O real do ficcional nas telenovelas

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Subir na vida tem um preço em “Windeck”

O mesmo aconteceu com a exibição em Angola de "Cidade de Deus", um filme brasileiro de 2002, dirigido por Fernando Meirelles, e o filme angolano de 2007 "Assaltos em Luanda" realizado por Henrique Narciso `Dito' onde, em vez de se retirar os aspetos positivos, os jovens acabaram por seguir práticas reprováveis.

Talvez por má interpretação da mensagem, que em muitos casos são sempre subjetivas, dependendo de cada direção, como defende Roubine, ao afirmar que a direção "é a arte de colocar o texto numa determinada perspetiva, dizer a respeito dele algo que ele não diz, pelo menos explicitamente; de expô-lo não mais apenas à admiração, mas também à reflexão do espectador" (Roubine, 18801980, p. 41).

Há assim o objetivo de transmitir uma mensagem através do seu género, dramático ou cómico, no caso de um produto de ficção como a novela "Windeck", com exibição no Canal 2 e simultaneamente na TPA internacional, num total de 120 capítulos, sobre a realização de Luís Pamplona e direção da Semba Comunicação dirigida por Coréon Dú, desenvolvida por um elenco de 25 actores com rostos conhecidos do teatro e de trabalhos apresentados pela TPA, Canal 2 e Zimbo.

Esperemos que os telespectadores possam tirar bom partido dela, e que, com esta telenovela, possamos doravante contar com mais produções do género, o que de certa forma ajudará à criação de postos de emprego para os jovens, visto que cada equipa técnica de uma novela pode abarcar mais de 50 pessoas e um elenco com mais de 60 atores, dentre principais a figurantes.

O que certamente será uma mais valia e incentivará o arranque do Centro de Produção do Camama, que não apresenta conteúdos ficcionais desde a sua inauguração em Setembro de 2008, e vir a relançar a TPA, neste segmento, para a sua retomada na realização de novelas angolanas, iniciadas com a telenovela "Minha Terra Minha Mãe", rodada na sua maioria no Brasil em 2008.

E seguir o exemplo de produtividade da Rede Globo, que ocupa o segundo lugar em exportações de novelas para o mundo, perdendo apenas para a Televisão do México .

Pois o telespectador que se encanta com as novelas da Rede Globo e os filmes estrangeiros é o mesmo que critica os trabalhos feitos pelos angolanos. Como participante ativo, deste "meio frio" que é a televisão, na classificação de Mcluhan, "[a televisão] costuma exigir ou favorece a nossa intervenção, engendrando situações que nos estimulam a preencher as lacunas de sentido deixadas pelo conteúdo transmitido" (Rudiger, 2011, p. 123).

O telespectador exige a mesma qualidade, sem se importar se existem em Angola escolas de artes, se a produção de ficção é sequencial, se o investimento tem sido regular ou, mesmo, se os atores hoje podem viver da representação.

Em "Windeck", muito mais do que aquilo que a música de Cabo Snoop narra, o seu enredo gira à volta do que as pessoas são capazes de fazer para ter sucesso na vida e ganhar dinheiro da forma mais fácil, sem medir as consequências. Veio com o propósito de lançar a reflexão sobre a escolha que temos de fazer para alcançar os nossos objetivos de vida, nem sempre pela via dos esquemas, dos embustes e do facilitismo, mas muito mais pela via do carácter, do bom trabalho honesto e da transparência.

A trama gira à volta do dia-a-dia da redação da revista social Divo, com todos os conflitos inerentes aos meandros da beleza e da jovialidade. Traz temas didáticos e de marketing social, como doenças venéreas, homossexualidade, etc., tendo como pano de fundo o glamour da sociedade angolana, através dos eventos sociais que a revista relata e pretende mostrar do que as pessoas são capazes para atingir determinado status.

Mesmo que o ficcional se tenha baseado em determinado facto real, ainda assim a realidade chega a ser mais forte e comovente.
Enquanto isso: Som, luz, câmara... Ação!

Referências

FILHO, Aloyzyo, Manual de Interpretação para Televisão, Novo Imbondeiro, Lisboa, 2006.
I. SAVRÃNSKI, A Cultura e as suas Funções: originalidade e diversidade da cultura, Edições Progresso, Moscovo, 1986.
RUDIGER, Francisco, As Teorias da Comunicação, Penso, Porto Alegre, 2011.
ROUBINE, Jean-Jacques, A Linguagem da Encenação Teatral, Zahar, Rio de Janeiro, 18801980.
WOLF, M. Teorias da Comunicação. 7. Ed. Lisboa, Presença, 2002.
ZACARIOTTI, Marluce; COSTA, Vanessa Ferreira, Telenovela e Merchandising Social: ficção e realidade, UNIrevista - Vol. 1, n° 3: 2006.

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