Paisagens Propícias da Companhia de Dança Contemporânea

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Falaram-me dos baús vermelhos.

Visitar a vida e obra de alguém desaparecido é um exercício de extrema dificuldade. Leituras, imagens e vozes de outras pessoas vestidas de emoção, são a margem de onde apenas se espreita esse território que não se domina.

Numa dessas incursões deparei-me com os baús vermelhos;

Paisagens Propícias, é um espetáculo de dança que vai beber à obra de Ruy Duarte de Carvalho, cujo universo abrange um largo espectro de produção artística e constitui uma abundante fonte de matéria criativa.

Os baús vermelhos que o Ruy Duarte de Carvalho deixou à guarda de um amigo.

Se por um lado as vivências singulares deste antropólogo angolano são, em si, algo que não pretendemos representar, por outro, constituíram um sólido ponto de partida para a recriação de outros universos ou paisagens; para especulações criativas que vão de encontro ao próprio espírito essencial e constante da sua vida.

As cores e calores da terra que tão bem bebemos da sua obra, remetem-nos para a vida por detrás da paisagem ou do ser que respira dentro dos corpos nutridos pelo labor das colheitas e do gado.

Com os intérpretes da Companhia de Dança Contemporânea de Angola, mergulhamos nesse rio que corre a sul.

Filtrados pela superfície da linha de água, escutamos vestígios de sons, gestos e cores que trouxemos à tona embrenhados nos corpos e almas; essa humidade de um novo mundo, sinfonia adiada dos seres humanos.

Naquele dia ousei abrir os baús...

Através do processo, fizemos um caminho de retorno ao essencial. Despimo-nos de lugares comuns e apontamos às variações do coração humano, às suas objetividades e contrariedades. Nasceram novos territórios de representação, alegorias de espaços e geografias, origem de todas as coisas.

Demo-nos por isso "a um grande labor", para adequar os nossos gestos que passo a passo se revelavam, à condição das imagens que adoptamos da sua escrita; dos seus filmes; dos seus desenhos; da sua fotografia; dos seus diários de campo e do seu olhar - que tão generosamente nos chegou através das palavras de quem com ele cruzou a vida.

(...) há gestos que repetem
outros gestos
e corpos velhos
a temperar a juventude e outros.(...)
Ruy Duarte de Carvalho: Do canto da rola não se extrai o tempo...

Fechei cada baú com a decisão de não mais os abrir, porque há coisas que devem permanecer fechadas.

Para a minha filha Leonor Luanda, Outubro de 2012




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