OK: as distintas naturezas do presente

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O "OK" no título não é apenas ausual exclamação afirmativa numa vaga confirmação de que os tempos são outros. É, na verdade, a assinatura presente nas 21 obras apresentadas

(imagem de Destino e Natureza(2018, óleo s/tela, 103x177)

O "OK" no título não é apenas ausual exclamação afirmativa numa vaga confirmação de que os tempos são outros. É, na verdade, a assinatura presente nas 21 obras apresentadas recentementena Galeria Tamar Golan, em Luanda. O artista é OliveiraKabassu (OK) e está é sua primeira exposição individual.
O conjunto da obra, apresentado com o título Destino e Natureza, examinaa adoção de naturezas distintas no comportamento humano e nas suas predições sobre o tempo. Estabelece associações, através da compacidade das imagens, com as transformações contemporâneas.
Trabalhando essencialmente com óleo sobre tela, a sua técnica a apresenta as figuras ora num processo de desintegração, ora num processo de fluidez. Este resultado é obtido através do efeito de rachadura aplicado sobre a tela, o que permite dar maior densidade às imagens e força expressiva através do splash.
Profundamente envolvido com os valores tradicionais, a perspectiva dialogista das suas obras aparece em casos comoCultura em Risco(2018, óleo s/tela, 85x102), onde reivindica uma noção de cultura que transcende para ambiguidade, ou em Candengues da Minha Banda(2018, óleo s/tela, 93x110) que recai sobre o desuso de brincadeiras estritamente ligados ao período da infância e sua substituição.
(imagem de Cultura em Risco(2018, óleo s/tela, 85x102)
Na peça homónima à exposição, Destino e Natureza(2018, óleo s/tela, 103x177) enquadra-se nas discussões frequentes relacionados com as alterações climáticas, figurando a fragilidade vinda do processo de aquecimento, assim como revê a Responsabilidade Masculina (2018, óleo s/tela, 120x118) diante estas questões e diante da protecção: da existência do outro, da conservação do seu habitat e da sua herança.
E é com A sombra da minha mãe(2018, óleo s/tela, 93x100) que reverte a sua narrativa, onde se envolvem as dificuldades da infância, representado pelo desaparecimento do rosto materno, e o traduz numa forma de protecçãomarcado pela sua sombrae recorrendoà luminosidade da memória para figurá-la.
(imagem de A sombra da minha mãe(2018, óleo s/tela, 93x100)
OK mantém uma ambição temática de chamar atenção pela constância destes assuntos a nível dos círculos intelectuais e da academia durante os últimos anos. Estamos lembrados disto através das ideias defendidas por Guy Debord, no seu La societéduspectacle, falando da apropriação pelo homem da sua própria natureza através de uma consciência histórica. Ou ainda mais recentemente com o ensaio La civilizaciondelespectáculo do escritor peruano Mario Vargas Llosa, prémio Nobel em 2010, defendendo o rompimento contemporâneo com referências culturais concretas pela propagação do conformismo, complacência e da autossatisfação diante as dúvidas e perplexidades diante a condição e os destinos humanos.
As figuras de Oliveira Kabassu movem-se através do espaço, mas perdem-se na transferência entre o passado e o que consiste em presente. A obra de OK verte-se, com algum zelo, a examinar as transformações do tempo ou da reformulação dos destinos da humanidade, aplicando a sua força imagética, desintegrada e fluída.

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