O real do ficcional nas telenovelas

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Subir na vida tem um preço em “Windeck”

Toda e qualquer obra de arte, independente do seu papel de entreter, educar, sensibilizar ou apelar, dentro das várias correntes artísticas existentes, ­ impressionismo, expressionismo, realismo, surrealismo ou modernismo ­ não é senão arte, a distinção do belo e o feio, bom e o mau, agradável ou desagradável.

Quer seja uma música, um romance, uma peça de teatro, um quadro, uma coreografia que espelha determinado ritual de um povo, mesmo que tenha sido inspirado em factos reais, passará a ser a transposição, uma cópia ou reprodução aproximada da mesma realidade, por mais verosímil que seja.

O mesmo acontece com uma novela, um filme ou uma série, ao retratar a vida de vários personagens interpretados por atores que emprestam o seu corpo e voz, de forma a tornar mais real a obra, pois quando "realizados com talento podem proporcionar uma ideia não menos exaustiva e mesmo mais completa sobre a cultura do povo do que certos volumes sólidos saturados de números e tabelas" (I. SAVRÃNSKI 1986, p. 4).

Não é por acaso que as novelas brasileiras, de certa maneira têm influenciado o comércio angolano, ditando as tendências da moda, a forma de vestir das mulheres de Angola, levando centenas de vendedoras informais a atravessarem o Atlântico e desembarcarem em São Paulo, à procura de mercadorias para revender em Luanda, tudo fruto da persuasão exercida pelos modelos das atrizes.

Os realizadores cedo compreenderam que "persuadir os destinatários é um objeto possível, se a forma e a organização da mensagem forem adequadas aos fatores pessoais que o destinatário ativa quando interpreta a própria mensagem" (Wolf, 2002, p.34).

A maioria das pessoas que assistem as telenovelas viveu situação parecida com a dos personagens ou conhece alguém que as viveu. Paixões, infidelidades, amor, ódio, morte, são temas de novela e, ao mesmo tempo, fazem parte de nosso dia-a-dia.

Diante disso, como afirma Zacariotti e Costa, os empresários tiram proveito da atenção que a sociedade dá à telenovela e introduzem o merchandising comercial, como um meio para oferecer os seus produtos [...] (2006, p. 4).

A telenovela como história de ficção é desenvolvida para ser apresentada em televisão, com base em determinadas características. Uma delas é a sua divisão em capítulos, em que o seguinte é continuação do anterior.

Ela pode ter a duração de seis a dez meses de exibição, por isso há todo um cuidado na preparação de cada cena, no que toca ao espaço físico e cronológico onde se desenrolam, assim como as características que marcam os traços de cada personagem, os rasgos físicos e psicológicos dos vários momentos históricos.Mas, para que o público acredite e se convença, é importante que cada ator cumpra fielmente o seu papel, transmitindo a emoção verdadeira no momento certo, sendo ele um vendedor de emoções, como adianta Aloysyo Filho ao afirmar, "certamente que ao ir a um teatro, a um cinema ou ao ligar a televisão, o espectador se transforma, deixa de ser aquele ser humano que poderíamos classificar como normal para se transformar num ávido e intolerante caçador de emoções" (2006, p. 62).

As novelas, assim como os filmes, a sua trama vem carregada de ação dramática com o desenrolar das personagens até ao desenlace da história no último capítulo.

Há os núcleos das personagens que interagem e contracenam no mesmo cenário, uma casa, uma empresa, uma escola, enfim, onde vão viver várias situações.

Dentre elas temos os protagonistas, os bons da fita e seus adjuvantes, que tudo fazem para ajudá-lo a atingir o seu objeto, aos antagonistas que são os maus da fita, e seus oponentes, que impedem os protagonistas de alcançar o que almejam.

Tudo dentro de uma trama forjada e conduzida pelo autor da novela e um grupo de argumentistas. Muita das vezes, as ações dos antagonistas, vulgo "bandidos", são tão marcantes, o que faz muitos espectadores se reverem nelas e adotarem posturas iguais, que vêm a se revelar nefastas.

Ao assistir a uma novela, é importante que se faça um perfeito juízo, porque tal como é a vida, numa obra de ficção não se foge à regra, nela encontramos pessoas boas e más.

“Em "Windeck", muito mais do que aquilo que a música de Cabo Snoop narra, o seu enredo gira à volta do que as pessoas são capazes de fazer para ter sucesso na vida e ganhar dinheiro da forma mais fácil, sem medir as consequências.”

No entanto, não se pode tirar partido das coisas negativas em detrimento do bom exemplo que a novela traz, através da mensagem passada nas entrelinhas das representações de cada personagem, como até aqui se tem feito.

