PAPÉIS DE HILDEBRANDO DE MELO HIERÓGLIFOS DA IDADE DIGITAL

Envie este artigo por email

Dos papéis eloquentemente amarelecidos de Leonardo da Vinci levantam voo máquinas, esquissos de cavalos, o brilho sereno da maçãs e um homem vitruviano crucificado à quadratura do círculo.

O Artista Plástico Angolano Hildebrando de Melo Fotografia: Jornal Cultura

Arte e estética gregas a abrir os vastos portões do Renascimento.
Agora e aqui, neste país chamado Angola, Hildebrando de Melo (HM) recorta, sublinha e sobrepõe papéis e tintas frescas de íntimas navegações que repescam o acúmulo de representações da Dor, do Regozijo, do Espanto, do Sonho e da Ilusão em finos traços de legar à Humanidade hieróglifos da Idade Digital, pictogramas neoimpressionistas alados a uma asa rectangular de gaivota. Ficção invertebrada, com o seu exosqueleto de indiscreta maturidade. Confidencialidade imprevisível. Mecânica animalidade. Estruturalismo espacial na intensa navalha do traço.

O cais de partida são os papéis da Mutamba, naufrágio de olhos e dentes, Nagrelha, a prostituta de seios verticais, despida com o vestido vagaroso da noite, Dor plana como uma savana de alumínio.
Papéis permeáveis à sede dos caminhos subterrâneos da livre nomenclatura vão até ao fundo da memória, reconstruindo a estrutura mental do Sonho adormecido no Sambizanga. Urbanização do silêncio. A pele canta, enquanto o som escorre, vermelho.
O artrópode rectilíneo inaugura a Ilusão do quadro vivo que pinta quem o observa, com o lápis castanho quase-beije, vermelho caqui e cinza. O momento explode, imanência enrolada sobre si mesma, luta contra o próprio provocador, ele e o outro inexoravelmente o mesmo, o uno nas órbitas redentoras do pós-guerra. Nesse Mbilo hormonal, as cores exalam das glândulas Vírus como chaves de encaixes expansivos, cujos dentes sabem a certas solidões milenares encapsuladas nos botões do Nada. De fio a pavio, o céu vaza o seu coração plano, vermelho baço como um poço fílmico, Caverna de Platão onde nos deparamos, imóveis, música a deslocar-se em padrões pré-fabricados (face like #), os dentes na (des)bestialização do pasto, até à virularização do vermelho latu senso, branco-rosa e pátina negra (47). Pavio em chamas?, ou já carbono líquido de um dinossauro que ainda sabe cantar. Escala 7: duas manhãs caminhando pelo pé de um rio de palavras rectas. De olho no vermelho: quem tem olhos de nunca ver a própria alma, agarra-se às alturas de um por do sol, enquanto as luas rectangulares desaparafusam os guindastes do céu. Spam: leque arejando os espelhos da imensa coloração da Terra: pemba encarnada. A Arte também tem boca. E quem tem boca vai ao alfabeto das imagens cortar ao W as hastes germano-saxónicas, pentear a mudez dos seus traços. Dessa operação, cai uma lágrima, pedaço de pátria, peixe desnaturado a caminhar com barbatanas de prata. Reagrupar centro: cerco à retórica de um deus triangular, que ninguém toca desde o génesis branco, encarnado e preto.
O naufrágio do caçador de vidas ganha uma nova obsessão pelo azul quimera (blue HdM74), raso sentido de casa cheia (full house), quase cinza, onde ainda cabe uma (de)composição rectilínea a preto e branco, uma árvore da canes, um navio abalroado na sua serenidade ontológica de matéria labiríntica, croquis do destino, ave-máquina de braços abertos sobre a dispersão do traço-instrumento de medição da penumbra dos sentidos.
Nessa casa cheia de naufrágios, desce o anjo redentor na sua lambreta sem asas, a deitar a cidade pelo escape.
Que nos regride até à montagem do Fóssil: na obsidiante partitura dos calendários, o fóssil equilibra-se sobre a memória de pedra, aqui nem tudo se perde, mas tudo se cria e se transforma em ciência pendular, no fio de prumo mestiço sobem pilares de giz até aos (i)limites arquitectónicos dos sonhos recontados (me black and white) em fundo preto e marcas de água branca, engrenagens da noite a parir (i)materialidades.
Quando o naufrágio começa a vislumbrar a ilha dos pássaros do paraíso, o horizonte é rosa, os peixes brilham sob a intensa aviação das bandeiras. Talvez seja esse o leite a escorrer dos seios dos Sete pecados imortais (a preguiça, a soberba – ovonéné de íris branca, a gula, a luxúria, a avareza, a vaidade e a raiva) com os olhos (ou seios?) rasgando vestígios de uma bandeira aberta como abóbora de coração partido, a composição freme no choque de cores, auto-consciente de um resquício de asa deslocada para o ângulo inverso do universo.
Eis, enfim, a África imensa (re)unindo o calor do batuque aos sinais de trânsito do zungueiro.
Expansão de estradas, o tempo novo ganha cores, desde o cinza-claro, o vermelho, o preto, o castanho-sujo, ao amarelo-unha, a esquizofrenia é consentida, os animais tornam-se inofensivos ao discurso, pelo milagre da serenidade oculta, EXPANDe-se a cobertura total do território, os robots vertem lágrimas azuis de nave (trans)lúcida, o medo torna-se amorfo, o desenho e a colagem beijam o irmão de cabelos hirtos para as teclas de um piano, estrutura com linha de emoção parabolizada. O levantamento (survey), a procura, com o seu pente de ventos, desenrolar de motores de coração azul e OURO.
Alquimia de faraó saído da boca da esfinge ainda enrolado em lâminas de feéricos hinos a Osíris, este hieróglifo que carrega desde a eternidade as chaves da fertilidade e da morte. Nesta psicostasia digital, os papéis de HM estão cientes de que realmente a vida é uma cerimónia curta de pesagem do coração, mas a Arte é o holograma do Real Eterno.

