O preço da liberdade por um perpétuo escravo

Envie este artigo por email

Foi na noite que o frio beijava apaixonadamente o ambiente místico da prece, lá chegava o negro maltratado, a passos certos, que eram marcados na incerteza da noite.

Foi na noite que o frio beijava apaixonadamente o ambiente místico da prece, lá chegava o negro maltratado, a passos certos, que eram marcados na incerteza da noite, porque escura se encontrava a sua alma, no calabouço das trevas. A luz que julgava ser a verdade da razão, era a árvore dos espíritos, que sem boca enem ouvido, não falava e nem ouvia, não ouvia e nem via, mas era o oleiro da existência dos homens e dela dependiam o curso dos rios, o cair sonolento de uma folha desmembrada duma árvore qualquer, a chuva, o vento, até o crescer do milho no campo e ainda a vitória dos grandes guerreiros carecia de uma bênção de quem nem boca tinha.
O negro maltratado, farto com a vida de ser escravo, atordoado e exposto novamente aquele relento, aconchegou se à árvore como de hábito. Lentamente, porque quase não conseguia dobrar os joelhos doridos. Finalmente de joelhos oferecia suas últimas lágrimas ao pé da árvore do espírito dos antepassados.
Kundu, kundu, kundu, passos de um guerreiro mal-educado, e ainda por cima agrilhoado àmitologia, até a grosseria com que andava escarpava caminhos no meio do mato, onde o capim jamais crescia.
Pá, pá, pá, pá.Palmas soaram. O silêncio parecia ofendido, portanto, se retirava da capela.
— Ó velha Xinta, cheguei! Berrou um homem forte vestido de tanga e com um bastão forte nas mãos.
— Curro! Curro! A deusa da capela roncava em sono profundo.
— Já cheguei, já cheguei, já cheguei! Gritava angustiadamente o mal-educado, parecia estar num confronto fatal contra as forças inimigas. Pelo contrário, eram gritos de socorro, embora fosse um guerreiro, haviam sombras no seu caminho que não conseguia dissipar. Eram correntes mais fortes que os da escravidão corporal, era a escravidão perpétua duma alma acorrentada na aflição insolúvel por sua cegueira humana.
Partam! Visitas não chegavam há muito com uma boa educação. Um deles era o tal guerreiro forte que estava aí fora da capela, importunandoconstantemente o sono profundo da velha curandeira. Mas desta vez, não procurava vitória contra os seus inimigos; na verdade era outro, e talvez ele mesmo fosse o seu próprio problema.
— Acorda, senhora deusa, acorda ó velha Xinta, não consigo me sentir homem. Não consigo sentir os meus órgãos…não consigo confrontar outros homens. Não posso, os mundeles me apanham no meu estado de fraqueza, me lincham e depois me mandam forçadamente ter com os meus ancestrais, juntar-me a eles comendo terra. Mas isso é que não pode acontecer. Não os posso dar esta graça de zombarem de um guerreiro das terras negras. O meu problema é grave, mas sei que me podes dar a solução. Concluiu.
— Oh forte do Luangu, a deusa sentiu a tua aflição desde lá por onde vinhas. Já queimavas com a força da tua aflição o último capim que tinha sobrado na aldeia. Um guerreiro é sempre cheio de esperanças. Aguarde, vou ouvir o que os deuses têm a dizer acerca disso. Com estas palavras lhe recebeu a curandeira.
Preces e preces, a curandeira adormeceu outra vez! Kixi, kixi, kixi, kwa, kwa, kwa. Onomatopeica com os deuses, quase acordava o maior diabo debaixo do horizonte…os xitembes e os do kemba que gostavam de domar os guerreiros, torná-los seus escravos e por fim, possuir a terra. Aquela hora era certamente uma hora de vingança contra qualquer inimigo e do alcance dos segredos profundos como do coração do rio.
— Vai logo, encosta te ali. Apontou no escuro por onde estava o negro maltratado, há horas que não sentia algum cheiro do calor humano, só o vegetal lhe rodeava cegamente.
— Onde? Perguntou ele.
— Ali perto daquela árvore. Esclareceu. Indicou-lhe à vista da capela onde jazia a árvore das soluções. Lá estava em prece interminável o negro maltratado.
Sentiu uns passos, e num dos ângulos dos sexto sentido, apercebeu-se que alguém estava a se aproximar. Os passos do guerreiro aflito carregavam medo inevitável ao coração do negro maltratado, que batia mais forte que uma corrida de cavalos, por quanto mais barulho produziam. Num instante, julgou ser a resposta das suas preces, mas pela forma como o pequeno clarear da lua descrevia a estatura do homem que vinha a uma curta distância, pensou que seria uma resposta de morte.
— Ai! Ai! é agora! Exclamou em gémidosinespremíveis enquanto mordia irracionalmente os dedos da mão. —NganaNzambiwa zulu por favor, deixe o teu servo morrer na terra donde lhe tiraste. Implorava à árvore com os olhos possuidos de medo ao homem que vinha em sua direição. Talvez doutro modo, julgou ser um nkuia.
Perto da árvore das soluções, a pequena luz apresentou o guerreiro claramente aos olhos esguichados do maltratado.
— Afinal és tu, ó guerreiro do Luangu! Exclamou ele assustado. Respirava fundo, o coração quase saía por fora.
Todos aí conheciam o guerreiro, pela sua bravura e mal educação, mas da sua fraqueza ninguém sabia.
— Então o que fazes aqui, senhor guerreiro? Perguntou-lhe o negro maltratado na embriaguez do susto pregado.
