Nuno Neto fala sobre as línguas nacionais na música

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Temos alguns músicos da nossa praça que cantam em língua nacional.

Nuno Neto fala sobre as linguas nacionais na música
Nuno Neto Fotografia: Paulino Damião

A missão civilizadora enquanto projecto de dominação cultural trouxe consigo a ideia segundo a qual a elevação do indígena para a condição de civilizado pressupunha a rejeição da cultura, particularmente da sua lingua, e a adopção da cultura e da língua portuguesa.
A proibição do seu uso pela Administração Colonial Portuguesa visava criar no angolano a necessidade de comunicar-se exclusivamente em língua portuguesa. Nesse sentido, a escola e a igreja (BENDER, 2009; HENDERSON, 2001) foram os instrumentos de materialização do assimilacionismo - a doutrina colonial que justificava a presença portuguesa em Angola, território habitado por diversos povos cujas línguas como o kimbundu, entre outras, foram pejorativamente associadas aos “cães” durante o colonialismo pelos colonialistas (BENDER, 2001).
Tendo em conta a pertinência do tema, fomos ao encontro do músico Nuno Neto (NN), actualmente residente em Lisboa. Na entrevista que segue, o artista debruçou-se sobre a promoção das línguas nacionais por meio da música gospel.

JC - Que contributo pode ser dado pelos músicos cristãos angolanos na preservação das línguas nacionais?
NN - Eu acho que a melhor maneira de preservarmos as nossas línguas nacionais é usá-las nas nossas composições, hinos e canções, visando a promoção das mesmas, dando assim maior abrangência no alcance por parte daqueles ouvintes que usam as línguas nacionais como a sua principal, ou a única plataforma de comunicação.

JC - Que opinião têm os europeus sobre a música gospel produzida em línguas africanas como o kimbundu?
NN - A música africana tem grande impacto nas igrejas europeias pelo facto ser algo novo, diferente e muito expressivo, e isso desperta logo a atenção e o interesse dos europeus em conhecer o significado de cada palavra cantada, seja em kimbundu ou noutra língua nacional.

JC - Que impacto teve na Europa (Portugal) o seu disco “Amor Assim”, concretamente as músicas cantadas em kimbundu?
NN - O CD “Amor Assim” teve boa aceitação por parte do público evangélico em Portugal, Suíça e França. Apesar de ter sido lançado há cerca de dois anos, ainda sou questionado sobre o significado da música “muene uafuile”. Portanto, acho que é um disco que ainda deve ser explorado.

JC - Que mensagem transmite com as músicas "mizangala" e “muene uafuilie" e a quem se destina?
NN - Lá está a pergunta de sempre. "Mizangala" em língua nacional kimbundu quer dizer jovem ou mocidade; é uma música evangelística voltada para alguns aspectos relacionados com os jovens da nossa época, e também para aqueles kotas que, ao invés de se darem ao respeito comportam-se à margem dos padrões morais e cívicos; falo do desrespeito dos jovens pelos mais velhos e vice-versa, as relações sexuais entre o homem e a mulher em detrimento do casamento; a menina que acha que não adianta conservar-se pura, e que faz da sua vida uma telenovela onde o beijo, e cada serviço prestado por ela, tem o seu preço. Dirijo-me ao jovem que aparenta ter vida boa, bom emprego, boa casa, bom carro, bom fato, mas no seu interior não passa de um saco de lixo, vivendo uma vida de pecado. Jesus chama a estes de “sepulcros fechados”, bonitos por fora, mas com o seu interior a cheirar mal. Em suma, este é o tipo de jovem que temos na nossa sociedade - “a geração da vaidade”. Como é que chegamos à isso?

J.C - Que apelo deixa aos cristãos que cantam músicas apenas em língua portuguesa?
NN - A língua é como uma herança deixada pelos pais para os filhos. Por esta razão é que só canta em línguas nacionais quem tem um certo domínio delas. Temos alguns músicos da nossa praça que cantam em língua nacional; foram lhes dadas desde a tenra idade as ferramentas de trabalho artístico que são as línguas nacionais, porque os pais ou os avós falavam essas línguas. Deve ser feito um trabalho de pesquisa constante junto daqueles que são os nossos mais velhos, que se produzam manuscritos para que sejamos instruídos dentro das línguas nacionais e possamos utilizá-las como ferramentas indispensáveis para a produção da música gospel.

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