Maculusso, 4 de Setembro de 2017


HILDEBRANDO EM MACAU

O Artista Plástico Angolano Hildebrando de Melo é um dos seleccionados e convidados para o evento JAIPUR KALA CHAUPAL, residência artística e exposição na cidade de Jaipur, na Índia.
O Jaipur Kala Chaupal foi contextualizado para integrar as artes tradicionais da Índia com as formas de arte contemporânea existentes internacionalmente. Este evento proporcionará uma oportunidade única para os artistas estabelecidos e emergentes de vários países, puderem olhar para a alma das artes e dos artistas da Índia. Simultaneamente irá proporcionar uma boa oportunidade, para os artistas indianos interagirem  com a comunidade artística global e aumentarem a compreensão sobre os estilos contemporâneos de expressões artísticas,  predominantes internacionalmente.
O evento Jaipur Kala Chaupal (JKC) Residência artística e Festival foi concebido e formalizado por um grupo emancipado de organizadores / Filantropos que esperam alargar as fronteiras das artes tradicionais e artistas tradicionais. Para se fundirem com as artes e artistas contemporâneos, para criação de uma metamorfose para uma nova e mais original expressão artística.
As Residências Artísticas vão de 19  a 30 Outubro de 2017 e a Exposição de 1 a 4 Novembro de 2017.
Esta plataforma pretende proporcionar uma oportunidade única para os já  estabelecidos, emergentes, Indianos e artistas globais. Facilitando a troca de ideias e informações sobre o desaparecimento das artes tradicionais, mantendo-se a par das alterações da mesma em todos os fluxos de arte.
O JKC também espera que os artistas indianos, tragam a diáspora Internacional para o subcontinente indiano. O Jaipur Kala Chaupal prevê ser um evento anual com as suas raízes firmemente enraizadas no Hotel Diggi Palace, Jaipur. Diggi Palace que é o anfitrião do “ Jaipur Festival Literário “  e o ambiente certo para espoletar  a energia criativa que esperamos que se manifeste.
Jaipur , enquanto capital de Rajasthan, é uma cidade rica em artes tradicionais. Com um ethos cultural diversificado e a configuração certa para trocar ideias. Com fácil acesso a matérias-primas para: trabalhos-manuais de papel reciclado, pigmentos e corantes vegetais. Como impressão em bloco, impressão em tela, a tecelagem de tapetes e utensílios de cerâmica, olaria, trabalhos de metal, fundição e incrustação em  mármore.
O acesso a estes recursos, torna Jaipur um bom ambiente para o trabalho artístico.
Hildebrando de Melo Nascido no Bailundo, Huambo, Artista Angolano. Vencedor do Prémio Ensarte na categoria juventude e do Prémio Desenhos na Areia da Empresa Norsk Hidro, presente em colecções particulares, nacionais e internacionais. Tendo já exposto em Portugal, Estados Unidos da América, Alemanha e Angola.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos