O humor lírico dos Tuneza

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“não estamos a cumprir só o objectivo de lançar piadas, mas também a cumprir essa outra missão de amenizar as mentes"

Os TUNEZA em palco, foto de Quintiliano dos Santos

O que é que nos faz rir? O destapar do véu da nossa própria hipocrisia? A fala desnuda? A consciência do sem-sentido desta vida? Os Tuneza exploram os estados mais íntimos do nosso ser, escondem-se por detrás dos nossos gestos diários e exibem-nos em cima do palco. Fazer o público rir destas coisas que reputamos sublimes e importantes ou aquelas a que ninguém liga patavina é obra de mestres. É obra dos Tuneza: Gilmário, Tigre, Orlando, Costa Vilola e Tinocas. Cinco jovens calibrados pelas vicissitudes da vida e que, por uma razão ou por outra, foram acabar por morar no mesmo bairro.

Se cada um de nós estivesse sozinho frente aos Tuneza, porventura daria azo à sua intolerância genética: apanharia uma pedra, quem sabe mesmo um tijolo que arremessaria contra o Gilmário, o chefe espiritual do grupo. Porém, num espaço colectivo, muito amplo, o escárnio se transforma milagrosamente em estado líquido de riso. Em vez de lhes atirarmos pedras, o que podemos fazer, senão rirmos?

O que nos faz rir, masé, é mesmo a cara do Gilmário, o tal que fez de professor Mário (ou Ti Martins) na televisão (Fora de Série, concebida para roubar o sol do plexo solar de tanto rir, exceptuando a trilha sonora que já devia ser de música angolana ­ quem sabe, do Bonga?, ou dos nossos instrumentais dos Jovens do Prenda e dos Merengues), sendo entrevistado pela Tatiana Durão (Costa Vilola).

É esse mesmo Gilmário, o tal do novo carro (compadre malandro) que faz chorar o velho amigo de infância (pobre do Vilola), numa dolorosa crítica à derrisão moral que acompanha o novo riquismo.

O problema é que Gilmário tem uma expressão demasiado séria para quem está, afinal, a dizer que o cão pertence à espécie dos animais voadores, porque se o atiramos de um prédio abaixo, ele voa, "só que voa apenas um coxito".

É esse mesmo Gilmário que leva os outros na carruagem do riso, quando, em pleno espectáculo, começa por nos falar do amor antigo (a velha história de se viver em comum, já sem aquela chama dos primeiros encontros) e do amor acabadinho de ser plantado (em que o rapaz quase rasteja aos pés da garina).

Do teatro ao humor

"O Tinocas voou do Huambo, num IL, como deslocado de guerra em 1990. Trazia na mão um deck e uma cassete do Rambo III e foi parar para a Ilha de Luanda", explica Gilmário, sempre na gozação, o riso sarcástico e inconfundível que a mãe dele lhe nasceu com ele.

"O Tigre fugiu de casa, e foi também parar na Ilha. Morava com o irmão dele na Ilha, ali no Lelo. O Costa arranjou mulher na altura, nãotinha onde morar e um tio arranjou-lhe um lugar numa obrazita que tinha na Ilha."

O Gilmário "fugiu gatuno" no Sambizanga. "Eu tinha sofrido um assalto à mão armada muito, mas muito violento mesmo e o meu pai decidiu alugar uma casa na Ilha. A arte e o gosto de fazer teatro juntou-nos a todos no mesmo grupo de teatro na Ilha de Luanda.

Fundámos o Colectivo de Artes TUNEZA Teatro.

TUNEZA é uma palavra tchókwe que quer dizer "regresso, voltar ou viemos", explica. O grupo estava congregado sob uma outra designação, eram os Trovas do Mar, mas extinguiu-se, porque os seus membros acabaram por ter de fazer outras coisas e, quando regressou, regressou com o nome de Tuneza. "Resolvemos adoptar o mesmo nome para o grupo de humor, porque era também o regresso do humor aos palcos angolanos, à TV e à rádio. Então, Tuneza fazia todo o sentido!"

O grupo havia apostado na comédia para atrair as pessoas às salas de teatro. "E tudo estava a correr muito bem. Mas foram surgindo outros convites para ir a outros locais, que nos deram a ideia de crescer, foram nos chamando mestres da comédia, então, para não continuarmos a fazer de forma empírica, resolvemos pesquisar o que estávamos afazer. Começámos a sério em 2003", discorre Gilmário.

Pioneiros

A conversa com o grupo, numa sala na cave do Cine Place, em Luanda Sul, faz-nos remontar ao passado, reviver os precursores do humor angolano. "Antes existiam o Pipofe e o Cascadura. Lembram-se? Na TPA. E havia também o Cisco na rádio, a seguir aparecem os Kajokolos da banda, também na rádio, mas parece que vocês são os primeiros que avançaram com um projecto definitivo, profissionalizante..." ­ questiona o repórter.