Ficou surpreso o guerreiro do Luangu. Não esperava encontrar aí outra pessoa que o conhecesse. Vir de vez em quando consultar a velha curandeira era o seu segredo mais profundo, e nunca queria que alguém o soubesse.
Pôs o seu bastão na terra e ajoelhou-se calado ao pé da árvore onde estava o maltratado.
E de repente perguntou, — Há quanto tempo estás aqui homem da aldeia?
— Desde que sou um escravo. Respondeu amargurado.
— O que procuras então? Perguntou-lhe o guerreiro. Continuou a falar. —Eu, falava o guerreiro, ...fui indicado aqui pela velha curandeira para encontrar a minha solução.
— Um guerreiro não tem problemas senão com a paz do seu povo. Que problemas mais estariam a comer por dentro a alma negra de um guerreiro? Tu e os teus companheiros de batalha afugentaram os inimigos que tentaram apoderar se das vossas terras, fugiram e nunca mais voltaram. Disse o negro maltratado.
— Mas eles prometeram voltar. Corrigiu-lhe o guerreiro. Mandaram mensageiros levar palavra à aldeia inteira, dizendo que se não negociarmos dentro de duas luas, as nossas maninhangas serão incendiadas e se expropriarão das nossas mulheres e filhos e nós seremos seus escravos.
— Mas tu és um guerreiro, não deves temer a batalha. Eu sou um simples escravo, longe da família. Venho das terras do Vumba, donde fui levado cativo, e agora estou aqui a comando de um xitembe, padecendo de fome e sede, sem direitos, nem sei quando voltarei a ver a minha família do outro lado, do lado oposto ao poente.
— Quem é o teu dono? E onde fica a tua tenda? Perguntou-lhe o guerreiro.
— Perto do rio. Continuou. Não o rio do Luangu, o daí do Mubaxi. Eu tenho vindo aqui já a um bom tempo. Conheci esta árvore por meio de um outro escravo quando também me tornei um.
— E tu fugiste da tua tenda neste momento?
— Não, não fugi. O nosso Xitembe tem homens por todo lado, bordando os rios e os caminhos da mata, só aqui eles não conhecem. Mas não posso ficar aqui por muito tempo, devo voltar ao meu trabalho das terras logo pela manhã.
— E como chegou até aqui? Tornou a perguntar-lhe o guerreiro.
— Um outro escravo foi quem me deu a cobertura, e já deve estar com a corda no pescoço à minha espera, devo voltar logo, antes que ele seja linchado por minha causa se o controlador souber disso.
— Não, espera. Não podemos voltar assim. Somos irmãos. Se a velha nos mandou vir cá é porque a solução deve estar por algum lugar mesmo aqui. Disse o guerreiro no crivo da crença.
— A minha solução é a liberdade. A solução de todo escravo é retomar a sua liberdade. Eu só quero a minha liberdade e por ela daria o que for preciso. E aqui eu não encontro a liberdade a menos que a minha alma se refrigere nas preces ao Nzambiwa zulu até que eu encontre o caminho de sair daqui e voltar para minha terra.
…Naquela noite, os dois aflitos decidiram encontrar a solução dum e do outro.
A luta estava a se aproximar à povoação do Luangu, e o guerreiro precisava se sentir homem para lutar contra os outros homens e dar vitória ao seu povo novamente. E o negro maltratado precisa voltar a sua terra e ver a sua família, precisava mais que tudo a sua liberdade impossível.
Segundo reza a tradição, ali mesmo debaixo daquela árvore, a solução para todos os problemas era encontrada.
Então eles estavam presos na oração à tradição da maneira como entendiam a tradição. Mas os antepassados que ditaram a tradição sempre foram felizes nas suas doutrinas, nos seus alicerces, embora que os homens do futuro não a entendam como deva ser; a tradição deve ser resultado de uma interpretação corrigível feita pelos homens sábios e não pelos tolos.
O guerreiro do Luangu, apesar das vitórias que concedia ao povo pela sua mão forte como segurava o bastão e outros instrumentos de combate, não tinha crescido com os pais e por isso não tinha sabistania, era orgulhoso e gritava até com os mais velhos da aldeia, dava represálias a quem quisesse. Estes, o não podiam fazer nada porque temiam a sua força. Mas num dia foi castigado com a perca dos seus órgãos, e ali estava a sua fraqueza como homem.
Voltaram juntos até a capela.
— Senhora curandeira, nós encontramos a solução. Disseram ambos, cheios de ânimo.
A solução foi que o negro maltratado aceitou doar os seus órgãos ao guerreiro, para este ir salvar o seu povo e o guerreiro conseguir fazer o negro escravo escapar e fugir de volta à sua terra.
A curandeira aceitou a ideia. Naquela mesma noite se fez a operação . E tão logo às madrugadas do dia seguinte, as feridas já estavam curadas, o guerreiro ergueu-se, já homem, segurou no seu bastão e livrou uma batalha contra os homens do xitembe que se encontravam na parte nascente da capela da curandeira e fez fugir o negro escravo e este voltou à sua terra separado por um rio que conseguiu atravessar por meio de pau a pique.
Daí o negro retomou a sua liberdade e o guerreiro reconheceu que a solução de um problema pode estar onde não julgamos e com quem não imaginamos, e que os outros nos completam por quanto tambémexistem pela metade.
“Mas a liberdade tem um preço difícil de se imaginar.” Disse o negro escravo enquanto partia.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos