um nome em qualquer língua nacional, ajuda a reencontrar parentes que fazem parte da mesma linhagem, por os nomes tradicionais terem as suas origens que identificam melhor os membros de uma família, conserva a consanguinidade, ajuda a unidade, a reconciliação e a solidariedade das pessoas.
O historiador pede ajuda às comunidades religiosas, tradicionais e encarregados de educação no sentido de auxiliarem nos resgate dos valore culturais da região para incutir nas novas gerações a importância de se falar e ter um nome em língua materna.

Circunstâncias
O historiador Festo Sapalo realçou que a atribuição de nomes em muitos casos está ligada a fenómenos naturais, interpreta-se uma época em que aldeia ou a comunidade é assolada por uma estiagem e alguém colocar ao seu bebé o nome de Tchitenha ou alguém colocar ao seu filho o nome de Tchokovava por este nascer num dia de chuva torrencial que resulta às vezes em cheias.
Há outras circunstâncias em que nasce uma criança na época em que o progenitor encontra-se detido ou condenado e a este bebé dá-se o nome de Kamenga, que em umbundu significa cadeia.
O jovem António Tchela, nasceu no Huambo no dia 30 de Setembro de 1992, no dia em que decorria o processo de votação legislativa, por isso lhe foi colocado o seu nome, que significa Eleição.
“Através deste nome fiquei a saber que no ano em que nasci foram realizadas as primeiras eleições no país e esse feito, marca uma história para mim”, disse orgulhoso.

Nomeação dos gémeos
Quando nascem gémeos, para além de serem saudados com insultos, são chamados por nomes abusivos, por exemplo: (Ove a ngulu, ove ambwa), que significa em português (tu porco, tu cão) e outras palavras depreciativas pelas quais são tratados.
A mãe e os gémeos depois de os umbigos caírem, são levados para fora de casa, envoltos em barro, a mãe é arrastada no lodo, passando com ela em volta da casa num alarido de insultos, assobios e ao som de chifre de boi ou cabrito, com um balaio cheio canjica de milho não desfarelado à cabeça (ombulungu), que vai sendo consumida à medida que se vai arrastando a mãe no lodo.
De seguida os umbigos são enterrados junto ao cruzamento dos caminhos, as roupas que serviram a parturiente são deitadas fora ou num rio.
Depois deste ritual todo, só assim será possível cumprir com a última etapa que tem a ver com a nomeação dos mesmos, onde são atribuídos nomes de animais selvagens mais temidos na fauna angolana tais como, se forem dois rapazes o primeiro nascido chama-se Jamba (Elefante) e o segundo Hossi (Leão) e se forem meninas, a primeira permanece o nome de Jamba e a irmã é a Ngueve (Hipopótamo) e imediatamente o irmão ou irmã que segue aos gémeos é chamado por Kassinda, que vem da terminologia “Wasinda”, empurrou em português.

Reacção da sociedade
A adjunta do conservador do registo civil do município da Caála, Jovita Samba, disse ser direito de qualquer cidadão, nascido no país, ter um nome em uma língua nacional, uma vez que o qualifica e indica a sua cidadania. Afirma que os nomes em umbundu são tratados como qualquer outro, desde que carregue consigo um significado da própria tradição angolana, como por exemplo “Domingos Tchimuco”, “Delfina Wandi”, que carregam um pensamento lógico na língua em que são traduzidos, são nomes que unem e dão uma denominação a uma geração e indica a origem do indivíduo.
Ainda segundo a responsável, não são permitidos perante a lei nomes com características pejorativas, onde o seu portador é humilhado em todo tempo, com nomes desagradáveis na sua pronúncia, como por exemplo o Tchitupi, bode em português. “A pessoa não pode ter nome de um cabrito.
Adiantou que quando alguém aparece no posto do registo civil com um nome não aconselhável perante a lei, a medida certa é convencer os progenitores a arranjar outro nome com significado que vá ao encontro da linha cultural.
Colocar nomes aos filhos sem consultar os seus significados aos peritos não é aconselhável, porque de acordo com a especialista em muitos casos podem levar à pessoa nomeada a tomar comportamento originário do referido nome.
Como exemplo cita o nome de Tchingualulu, que em português significa vagabundo, pode que no futuro o nomeado tenha comportamento do sentido do nome.
A especialista aconselha aos demais familiares no sentido de colocar sempre um nome em umbundu ou em qualquer língua nacional ao seu filho para servir de resgate da sua identidade nacional.
O sociólogo Severino Estêvão, considerou que os fenómenos sociais estão na base da quebra dos valores culturais, preservados e defendidos por muito tempo pelos nossos ancestrais, adaptando nomes não próprios, e fugindo da linha em que o chará (sando), em umbundu, adoptava o nome original, influenciando assim o sistema de educação das demais gerações.
O nome de uma pessoa, segundo Severino Estêvão, reflecte a gramática de uma língua, por isso, o estudo dos nomes abrange várias áreas ligadas à própria língua, assim como a fonética, morfologia, fonologia e outros, que identificam a pessoa.
O sociólogo apela também à conservação dos nomes tradicionais porque muitos reflectem algum fenómeno no seio familiar ou comunitário em que seja necessário vivificar aquela ocorrência, incentivando uma das famílias a nomear o filho com aquele acontecimento.
“Para preservarmos a nossa cultura, devemos igualmente conservar esses nomes com carácter histórico, senão corremos riscos de no futuro deixarmos de ter nomes verdadeiros e primarmos por aqueles que não correspondem com a verdadeira cultura”.
O ancião Domingos Kavinda lembrou que as normas que actualmente regem a convivência salutar entre famílias, mesmo antigamente já existiam, se agora a nível do registo civil existem nomes que não podem ser atribuídos, antes na convivência tradicional também já existiam, porque mesmo nos kimbos havia nomes que nem ao seu cão eram admitidos.
Domingos Kavinda realçou que existem alguns nomes que por cima deles merecem ser sinalizados com uma proibição, uma vez que se encontram muito distanciados do que se aprendeu com os antepassados.
“Com os nossos antepassados, para além de tanta coisa que aprendemos, também assimilamos a preservação dos nomes da terra e os nossos filhos estão a fugir esta linha, existem vários nomes nacionais que dificilmente são pronunciados que futuramente a sociedade vai nos cobrar”, apelou.
Alguns nomes em umbundu e os seus significados, como Tchilombo (Acampamento), Tchivinda (Ferreiro), Mulungu (órfão de pai e mãe), Tchambasuku (Rejeitado por Deus), Nduva (Pássaro grande), Kusumwa (Tristeza), Kapiñgala (Sucessor), Vita (Nascido em tempo de guerra), Ndungula (Profeta), Ndalu (Fogo), Sindjekumbi (Espera pelo nascer do sol), Welema (Escuridão), Ekumbi (Sol), Tchisola (Amor, alegria), Tchpilika, deriva de Okupilika que significa insistir, Tchitekulo (Benfeitor, pessoa bondosa) e tantos outros nomes reflectem a cultura umbundu.
Com este trabalho investigativo pretende-se ajudar os que recorrem a nomes estranhos para os seus filhos, sem qualquer contexto histórico, nem cultural, pois que dar nome a uma criança, não só diz respeito ao portador do memo ou aos seus parentes, como também a toda a comunidade.
Estácio Camassete |Huambo

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