"O imperialismo, a escravatura e o racismo como parte do homem na sua totalidade"

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Artista Iris Chocolate recria "A Sul. O Sombreiro"

A exposição "A Sul. O Sombreiro" (título do romance de Pepetela), da artista alemã Iris Chocolate, exposta no Memorial Dr. António Agostinho Neto, entre 13 de Outubro a 27 de Novembro, consuma o casamento entre a literatura e as artes plásticas, resultando no levantamento de questões que ambas as artes impõem. A exposição, quanto à temática, seguiu o fio de pensamento do livro, pintando-o e criando adornos que permitissem outras possibilidades de reavaliar a mesma questão: o colonialismo e suas consequências. Além da instalação, a artista agregou um programa educativo que denominou “A Pele do Invisível”, com ajuda da iniciativa privada “Vamos Ler!”, que inclui a realização de palestras focadas na temática da exposição, feitas com ajudas provindas do Instituto Cultural Alemão – GOETHE, ENSA, Banco Caixa Totta e a Internet Technologies Angola.

Jornal Cultura - Que relação imagética se pode definir entre a exposição e o romance “A Sul. O Sombreiro”, de Pepetela?
Iris Chocolate - O romance leva-nos à Angola dos séculos XVI e XVII e se desenrola durante o início do domínio colonial. Segundo a estória, para a colónia foram enviados os padres e missionários junto com os militares, o rei ficou na Europa. Assim, as figuras na exposição apresentam-se como metáforas do poder militar, eclesiástico e secular: a corte real. A peruca feminina evoca uma senhora da corte, a peruca masculina alude a um juiz. A disposição das figuras suspensas sem rosto lembra-nos um jogo de xadrez ou a exposição típica de um museu de antiguidades da época medieval. A orientação das peças coloca-as “em conversa” umas com as outras, reflectindo a dinâmica geográfica e geopolítica da época, como no romance.
De qualquer ângulo da exposição, um Bakama dos povos N’goyo de Cabinda é visível. Os bakamas permitem aos vivos interagir com os seus antepassados e assegurar a reconciliação entre os mortos e os vivos. Nestes vídeos a câmara fixa observa os movimentos da dançarina, que enverga um traje feito de muitas tiras de tecido sobre as quais se costurou material reflexivo. As tiras inspiram-se nas “missangas” utilizadas nas tranças finas dos penteados das crianças. Elas rodopiam, gerando um fluxo meditativo de pontos cintilantes no escuro, uma atmosfera sonhadora que pretende criar uma ligação poética com os antepassados e os reinados do interior de Angola.
Quando olhamos de perto, nos damos conta que as intrigas, vinganças e violências do romance são problemas universais. O imperialismo, a escravatura e o racismo parecem fazer parte da natureza do homem na sua totalidade.

JC - É leitora assídua de Pepetela? “A Sul. O Sombreiro” serviu-lhe bem para exteriorizar o que pretendia mostrar em artes plásticas?
IC - Sim, sou leitora assídua de Pepetela. Já li quase tudo que ele escreveu. Quando começava a ler em português, tinha mais facilidade em compreender os seus livros. Por exemplo, para apreciar um romance como “Terra Sonâmbula”, de Mia Couto, que é mais poético, levei muitos anos. Já li o novo romance de Pepetela: “Se o Passado não Tivesse Asas”. Como muitos autores, ele dá voz aos que não são ouvidos. Gosto sobretudo dos seus romances históricos, que ajudam imenso a alguém de fora como eu a entender melhor a história de Angola. Por exemplo, “Yaka”, “A Gloriosa Família” ou a “A Sul. O Sombreiro" sobre o tempo colonial, “Mayombe”, sobre a guerra de independência, e “O Planalto e a Estepe”, que reflecte a política internacional dos anos 60. Da “Geração da Utopia” até ao “Predadores”, ele retratou aguçadamente a sociedade angolana. Também “A Rainha Ginga”, de Agualusa, foi muito importante.

