“Os homens elásticos” ou a impressionante plástica da ossatura

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De tão dado como impossível, ora espanta, ora amedronta ver Estêvão aproximar o rosto quase até à linha das nádegas e a nuca quase na linha das virilhas, Israel fazer o calcanhar atingir a nuca, Smith fazer o queixo e as nádegas estarem de frente a ponto do primeiro se servir do segundo como se fosse sua mesa, e Luís se encolher até todo o seu corpo se juntar e ganhar um forma circular.

Luis

Todo este "feitiço" tem nome próprio: contorcionismo e a sua possibilidade advém da impressionante plástica da ossatura humana.

O que é afinal o contorcionismo? Teoricamente, aceita-se que é antes "uma arte circense que atesta a flexibilidade do corpo". Mas esta noção académica esmorece quando assistimos ao espectáculo. Porque não é apenas flexibilidade: é desbravar segredos da nossa maleabilidade corpórea e é um contrariar do conforto e finalidade a que destinamos ao corpo.

"Os homens elásticos" são os pioneiros do contorcionismo nas nossas terras. Já foram notícia por várias vezes. Antes de serem conhecidos pelos média, já faziam as suas apresentações nas ruas de Cabinda.

O grupo já existe há oito anos. Começou em Belize, província de Cabinda. Foi neste município onde havia uma academia de contorcionismo. Israel, Smith, Estevão e Luís se tornaram atletas dedicados. Tinham entre os 8 e 10 anos. A contarem com menos de 25 anos de idade, têm uma prática de mais ou menos metade das suas idades.

Eram os "responsáveis" pela alegria e admiração de muitos citadinos que casualmente encontravam o grupo. O preconceito também imperava. Afinal, são acrobacias que aprenderam a ver pela televisão, e quase sempre feita por gente dos grandes circos internacionais onde o impossível era uma questão de óptica.

Em Luanda recordam com orgulho as apresentações na Ilha do Cabo e no Aeroporto. Acharam que a capital seria o espaço ideal para a sua afirmação.

É unânime entre eles que o melhor momento foi aquando do CAN 2010, em que chegaram a apresentar os seus números a uma plateia diversa e confirmam a necessidade de outras organizações solicitarem mais trabalho. Marcou bastante. Trabalharam no meio da gente, e as pessoas ficavam deslumbradas.

Mesmo assim não apareceu nenhum apoio. Houve pessoas que manifestaram a intenção, mas até agora ainda nada decidem.

2001 foi outro momento memorável. O grupo fez as suas apresentações no Campo Mário Santiago e chegou a ser assistido por uma plateia distinta, saindo daí a promessa de um espaço que também não chegaram a receber. Agora, aos domingos, dois deles actuam ali na praia da Ilha de Luanda, a ver se angariam alguns fundos de sobrevivência.

O que fazem não é direccionado às competições, porque estão ainda a propor um exercício que é uma novidade para muitos angolanos, sabendo que não temos a cultura de produzir esta modalidade.

Mas isso não os inibe. Conhecem as suas qualidades e almejam atingir as coisas que merecem. Por isso ensaiam com muita dedicação e zelo. Montam grandes números como o bafejo, que é um número de grande risco e que exige um grande grau de flexibilidade. Para chegar a dobrar requer muita experiência e domínio de números (posições) menos arriscados, que devem ser exercitados para manter e desafiar a extensão do corpo.

Quanto à alimentação não há mitos, garantem que comem de tudo: "como toda a gente qualquer", brincam.  Normalmente ensaiam duas vezes por dia, nas primeiras horas e no final do dia.

O grupo praticamente trabalha sem apoio. Vive de auxílios de pessoas que simpatizam com ele. "Não temos aquela pessoa que tem amor pelo grupo e garanta a logística e deslocações. Mas estamos abertos", apelam.

Os números são montados por todos, mas Smith é o que mais aptidão tem. É ele que determina como o número deve acabar, nas noites e manhãs que desbravam com arte os segredos da natureza corporal

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