O exercício teatral do texto de “E se amanhã o medo” Dançar o corpo e corporalizar a voz

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O corpo em cena. Depois a palavra. Depois o diálogo de ambos que faz a peça acontecer.

Dançar o corpo e corporalizar a voz

 Mas foi quando quatro actores dançavam a palavra que tudo se encaixou e todos os mundos da peça saíram à tona e o texto foi justificando o contexto: a infância revisitada, o drama da felicidade, o sexo e o corpo como palco.  
O teatro contemporâneo é uma grande declaração de liberdade acima de tudo. A linguagem e a proposta representam a necessidade de nos desfazermos das fixações do teatro clássico. Há muito que as barreiras entre a dança e o teatro têm sido quebradas, ficando, em alguns casos, o espectáculo uma questão de definição rotular, ou somente de linha contemporânea. Como dizer que a dança não é uma forma de teatro, se toda a acção pode ser uma atitude teatral? Foi um pouco a responder à questão que o exercício “Contos em Movimento” foi apresentado na noite de quinta-feira (17) no Elinga Teatro, resultado de um workshop mais de dança que de teatro ministrado pela actriz portuguesa Sandra Barata e pela dançarina luso-angolana Susana Mendes. Foi composto por vários actores e bailarinos que quiseram aprender um pouco mais sobre a dança e teatro contemporâneos.
De aproximadamente 50 minutos, “Contos em Movimentos” é uma adaptação de quatro contos de "E se amanhã o medo", de Ondjaki.   
Sandra considerou ser muito produtivo por aprender mais sobre o teatro em Angola e tentar fundi-lo às mais recentes representações estéticas que vigoram na Europa. Foram seis semanas de partilha. De reencontro.  
Não consegue ver o teatro sem o movimento nem a dança sem o teatro. Acha que as pessoas podem ser tão criativas que seria impossível desligá-las do movimento. A sua intenção foi a de fazer o texto e o movimento funcionarem como conectores que fazem os sentimentos passarem pelo corpo e não só pele voz, para tornar as coisas mais orgânicas.
Os contos do autor angolano ficaram intactos, encenados numa linguagem contemporânea. “Contamos as histórias todas e deixamos alguns espaços para as pessoas também perceberem e poderem participar da sua maneira na peça. Já assisti a algumas peças desde cheguei. Há trabalho contemporâneo em Angola. As peças que eu vi ainda não estão muito ainda na definição do que é contemporâneo. Acho que as pessoas aqui ainda estão a procurar mais, mas é preciso também formação. É uma fusão entre o corpo e as palavras, e às vezes o texto é um pretexto para dizermos aquilo que queremos”, define a actriz portuguesa que ficou conhecida do grande público por encenar a fadista Amália Rodrigues em “Amália- O filme”.
Dançar com atitude, sem atropelar as linhas ou embaraçar-se. Azizi Wo, bailarino e actor do Kissanguluka, pela vez primeira estreia-se em algo do género que o desafiou a atingir outras captações e trabalhos mais completos. Dominar e conciliar o texto e o movimento. Ajustar-se em ambos e definir postura em palco que lhe permitem ficar mais perceptível e que lhe desvendem as linhas ao pormenor.

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