JC - Há outros autores africanos que lhe interessam do mesmo jeito?
IC - Antes de saber ler em português já tinha lido muita literatura africana em inglês, e aprendi imenso sobre este continente e sua diáspora através dos escritores nigerianos Ben Okri, Wole Soyinka e Chinua Achebe, e a geração mais nova: Chimamanda Ngozi Adichie, Taiye Selasi e Teju Cole, ou com o grande escritor queniano Ngugi wa Thiong’o. Sem esquecer os sul-africanos J.M. Coetzee e Nadime Gordimer ou a afro-americana Toni Morrison. Há pouco li “Radiance of Tomorrow”, de Ishmael Beah, que nasceu na Serra Leoa, um país com uma história igualmente difícil. Não há um único livro destes autores que não toca duma maneira ou doutra os temas que marcaram essencialmente este continente e a sua diáspora.
As consequências e os traumas deixados pelo colonialismo nas ainda jovens nações pós-coloniais estão omnipresentes através das gerações seguintes. Não se cinge ao simples acto de ponderar sobre o passado, considerando que a sociedade europeia actual e seu sistema económico não podem ser concebidos sem as suas condicionalidades e crimes coloniais. Abrange também uma análise de onde nos encontramos hoje, uma vez que continuamos a enfrentar a existência de políticas expansionistas e racismo. No jogo de xadrez global, a hipocrisia triunfa demasiadamente sobre a humanidade, e o meu trabalho, enquanto artista, é tenta criar outra perspectiva desses eventos.
Vejamos, o “Sombreiro” no romance de Pepetela faz referência a um morro, com forma de chapéu largo, que se encontra numa baía larga de mato rasteiro e calmas águas muito longe, lá no Sul. A meu ver, o sombreiro representa o desejo de ir para outro lugar (ou situação) longe e diferente daquele(a) em que um dos personagens do romance se encontra. Representa o desejo de migrar ou de mudança física ou moral. No contexto do romance, era um lugar onde não havia brancos e conflitos armados, o que, na minha opinião, quer dizer um futuro diferente.

JC - Como foi o processo de criação do romance à exposição? Pode a exposição ser entendida também como uma releitura da obra literária em imagens subjectivas? Contudo, aliou a exposição à música e ao teatro através da performance, ao modo europeu, de Irina Vasconcelos ("O bobo da corte"). Afinal, há uma lição a ser tirada da cultura colonialista que ainda se impõe?
IC - Talvez um ou outro leitor pode fazer uma releitura através das obras, e espero sim que seja em imagens subjectivas! Mas não era minha ideia ‘ilustrar’ o romance. Os temas sobre os quais reflecti inicialmente tinham muito mais a ver com traumas transgeracionais, com o silêncio dentro das famílias. Absorvi também as experiências dos meus amigos que viveram pouco ou muito tempo na diáspora, muitas das vezes com a família nuclear ausente. Voltaram com diplomas e sotaque português, brasileiro ou como falantes de uma língua europeia, e foram confrontados cá; considerados como não sendo Angolanos por causa do sotaque ou por não falarem uma língua nacional ou por terem hábitos diferentes, o cabelo penteado de forma diferente ou esposa(o) estrangeira(o). Ao mesmo tempo, eles nunca se sentiam realmente parte das sociedades onde viveram, onde passaram o seu tempo a adaptar-se, tornando-se diferentes. O africano negro que se sente em desvantagem, o branco que nasceu com coração negro, o negro que esclarece sua pele, os mulatos ou mestiços claros a justificaram-se para um e outro lado. O racismo, subtil ou aberto, provoca este sofrimento.
Reflectindo sobre tudo isso, tive simplesmente a ideia durante a leitura de “A Sul. O Sombreiro” de voltar à raiz do sofrimento, pegar nos três poderes do tempo colonial para ilustrar o tráfico transatlântico, o triângulo Europa – América Latina – África.
O processo de criação deu-se muito lento. Levei dois anos do primeiro desenho até as obras finais, e depois perto de mais um ano para realizar a exposição. Fiz muita pesquisa sobre materiais e possíveis colaboradores, tudo foi um processo. Facto que qualquer tipo de importação é sempre um esforço e tanto, decidi produzir só as tranças em Luanda e juntar as peças finais em Viena, onde encontrei um estúdio especializado em ‘penas & costura’. É importante que os visitantes compreendam que o trabalho final é um esforço conjunto, um ‘choro’. Sem a experiência das várias pessoas envolvidas eu nunca teria essas obras.