Orlando responde: "Depois do passamento físico do Cisco, houve um vazio no humor angolano. Nós viemos de forma empírica, sem intenção alguma de sermos humoristas, e se calhar nunca nos tinha passado pela cabeça sermos o que somos hoje: os Tuneza."
"Os vossos espectáculos contribuem, de certa forma, para a pacificação dos espíritos e para dirimir certos traumas da guerra..."
"Com certeza.

Até temos tocado, de forma humorística, nessas questões, de forma a amenizar os espíritos, acalentar as mentes das pessoas e temos sentido o grande contributo que temos dado à sociedade angolana. Quando desaparecemos da TV ou deixamos de lançar um certo produto nosso, sentimos a pressão das pessoas na rua a cobrar e pensamos que o nosso trabalho está a surtir efeito, não estamos a cumprir só o objectivo de lançar piadas, mas também a cumprir essa outra missão de amenizar as mentes."

Aula Magna, Lisboa

Em Portugal, os Tuneza passaram por um treinamento intensivo de seis módulos, diz Vilola, que incluiu escrita, dicção, andamento, actuação em palco, com grandes actores portugueses e um grande escritor e dramaturgo, Luís Fanha, que ficou com o grupo quase um mês. "Mostrou-nos o caminho certo da escrita, pelo menos da TV e do palco e ganhámos muito com aquele curso."

Os Tuneza realizaram nessa altura um grande espectáculo em Lisboa na Aula Magna, com a sala totalmente cheia de angolanos, portugueses e brasileiros. "Saímos de lá com o coração alegre."

Empresários do riso

É o Tigre quem fala agora: "nós, os Tuneza, somos chefes de família e sustentamos as mesmas com o humor. 60% do grupo já está licenciado. Felizmente já trabalhamos no grupo com as nossas qualificações académicas.

Eu, que sou formado em Economia, sou o director financeiro; o Costa é o porta-voz, é formado em Relações Internacionais. Distribuímos tarefas de acordo com a formação da cada um. A nossa formação ajuda-nos na construção dos nossos temas e dos nossos shows.

Imaginem que vamos falar de um tema que tem a ver com Economia. O grupo contacta-me: eu busco uma matéria e discutimos. O mesmo, se o tema for relações internacionais, etc.

Vivemos inteiramente do humor. É o humor que financia os nossos estudos e financia o estudo dos nossos filhos, tudo o que é nosso sai do humor. Aliás, nós não fazemos mais nada para além do humor."

Perfis

Pergunta para Tinocas (Cesalty Paulo): "No grupo, cada um tem um perfil psicológico e uma certa configuração física. E noto que há dois personagens que focam bem no papel de mulheres..."

"Há membros do grupo que têm uma certa característica anatómica e também uma inclinação para determinados papéis e esses são os escolhidos para os papéis mais condizentes, consoante o talento, o aspecto emocional..."

"No Fora de Série, você interpreta o papel de Martelo Ortega, um jornalista da TPA. Não teve problemas com o Manuel Silva?" "Não. Ele veio falar comigo, disse que nunca o tinham satirizado e desde que não fiz o personagem com a intenção de criar nenhum mal-estar, então não surgiu nenhuma contradição. A intenção não era danificar a imagem do M. Silva ou falar mal dele.

"Há humoristas aqui e noutras paragens do planeta que utilizam termos pejorativos e indecentes até. Uma criança de 12 ou 13 anos não pode assistir a esses espectáculos. Mas noto que vocês não fazem uso de obscenidades em palco."

"Existe um padrão que temos em conta e que tem como pilar a vertente Educação. Crescemos em ambientes familiares onde o vocabulário obsceno já não fazia parte das nossas famílias. E é isso que tentamos passar aos nossos filhos.

As peças que apresentamos tornam-se um mimo social, as pessoas repetem as nossas frases e os miúdos de hoje são os nossos fãs de amanhã, é preciso começar a tratar esses fãs de agora.... Na prática, existem sociedades onde é permitido o uso de palavras obscenas, por exemplo, os EUA.

E aí o espectáculo é só para adultos. A criança ouve e imita. Todo o cuidado é pouco. Nós fazemos um humor universal e temos fãs crianças e mais velhos, enquadrados em todos os tipos sociais.

Por essa razão é que a sala do Cine Place onde os Tuneza actuam é a única que enche completamente. Até crianças de colo são levadas pelas mães. Ao meu lado estava sentada uma senhorita com gesso numa perna. Ninguém quer perder um encontro com os humoristas mais versáteis da banda. Os Tuneza, pois claro!

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