Paulo Kapela: "Arte é a recriação da vida"

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Os povos bantus vivem a espiritualidade no seu quotidano. É assim com o grande mestre Paulo Kapela. Esse ancião de Maquela do Zombo nascido em 1947, tem seu nome marcado nas artes plásticas angolanas. Seus trabalhos apareceram em inúmeras exposições colectivas em África e na Europa.

Rasta Congo e Paulo Kapela

Em 2003 recebeu o prémio CICIBA - Centro Internacional de Civilizações Bantú, em Brazzaville. Ele é deveras um mestre artístico e espiritual para a juventude, com aura suave vibrando positivamente e sua produção pecualiar, cria novos mundos novos sonhos. Com ele e seu “filho” Rasta Congo, troquei algumas expressões em torno da vida e obra.

Ocorreu recentemente uma exposição de pintura organizada pela Oficina de Arte Kapela no Elinga . A Oficina de Arte funciona na baixa de Luanda no edifício da sede social da União Nacional dos Artistas Plásticos-UNAP. Ocorreu-me ouvir o ancião da Escola Poto Poto de Brazzaville que usa a colagem e instalação como técnica na tipologia de arte contemporânea africana.

Entrando no labiríntico espaço do artista, é desolador o quadro real que constitui a sua vivência social. Num espaço preenchido de vários objectos aparentemente banais entre latas, jornais e restos de revistas, pedaços de espelhos, crucifixos e velas, bonés com as cores pan-africanas e etc, o atelier-residência do mestre que vive diariamente sob a protecção divina como ele refere atendendo a extrema miséria material do espaço e difícil sobrevivência. Acomodado num dos amontoados de revistas e velhas roupas, a conversa animada começou com o Rasta Congo que serviu de tradutor, pois o mestre expressa-se livremente na língua africana Lingala.

Ras Nguimba Ngola: Rasta Congo, o que é a Oficina de Arte Kapela?
Rasta Congo: É a demonstração da cultura tradicional bantu. É o atelier do mestre que nos dá visão. Juntei-me ao grande mestre em 1999 e muito tenho aprendido. É porém com o ânimo mais triste que o mestre se oferece a responder à questão. Com o olhar profundo e meditativo o ancião conta:

Paulo Kapela: Está a ser uma oficina de aventuras. Eles usam o meu nome em vão. Não sentamos para conversar e delimitar os aspectos de funcionamento da mesma. Repito que é um grupo de jovens que simplesmente me causam mal- estar criando-me armadilhas porém eu quero trabalhar em união. Eles chegaram aqui como terroristas. O nosso objectivo é trabalhar na união. Uma organização unida e que tenha os devidos apoios de todos os integrantes. No entanto, deles só recebo desprezo chegando mesmo a chamar-me nomes feios, humilham-me achando-me estrangeiro, maluco. Retiram as minhas coisas, sabotam as minhas idéias. Essa é a minha vida aqui.

RNN: Mas os jovens a que se refere aprenderam aqui com o mestre?

PK: Nunca trabalhei com esse grupo. Antes, vinham alguns aprender mas ignoram- me, receberam algum apoio material e abandalharam-me, desviando-o. Rasta Congo é meu aluno, surgiu aqui voluntariamente. É dedicado e com vontade de trabalhar em união. Tem dom musical e queda artística, gosta de aprender pois faz o seu intelecto trabalhar. Eu quero isso, uma oficina com jovens artistas intelectuais.

RNN: Têm recebido apoios das entidades de direito?

PK: Não recebo apoios há 20 anos aqui. (O ancião baixa o semblante visivelmente abatido e necessitado). Quero um atelier em condições e queria muito uma casa digna para descansar a velhice e trabalhar pois tenho ainda muita criatividade. Aqui não trabalho à vontade as pessoas circulam muito desrespeitando-me e aos meus pobres pertences. O grupo gerador faz um ensurdecedor barulho que retira a minha paz e tranquilidade. Aqui também não há segurança como podes observar, pedras e ferros caiem por aqui e agora que chegou a chuva os transtornos são maiores. Permitimos o silêncio a invadir o espaço, em cada inspiração e expiração marcas da dura realidade e sonhos de dias melhores que nunca virão? É grande a fé do mestre e seu discípulo e sente-se na vontade criadora do artista e seu “filho”. O que é a arte para esses dois artistas angolanos?

RC: Arte é a vida, é a segunda natureza do homem. Tudo no mundo é trabalho de arte. Arte é fazer coisas maravilhosas. Eu canto, pinto e desenho.  Amo a arte.
PK: Arte é a divindade manifestada. É a recriação constante da vida.

E já o tempo a cobrar a conversa, restam palavras de aconselhamento para a juventude com vontade artística e não só. Rasta Congo aconselha a juventude a dedicar-se aos estudos e a descobrir os dons artísticos e desenvolvê-los com trabalho dedicado. Aponta a leitura como factor fundamental para o saber, ligada à arte, pois literatura é essa arte que usa as palavras. Para o mestre Kapela a juventude “deve ter vontade de trabalhar com prazer, amor a Deus e ao próximo é fundamental pois o amor de Deus faz o artista criar com dedicação e paciência e isso vai permitir o respeito aos mais velhos e aos mestres.

RNN: E sobre os jovens que usam o seu nome?

PK: A eles peço apenas que me deiam um mínimo de respeito e amor. Eu sou já um mais velho e quero muito trabalhar com amor e união ajudando os mais novos. Não estou contente com eles. E para alguns dirigentes que aqui passaram que levaram os meus
trabalhos e não recebi dinheiro até hoje, devo dizer que eu também sou filho dessa terra logo devem evitar práticas desonestas e o separatismo tribal.

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