JC - Mas há um som?
IC - O som da exposição é parte integral da instalação. Já estava a executar as obras quando vi um vídeo com um actor a imitar vozes de um pássaro. O grito estremeceu-me até aos ossos e, nesse momento, soube que queria trabalhar com isso para quebrar a beleza das peças. Tornou-se evidente que precisava de som para fazer, de vez em quando, a ligação ao horror. Fi-lo com a ajuda de Victor Gama, que encontrei por acaso em Luanda quando esteve cá para o lançamento do documentário “Trilhos da Independência”, da Geração 80. Mais tarde, convidei a Irina Vasconcelos para fazer a performance, simplesmente para ter uma ligação com Angola, ou melhor, uma voz actual de Angola. Foi uma questão de ‘carta branca’ - ela decidiu o que queria fazer e, na altura, pensei que ela actuaria sozinha, mas decidiu convidar um saxofonista e capoeiristas e trilhar um percurso entre as peças.

JC - E assim veio o Bobo da Corte?
IC - As cortes reais dos quatros cantos do mundo conheceram a figura singular do “bobo da corte”. Essa figura interessou-me não como “palhaço”, mas como voz crítica. Muitas vezes, o “bobo da corte” era a pessoa que podia reflectir ou reflectia sobre a situação do povo e dizia ao rei as verdades que ninguém ousava falar. As vezes tinham a posição importante de conselheiro da corte real. Naturalmente, sou alemã, cresci com muitos contos de fada onde essa figura apareceu. Fazia parte do meu imaginário. O uso dessa figura não foi uma imposição. Foi um convite para um diálogo com o público.

JC - No texto de apresentação há uma pergunta que nos recorda sermos filhos de vítimas e opressores. Acredita que as artes podem ser um meio e momento de diálogo útil para ultrapassar temas tabus como a escravatura e suas consequências?
IC - Não tenho certeza. Acredito que as artes conseguem fazer uma proposta de reflexão, falar sobre as feridas que fazem parte da vida humana. Idealmente, podem acompanhar o processo de superação. Cada processo de auto-conhecimento é doloroso.
As obras ‘luvas’ representam, por exemplo, a brutalidade de um passado, cuja dimensão, compreensão, aceitação e perdão são questões que precisam ser abordadas abertamente. O sofrimento causado por estes actos desumanos continuam a afectar a vida diária dos sobreviventes e seus descendentes. A este fenómeno os psicólogos chamam ‘trauma transgeracional’.
Em Angola, a colonização e a guerra civil são temas ainda pouco discutidos no seio de muitas famílias. Muitos jovens desconhecem ou pouco sabem sobre as vidas dos seus pais, avós e bisavós durante a época colonial e conflito armado. Reflectir sobre o passado é indispensável para qualquer processo de recuperação e, sobretudo, para pensar no futuro.

JC - Sendo uma europeia a residir em Luanda, acha que Luanda já aborda esse assunto com naturalidade? Em contrapartida, acredita que a actual geração europeia tem consciência das sequelas deste processo e debate-o com naturalidade e liberdade de conceitos?
IC - Ainda pouco se estudou sobre o efeito da colonização sobre os povos colonizados. Sabemos que a escravatura, o colonialismo, os genocídios, as guerras e as pressões económicas resultaram na quebra, dispersão e distanciamento dos laços familiares, comunitários e culturais de milhões de pessoas em todo o mundo, criando as diásporas. Os refugiados, emigrantes, imigrantes, exilados, expatriados e repatriados são exemplos actuais desses movimentos populacionais voluntários e forçados.
Acho que ninguém aborda assuntos tão pesados com naturalidade. Na Alemanha demorou quase uma geração antes dos jovens começarem a protestar e pedir justificações à geração dos seus pais e avós. E cá? Qualquer pessoa acima dos 43 anos tem lembranças vivas e, com certeza, pesadas do tempo colonial. Poderão ter assistido cenas humilhantes. Não é fácil perguntar a um familiar seu se tinha ou não consciência de que não era livre, se era assimilado ou não, se tinha acesso à educação ou não.
A actual geração europeia, apesar de toda a formação académica que recebe, sabe muito pouco sobre o continente africano e sua história. Falo da minha própria experiência. Eu já fui uma ignorante absoluta, nem sabia onde ficava Angola no mapa antes de começar a colaborar no projecto Camouflage com Fernando Alvim. Na escola aprendi algo sobre como o continente foi dividido numa mesa em Berlim e sobre as guerras coloniais. O resto já era só geografia. O impacto e as consequências sobre as populações? Zero. Literatura africana? Zero. Sabia que a imagem que tinha era errada; das crianças famintas, das guerras civis... até hoje os media europeus gostam de pintar a imagem dum “inferno negro”. Contudo, antes ter contacto com intelectuais africanos não tinha como rectificar essa imagem.

