O regresso de Carlos Lopes

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O músico está de volta ao mercado com uma proposta madura e muito pessoal

O regresso de Carlos Lopes

"Angola, noites e luas" é o título do CD do músico angolano Carlos Lopes, apresentado ao público em 2002, reeditado agora para deleite dos ouvidos dos que têm bom gosto e sabem apreciar música de qualidade ímpar.

A reedição deste disco acontece na senda do lançamento do seu novo trabalho discográfico, intitulado “Angola, mares e lagoas”, um CD recomendável aos que gostam de música acústica tecida com destreza de mestre.

Com “Angola, noites e luas” Carlos Lopes propõe-nos uma viagem de primeira classe ao seu imaginário, cujas reminiscências, várias vezes, atravessam uma Angola com os olhos embutidos de lágrimas.

Mas foi no sorrir da paz, em 2002, que o artista nos brindou com temas de boas notas para reflexão. Reflexão imperiosa sobre os desastres da guerra, sobre o alvorecer da paz, sobre a beleza das noites e luas e sobre a textura do amor cantado.

Para mim, Carlos Lopes, antes de músico, é o poeta, o escultor da palavra cantada, o pintor do verbo que faz dançar. As suas músicas são espirituais na medida em que frisam um país de pranto em pranto, lembrando, não raras vezes, o Bié e o Huambo chicoteados pelos canhões da guerra civil.

Um exímio compositor que conjuga as estiagens de Cabo Verde com as acácias floridas de Benguela, na música número cinco do disco “Angola, noites e luas”.

Depois vem o músico, o artista do ritmo e dos acordes, o mestre dos arranjos vocais. Um músico de primeira linha da angolanidade. Um engenheiro eletrónico de formação que faz da música o seu estandarte e baluarte de afirmação no mosaico cultural angolano, pleno e diverso de potencialidades.

A sua coloração musical aproxima-se à de André Mingas e Filipe Mukenga, dois clássicos nossos, sem sombra de dúvidas, que cantam com substrato de jazz atravessando o nosso folclore.

Carlos Lopes sabe, melhor que ninguém, dar testemunho de si neste trabalho: “quando cai a noite, em Angola, e o silêncio invade o meu redor, a guitarra torna-se, muitas vezes, a minha companhia”.

“A lua e as estrelas”, sublinha o músico, “são quase sempre os únicos espectadores deste casamento repetido. E o disco ‘Angola, noites e luas’ é o resultado deste cenário”, remata.

Mas este cenário é também um ponto de encontro, de um namoro coma tradição e a memória dos povos da sua terra.

Os seus temas, imbuídos de lirismo, revelam a simplicidade do cantor perante a convivência e as controvérsias da vida. Revelam mais: a humanidade de quem escreve um poema e canta-o, fazendo expor a dualidade plástica do artista:

um dia atraco
no teu porto
e vou esquecer
minha cidade
tiro rosas do teu rosto
e planto na minha herdade
viro lavrador
descontraído
com semente e viva alma

(Estrofe do tema “Amar o mar”)

Aprecie-se a dicção chique (ou “chic!”, como prefere escrever a cantora brasileira, Paula Lima, herdeira e intérprete do espólio da Bossa Nova) do um bundo pronunciado de Carlos Lopes no tema Unandalê, que chora as desgraças da guerra.

O novo disco de Carlos Lopes, “Angola, mares e lagoas” com 12 temas interpretados em português, umbundo e nhaneca, entre baladas, bossa nova e fusão de semba com jazz, foi lançado no largo da LAC nos dias 16 e 17deste mês.


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