A título de exemplo, a novela brasileira Malhação que teve estreia de exibição em Angola no ano de 2010, pela TPA - Televisão Pública de Angola, que fora retirada do ar por alegações de que estava a influenciar a atitude da juventude em práticas como namoro nas escolas, uso de bebidas alcoólicas e incentivo à violência.O mesmo aconteceu com a exibição em Angola de "Cidade de Deus", um filme brasileiro de 2002, dirigido por Fernando Meirelles, e o filme angolano de 2007 "Assaltos em Luanda" realizado por Henrique Narciso `Dito' onde, em vez de se retirar os aspetos positivos, os jovens acabaram por seguir práticas reprováveis.

Talvez por má interpretação da mensagem, que em muitos casos são sempre subjetivas, dependendo de cada direção, como defende Roubine, ao afirmar que a direção "é a arte de colocar o texto numa determinada perspetiva, dizer a respeito dele algo que ele não diz, pelo menos explicitamente; de expô-lo não mais apenas à admiração, mas também à reflexão do espectador" (Roubine, 18801980, p. 41).

Há assim o objetivo de transmitir uma mensagem através do seu género, dramático ou cómico, no caso de um produto de ficção como a novela "Windeck", com exibição no Canal 2 e simultaneamente na TPA internacional, num total de 120 capítulos, sobre a realização de Luís Pamplona e direção da Semba Comunicação dirigida por Coréon Dú, desenvolvida por um elenco de 25 actores com rostos conhecidos do teatro e de trabalhos apresentados pela TPA, Canal 2 e Zimbo.

Esperemos que os telespectadores possam tirar bom partido dela, e que, com esta telenovela, possamos doravante contar com mais produções do género, o que de certa forma ajudará à criação de postos de emprego para os jovens, visto que cada equipa técnica de uma novela pode abarcar mais de 50 pessoas e um elenco com mais de 60 atores, dentre principais a figurantes.

O que certamente será uma mais valia e incentivará o arranque do Centro de Produção do Camama, que não apresenta conteúdos ficcionais desde a sua inauguração em Setembro de 2008, e vir a relançar a TPA, neste segmento, para a sua retomada na realização de novelas angolanas, iniciadas com a telenovela "Minha Terra Minha Mãe", rodada na sua maioria no Brasil em 2008.

E seguir o exemplo de produtividade da Rede Globo, que ocupa o segundo lugar em exportações de novelas para o mundo, perdendo apenas para a Televisão do México .

Pois o telespectador que se encanta com as novelas da Rede Globo e os filmes estrangeiros é o mesmo que critica os trabalhos feitos pelos angolanos. Como participante ativo, deste "meio frio" que é a televisão, na classificação de Mcluhan, "[a televisão] costuma exigir ou favorece a nossa intervenção, engendrando situações que nos estimulam a preencher as lacunas de sentido deixadas pelo conteúdo transmitido" (Rudiger, 2011, p. 123).

O telespectador exige a mesma qualidade, sem se importar se existem em Angola escolas de artes, se a produção de ficção é sequencial, se o investimento tem sido regular ou, mesmo, se os atores hoje podem viver da representação.

Em "Windeck", muito mais do que aquilo que a música de Cabo Snoop narra, o seu enredo gira à volta do que as pessoas são capazes de fazer para ter sucesso na vida e ganhar dinheiro da forma mais fácil, sem medir as consequências. Veio com o propósito de lançar a reflexão sobre a escolha que temos de fazer para alcançar os nossos objetivos de vida, nem sempre pela via dos esquemas, dos embustes e do facilitismo, mas muito mais pela via do carácter, do bom trabalho honesto e da transparência.

A trama gira à volta do dia-a-dia da redação da revista social Divo, com todos os conflitos inerentes aos meandros da beleza e da jovialidade. Traz temas didáticos e de marketing social, como doenças venéreas, homossexualidade, etc., tendo como pano de fundo o glamour da sociedade angolana, através dos eventos sociais que a revista relata e pretende mostrar do que as pessoas são capazes para atingir determinado status.

Mesmo que o ficcional se tenha baseado em determinado facto real, ainda assim a realidade chega a ser mais forte e comovente.
Enquanto isso: Som, luz, câmara... Ação!

Referências

FILHO, Aloyzyo, Manual de Interpretação para Televisão, Novo Imbondeiro, Lisboa, 2006.
I. SAVRÃNSKI, A Cultura e as suas Funções: originalidade e diversidade da cultura, Edições Progresso, Moscovo, 1986.
RUDIGER, Francisco, As Teorias da Comunicação, Penso, Porto Alegre, 2011.
ROUBINE, Jean-Jacques, A Linguagem da Encenação Teatral, Zahar, Rio de Janeiro, 18801980.
WOLF, M. Teorias da Comunicação. 7. Ed. Lisboa, Presença, 2002.
ZACARIOTTI, Marluce; COSTA, Vanessa Ferreira, Telenovela e Merchandising Social: ficção e realidade, UNIrevista - Vol. 1, n° 3: 2006.

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