JC - As cores dos tecidos têm alguma simbologia ligada ao tema, ou seja, o manto imperial em verde?
IC - O verde do tecido e o esquema de cores das penas das obras baseia-se na famosa coroa de ‘Montezuma II’, soberano no auge da expansão do Império Asteca (actual México), há cerca de 500 anos, época em que ocorreram o primeiros contactos entre os povos da América Central e os europeus. Esta coroa esta feita inteiramente com penas do raro e mítico pássaro quetzal, pássaro este que o meu avô, emigrante na Guatemala no século passado, mencionou várias vezes nas suas memórias. Foi assim que me decidi sobre a cor. O facto de que as únicas penas verdadeiras criadas com preço acessível são as do pavão (os pavões não são mortos pelas suas penas. Elas são, na verdade, longas extensões das penas da cauda que caem naturalmente todos os anos, logo após a época de acasalamento, voltando a crescer no ano seguinte) levou-me à decisão de trabalhar com elas. Gostei também da ideia dos ‘olhos’ das penas, quase testemunhos mudos do horror.
No manto imperial em si, impressionante pela sua dimensão, escolhi, em vez de um símbolo de poder, realçá-lo com um desenho Sona que conta um mito sobre a nossa mortalidade. O manto inclui outros desenhos que se referem ao paisagismo europeu dos séculos passados.

JC - Que temáticas, filosofia e objectivos fundamentam o programa "A Pele do Invisível", atrelado à exposição?
IC - Estou muito feliz com o resultado do programa educativo da exposição ‘A Pele do Invisível’, que foi elaborado em colaboração com o ‘Vamos Ler!, uma iniciativa educativa privada. E quero sublinhar o trabalho extraordinário de Tila Likunzi, que desenvolveu todos os textos. Tivemos muitas discussões interessantes sobre como abordar e organizar a complexidade dos temas. Juntamos o meu olhar “exterior” com os olhares “interiores” de Tila e do André Cunha, o curador.
O programa todo gira em volta da “Identidade Cultural” ou da questão “porque somos ou que somos”.Para facilitar este trabalho, dividimos os temas em três tempos: Passado, Presente e Futuro. O foco do programa educativo é sempre a perspectivação do futuro.
Por exemplo, agrupamos os ‘Bakamas’ e a ‘Coroa Montezuma’ (que inspirou o esquema de cor das penas) no Passado, propondo exercícios como escrever uma “carta ao bisavô”, que tem por objectivo a consciencialização sobre a herança e identidade cultural. Outra proposta de exercício é “criar uma coroa”, cuja finalidade é a consciencialização sobre o artesanato e herança artesanal.
No Presente, agrupamos ‘O Som’, ‘As Luvas’, ‘A Fé’ e os ‘Jogos de Palavras’. Existem exercícios diversos como ‘sentir o som’, cujo objectivo é associar os sons aos sentimentos. Outro exercício, “Mensagem na Garrafa”, ajuda a pensar em situações que não gostaríamos que voltassem a acontecer no futuro. O objectivo é imaginar um futuro diferente. Já os temas difíceis como a migração e o trauma, abordamos com a ‘Mala de memória’, um exercício em que os jovens fazem uma lista de coisas que já perderam, abordando automaticamente a saudade. O objectivo é conhecer o próximo, o outro, o mesmo. Para ‘A Fé’ fizemos uma proposta para um Jogo de Palavras: “Antónimos & Sinónimos” com palavras-chaves como empatia, compaixão, compreensão, tolerância, perdão/intolerância, indiferença, medo, ignorância e malevolência. O objectivo é compreender o que leva à união ou divisão entre as pessoas.
No Futuro colocamos ‘O Sombreiro’, voltando à rica temática do romance, com o exercício “Cápsula do Tempo”, em que os jovens são estimulados a desenhar ou escrever um desejo, sonho ou ideia para o futuro. O objectivo é pensar em possibilidades futuras.

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