"O Grande Kilapy"

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(ou o que representou o “Joãozinho das garotas”)

Passar uma tarde em Lisboa com Zézé Gamboa é reviver intensamente (e nem sempre com um olhar cinematográfico...), outros momentos, outros espaços e outras figuras de outros tempos de Luanda, da Vila Alice ao Cruzeiro, dos sonhos da juventude, às dificuldades da vida e das diferentes épocas.

É também recordar a nossa TPA, Televisão Popular de Angola, onde o Zézé cedo se integrou, contribuindo com as suas ideias e o seu trabalho para o nascimento e crescimento dessa estação de serviço público em Angola.

É ouvir as histórias dos "consulados" de Luandino Vieira e Orlando Rodrigues, dos tempos do António Ole, Correia Mendes, Beto Moura Pires, Xuxu, Orlando Martins, Ferrão, Jaimito, Pedro Ramalhoso, Brecha, Valdemar, Manuel Eugénio, Amorim, Ticha, Óscar Gil, manos Henriques e muitos outros "conquistadores" e "vanguardistas", de quem o Zézé Gamboa foi contemporâneo!

Nos anos 80, o Zézé arrisca transferência para a Europa, sempre atrás dos sonhos em dedicar-se a ideais criativos que fervilhavam no seu interior, mas momentaneamente adiados no seu País.

Homem originário do som, cujo conhecimento emprestou a vários filmes e documentários produzidos particularmente em França e Portugal, enfrenta depois o desafio da realização.

Realiza inicialmente vários documentários e posteriormente avança para a ficção, tendo já assinado vários trabalhos nessas áreas, de que é justo realçar "Mopiopio" (1991), "Dissidence" (1998), "O Desassossego de Pessoa" (2002), "O Herói" (2004) e outros.

Permito-me contudo destacar "O Herói", co-produção entre Angola, Portugal e França, que conta a história de um combatente da guerra civil no nosso País que, regressando, mutilado, à dura realidade da grande capital, enfrenta as dificuldades e os desafios da sobrevivência.

Este filme obteve o prémio do júri para melhor filme dramático estrangeiro no "Festival de Sundance", nos E.U.A. em 2005, sendo pois o reconhecimento internacional para este realizador angolano que, posteriormente, obteve outros prémios e distinções, como o angolano "Prémio Nacional de Cultura e Artes".

Recordar tudo isso, numa tarde com Zézé Gamboa, é uma excelente oportunidade para mergulhar e usufruir da sua mais recente obra - "O Grande Kilapy" ­ e voltar a recordar o passado, agora mais longínquo, mas cujos factos, mais ou menos ficcionados, lendários, míticos ou reais, atravessam décadas e gerações.

"O Grande Kilapy" (que significa, como sabemos, burla, golpe, esquema) é um filme de época, adaptação livre de histórias e factos reais, para cuja realização Zézé pesquisou, entrevistou, ouviu pessoas, enfim, documentou-se para ser o mais fel possível à história do afamado "Joãozinho das Garotas", conhecido "malandro", "bon-vivant", das noites de Luanda.

Mas o conteúdo principal do filme, ultrapassa em muito o mero sentido burlesco do voyeurismo e da vida glamourosa do Joãozinho, em Portugal e Angola coloniais. O filme, que retrata o período 1965/1974, pretende mostrar a vida dos estudantes angolanos (africanos, até) em Portugal, o papel da Casa dos Estudantes do Império como plataforma cultural (até um ficcionado Rui Mingas aparece a cantar!) de resistência e unidade na luta anticolonial e o controlo e ação da PIDE e de outras forças repressivas portuguesas sobre os nacionalistas africanos.

O nosso "camba Joãozinho" (como diria o nosso comum amigo e camarada Gégé Belo), com a sua vida rodeado de mulheres bonitas e frequentando a noite boémia lisboeta, movimentando-se em carros de último modelo, é a peça que faz girar a história de denúncia da situação colonial e dos ideais independentistas.

Filho de um funcionário do Banco de Portugal em Angola, Joãozinho regressa a Luanda onde lhe é arranjada colocação na Fazenda, a repartição responsável pela cobrança de impostos pela administração colonial.

Através de um duplo livro de recibos, Joãozinho aproveita o seu "alto cargo" (raro na altura para um funcionário negro), para levar de "empréstimo" alguns valores cobrados, que servem para manter, na boite Tamar e noutros círculos da noite luandense, a sua vida faustosa, mas também para continuar a apoiar os amigos ou conhecidos que, nas prisões, na luta clandestina ou por outros meios, se dispunham a abraçar diretamente a luta pela independência.

A audição permanente, pela família, do Programa "Angola Combatente", emitido do exterior pelo MPLA, para mobilizar os militantes e as populações, é a "deixa" que permite enquadrar e compreender as ações e a vida do "Joãozinho das garotas" neste processo mais geral da luta nacionalista.Apanhado pelo seu "Kilapy", Joãozinho é preso, mas acaba posteriormente solto, juntamente com os nacionalistas presos políticos, no quadro do 25 de Abril de 1974, com o golpe miliar em Portugal.

Estamos pois perante um documento que retrata de forma simples, "fresca", através de uma figura e factos reais, alguns anos do período colonial, fazendo uma fotografia colorida de alguns factos que merecem ser lembrados, como história e como ensinamento.

O filme, rodado em Lisboa e João Pessoa (cidade do estado brasileiro da Paraíba ­ escolhida em função dos inúmeros edifícios tipo colonial) e, infelizmente não também em Luanda, por dificuldades de apoio logístico e financeiro, tem no respetivo elenco atores renomados, o que lhe confere maior importância, destacando-se os brasileiros Lázaro Ramos, António Pitanga e Maria Ceiça, os angolanos Pedro Hossi e Carlos Paca, os portugueses Sílvia Rizzo, João Lagarto, Patrícia Bull e João Pedro Gomes.

O Filme foi selecionado para participar na secção de "Cinema Mundial Contemporâneo" do FITT ­ Festival Internacional de Filmes de Toronto, a realizar em Setembro próximo, sendo a primeira vez que um filme angolano participa num Festival de Cinema de Classe A.
Honra para Angola, para a nossa cultura, para a difusão dos valores positivos e das capacidades dos nossos intelectuais.

Senhora Ministra, estimado Pedro Ramalhoso, que bela oportunidade para o País mostrar o seu apoio a outras formas de arte e cultura, menos massificadas, é certo, mas muito mais importantes junto de elites internacionais, de fazedores de opinião, de intelectuais, de jornalistas, enfim, junto dos que, com maior autoridade, credibilidade e repercussão, formam e difundem opiniões e sensibilidades sobre Países e realidades.

Porque não aproveitar o Festival de Toronto para levar mais e outros valores culturais angolanos a um público tão vasto como significativo e porque não apoiar financeiramente a ante-estreia do filme em Angola? Sem Kilapys....

Que bela tarde passada com Zézé Gamboa em Lisboa! Afinal, viver "cultura angolana" em Portugal, não é só ouvir música angolana em discotecas "da banda", ou a apreciar a moda e a produção das angolanas nos centros comerciais...

Lisboa, Agosto de 2012

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